Roberta Filizola

24 fev, 2021

Filmes

Se na adolescência você preferia viver em um romance da Jane Austen a estar na sua própria realidade, provavelmente vai se identificar com Lara Jean Covey (Lana Condor), a protagonista de Para todos os garotos que já amei. Ela é uma menina tímida e sonhadora que vai aprendendo a manter uma relação verdadeira com todas as suas nuances, junto a um rapaz compreensivo, apaixonado e, óbvio, muito bonito.

Em uma versão mais suave e moderna do High School estadunidense, assistimos ao contrato de namoro falso entre Peter Kavinsky (Noah Centineo) e Lara Jean, que os “força” a conviver, e torcemos para que eles se percebam completamente apaixonados. Uma trama não muito original, mas desenvolvida de uma forma que consegue nos envolver.

Tanto nos livros quanto nos filmes, há várias referências a comédias românticas, pois alguns clássicos do gênero são os filmes favoritos de Covey. Assim como ela, ao assistirmos uma dessas películas pela milionésima vez, é comum questionar como aceitávamos certos discursos. Hoje em dia, parece que está mais difícil acertar a mão nesse formato, talvez pelo seu desgaste ou porque ficamos mais críticos. Deve ser complexo dosar as novas demandas dos espectadores com uma boa narrativa romântica, e o resultado é uma grande quantidade de fracassos que não nos satisfazem como muitas fizeram nos anos 1990 ou 2000. Para todos os garotos que amei, nesse sentido, é um dos poucos acertos da Netflix, porque cativa, é contemporânea e não força a barra. Mas também teve seus altos e baixos.

Os filmes

O primeiro filme é tão gostosinho de assistir que convidou muita gente a ler a obra original. O mesmo não se pode dizer do segundo que, apesar de ter mais ou menos a mesma duração do antecessor, dá a impressão de que tudo ocorre rápido demais. Muitos elementos ficaram mal desenvolvidos e parecia haver uma necessidade de mencionar diálogos e cenas do livro, de modo que só entenderia quem já o tivesse lido. Mas fiz as pazes no terceiro, que é um pouco maior que os demais. Em quase duas horas de filme, foi possível aproveitar o tempo para fazer um bom desfecho para Lara Jean sem se prender à obra literária em que é baseado.

Por exemplo, enquanto na adaptação fílmica tudo começa com LJ e sua família na Coreia do Sul – um ótimo retorno à sua atmosfera leve e colorida - o terceiro livro termina com a protagonista se preparando para esta viagem. Além disso, as universidades em que a protagonista e o namorado se inscrevem também mudam na versão audiovisual e, ao invés de escolher o programa de Literatura na Universidade da Carolina do Norte, no filme, Covey opta pela Universidade de Nova Iorque, que é muito mais apaixonante para quem não é dos EUA.

Lembra da transição pela qual a comédia romântica vem passando? Dá para ver isso em Lara Jean que, na medida do possível para uma adolescente, sempre soube se respeitar e nunca tentou ser algo diferente do que é. Diga-se de passagem, seu guarda-roupa possui os melhores looks. E, por mais que sofresse com um possível término de seu namoro, não se privou de decidir pela faculdade que queria, mesmo que isso significasse se distanciar de Peter.

Já Kavinsky não transmite tanta veracidade, mas é injusto cobrar isso numa obra desse estilo. Li uma vez que Mindy Kaling, roteirista e intérprete de Kelly Kapoor em The Office, admitiu ter passado um tempo sem conseguir sair com homens reais porque esperava que eles a tratassem como Jim fazia com Pam. O personagem de Centineo cumpre bem esse papel e, depois que assistimos, ele parece ser o único crush possível.

Um dos principais motivos para explicar a sensibilidade do garoto é o rancor que sente pelo Sr. Kavinsky (Henry Thomas), seu pai, que o abandonou para se dedicar a outra família. Por isso, ele faz questão de ser fiel à Lara Jean. Ainda assim, foi um pouco difícil acreditar na cena em que ele deixa de ir para a cama com ela por medo de que isto fosse uma despedida.

O namorado de LJ reclama porque, depois que resolvem estudar em campus distintos, ela age como se quisesse transformar tudo o que vivem em uma lembrança, como se o relacionamento deles estivesse prestes a acabar. Mas não importa o quanto desmintam Lara Jean e Jenny Han, a autora dos livros, nem nosso desejo de que os casais/ships/OTPs fiquem juntos para sempre. Essa é a única certeza que temos em relação a um romance de ensino médio.

Os livros

Embora eu adore esse universo e seus personagens, o volume que podemos imergir com menos desconfiança é o primeiro (Para todos os garotos que já amei). Quando terminamos a leitura dele, ficamos com vontade de ser Lara Jean. Os outros não tem a mesma fluidez e a trilogia, aparentemente, foi escrita para atender ao contrato ou ao padrão do gênero. Ainda assim, sempre aconselho esta série para quem só quer um romance bem válvula de escape.

No segundo livro (P.s.: ainda amo você), até que é legal a perspectiva que Han nos dá quando John Ambrose McClaren, personagem que vem para abalar o casal principal, diz para a protagonista algo como “ainda não é nosso momento, Lara Jean”. Eu sempre sou bem fiel aos meus ships e com LJ & PK não é diferente. Mas é muito frustrante torcer pelo Peter, que só faz besteira, enquanto John se mostra o pretendente perfeito.

Quanto ao terceiro (Agora e para sempre, Lara Jean), o príncipe que Kavinsky era no início retorna e a relação deles dois volta a aquecer o coração. Mas toda a ansiedade de LJ para decidir seu futuro, mesmo que teste várias receitas deliciosas de cookies no processo, deixam o romance meio chatinho. Afinal, já basta nossas próprias angústias. O livro é uma espera e, além de ser meio parado, o peso do “para sempre” entre Covey e seu namorado faz tudo ficar inverossímil demais.

O final de LJ & PK

O último filme poderia ter sido um pouco menor e mais sugestivo, principalmente no final. Aquela cena deles dormindo juntos, por exemplo, foi meio fora do timing. Mas, pelo menos, não atropelou as tramas paralelas como o longa anterior, e até que desenrolou bem o casamento de Dan (John Corbett), o pai de Lara Jean, com Trina (Sarayu Rao); a relação de Peter com o pai, que terminou mais alto astral que no livro; e a despedida do ensino médio com o receio de iniciar uma nova etapa. A adaptação tem força própria e simbolizou uma ótima homenagem aos dates, contratos e cartas de amor em Para todos os garotos que amei. É uma comédia romântica que vai ficar agora e para sempre na lembrança e, com certeza, vou assisti-la outras mil vezes. Pode ser um pouco brega, mas como o assunto é romance, tá permitido: PK & LJ foi eterno enquanto durou.

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