“Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades.” É com essa citação do Tio Ben que é possível definir que Capitã Marvel foi apresentada com grandes promessas para o futuro do UCM. Porém, nesse tímido filme solo, apenas a superfície foi mostrada, o que já é muito bom

O primeiro filme solo de uma super-heroína da Marvel carrega o peso de mostrar mais do que apenas uma nova personagem, além disso, ele precisa apresentar uma protagonista com poderes imbatíveis em um nível tão alto, a ponto de colocá-la a fim de bater de frente com Thanos. É isso que Capitã Marvel faz, o filme nos introduz no mundo dessa mulher extremamente poderosa, mostrando apenas a superfície do seu potencial, mas o suficiente para termos uma dimensão do que podemos esperar no futuro.

Ao mesmo tempo que temos essa expansão do universo cósmico da Marvel nos cinemas, na vida real ganhamos mais espaço da representatividade da mulher como personagem principal de uma produção de super-herói.

O longa já nos mostra Carol Danvers, ou Vers como é seu nome Kree, seis anos depois de ter sofrido o acidente que lhe deu os poderes, e agora fazendo parte da Starforce. Nesse cenário, é muito compreensível que Brie Larson demonstre poucas expressões e seja menos emotiva em sua interpretação, já que sua personagem perdeu toda a memória de sua vida anterior ao acidente, possuindo apenas alguns flashes do que viveu, mas a todo momento surgem dúvidas do que pode ser real ou não. Apesar disso, Larson entrega uma Capitã Marvel engraçada, quando a cena possui abertura para isso, bem como a seriedade de uma guerreira no meio de uma batalha.

Fica muito claro a construção da identidade da Capitã, uma trajetória de auto-descoberta que requer coragem para desvendar o passado e força para seguir um caminho futuro de grandes responsabilidades. Tudo amarrado dentro da fórmula Marvel que foi levemente modificada para este filme de origem, que se destaca como o mais diferente dentre os outros heróis. Larson se provou a escolha ideal para interpretar a Capitã, deixando para trás toda a incerteza que ainda poderia existir.

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No desenvolver da história, com pano de fundo da Guerra Kree-Skrull sem aprofundar muito os motivos, os personagens que acompanham Carol Danvers fazem a jornada ganhar um brilho a mais, é com eles que a experiência de assistir a mais uma filme de origem fica melhor.

Samuel L. Jackson e Clark Gregg voltam como Nick Fury e Phil Coulson, mas é Jackson, com um CGI fantástico para rejuvenescer o ator, junto com o gato Goose (o filme não seria o mesmo sem o pet), que rouba a cena sempre que aparece. O olhar inocente do agente, de quem ainda desconhece os perigos do universo, conversa bastante com a década de 90, ano que o filme se passa, quando teorias da conspiração alienígena eram motivos de piada. Fora, é claro, a incrível dupla que Fury e Carol formam, com uma leveza que faz parecer como que ambos se conheçam a anos.

No mesmo ritmo, Ben Mendelsohn como Talos, comandante dos Skrulls, é assustador e encantador ao mesmo tempo, suas motivações para o embate contra a Capitã carrega uma virada na trama que é inesperada e deve se tornar assunto entre os fãs.

Entre todos os personagens, dois ganham destaque por sua grande importância na vida de Carol. Lashana Lynch, como Maria Rambeau, melhor amiga de Carol, funciona como o elo emocional perfeito que liga a Capitã com sua vida na terra. É quando as duas se encontram que o choque entre passado e presente tem o seu ápice no filme. Annette Bening entrega uma atuação admirável, interpretando dois papéis que são chaves para o mistério da história. Por fim, Jude Law tinha tudo para brilhar ao lado de Brie Larson, mas Yon-Rogg fica meio perdido nas cenas cósmicas, ainda que cumpra com o seu propósito.

Em algumas partes do filme, o roteiro escrito por Anna Boden, Ryan Fleck e Geneva Robertson-Dworet tenta entregar grandes momentos, mas falha em manter a grandiosidade do que é proposto, não que sejam ruins, pelo contrário, são bons momentos, só que executados de forma fraca. É no intimismo que as cenas marcantes estão, e é por isso que o filme deveria ser lembrado, não pelas ótimas sequências de ação, boas coreografias de luta ou os efeitos visuais, que nesse quesito deixam a desejar um pouco, principalmente no terceiro ato, mas nos encontros e diálogos entre personagens diante da tela é que mora o coração de Capitã Marvel.

Apesar da direção de Boden e Fleck ser estável, é no núcleo da Terra que eles mostram seu melhor lado, enquanto no espaço fica um questionável desencontro de qualidade, mas nada que prejudique o filme de forma nenhuma. A ambientação na Terra dos anos 90 fica um pouco superficial também, mas a ótima trilha sonora faz essa imersão de forma satisfatória.

Apesar das falhas comuns, o filme consegue se sobrepor às críticas negativas recebidas. Brie Larson passa longe de ser uma atriz inexpressiva aqui, ela entrega o que a personagem pede e com uma força de dar inveja. Comparações com outros filme de heróis irão surgir, mas Capitã Marvel é um filme único, com um peso significativo gigantesco. É uma boa introdução de uma personagem chave, que prepara o terreno para ser decisiva em Vingadores: Ultimato. Mesmo com uma trama redonda e um final consistente, Capitã Marvel é o futuro do Universo Cinematográfico Marvel, e ainda tem muito o que mostrar.