Produção de James Gunn, Brightburn chega com a proposta de inaugurar um novo gênero nos cinemas, explorando a vertente do super herói com muita competência

Você precisa assistir Brightburn: Filho das Trevas, filme produzido por James Gunn que conta basicamente a história de como seria um Superman maligno, levando em conta as premissas da origem do personagem como crescimento em ambiente rural, pais adotivos, puberdade e potencial para subjugar todo o planeta.

Trata-se de uma produção com evidente baixo orçamento, algo em torno de US$ 7 milhões segundo o IMDB. Nesse sentido, seria injusto tecer qualquer comparação com produções super heroicas do nível Marvel Studios, que não gasta menos do que US$ 180 milhões em seus longas (se estendermos a conversa para a dobradinha Vingadores: Guerra Infinita e Ultimato então…).

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Tori Breyer (Elizabeth Banks) em BRIGHTBURN.

Elizabeth Banks, que esteve com James Gunn em Seres Rastejantes (2006) consegue segurar quase o filme todo nas costas, ressaltando a importância que é ter uma atriz desse porte numa produção de orçamento modesto. Sua personagem passa por diversos estágios condizentes com o que achamos verossímil nessa situação fantasiosa. Antes de tudo ela é uma mãe que se dedicou exclusivamente a criar uma criança que veio de lugar desconhecido, e sua curva dramática passará por momentos que vão colocar em prova, além de tudo o que ela e qualquer pessoa comum entende como moral, esses valores maternos que por vezes custa caro a muitas mulheres. Por sua vez, o protagonista vivido por Jackson A. Dunn consegue transmitir uma aura sinistra na maior parte do tempo e também convence.

David Yarovesky faz uma direção bem conduzida que atende a proposta do filme de modo pontual. Nada que mereça grandes aplausos, mas numa olhada entretida com a boa história não aparecem muitos equívocos. O uso do susto, o famoso jumpscare, é algo recorrente aqui e soa natural seu uso dentro da proposta do filme. De quebra, ajuda a manter a galera no cinema apreensiva.

O novato diretor está envolvido com James Gunn há algum tempo, onde ele foi um dos Ravengers de Guardiões da Galáxia Vol. 2 e logo em seguida dirigiu o hilário Guardians of the Galaxy: Inferno, clip com a participação de David Hasselhoff para divulgação do homevideo do filme.

O roteiro de Brightburn é de igual modéstia, sendo escrito por Brian Gunn e Mark Gunn. Acontece alguns esquecimentos bobos, como o uso das iniciais do protagonista como única pista para o oficial da polícia ir em sua residência, sendo que essa suspeita teria muito mais substância caso o oficial encontrasse um dos desenhos de Brandon, que poderia ter ido parar com a sua colega de classe, que por sua vez foi esquecida pelo roteiro num momento importante: o desaparecimento de sua mãe. Fica a impressão de que foi algo recortado na edição final do filme.

Ainda assim, o texto consegue brincar com nossa expectativa em relação à resolução dos problemas apresentados, oferecendo ao final um universo inédito e com grande potencial para garantir a continuidade desse subgênero criado. Talvez tenha faltado um pouco mais de profundidade na questão mitológica da origem de Brandon Breyer, mas a falta dessas informações mantém a ideia (mesmo que rasa) de analogia ao Superman.

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Jackson A. Dunn como Brandon Breyer

Posto isso, precisamos ressaltar aqui o forte apelo visual do filme, com cenas chocantes dignas de um bom slasher, apresentando forte viés no gore que vai mostrando aos poucos a vulnerabilidade do corpo humano frente ao poder de um “Superman do mal”.

Claro que vale uma reflexão sobre se realmente estamos presenciando o nascimento de um novo gênero, o tal horror super-herói. A resposta para isso só deve vir com o tempo, dependendo do desempenho do filme com público e crítica. Se a ideia emplacar, há um grande mar de possibilidades a serem exploradas, até mesmo fora dessa proximidade forte com personagens consagrados dos quadrinhos.

É sempre bom lembrar a influência de James Gunn nesse projeto, pois ele vem desse viés independente e, diferente de outros cineastas, parece não querer abandoná-lo em momento algum. Desse modo, Brightburn: Filho das Trevas tem muito do que ele já produziu anteriormente, como podemos conferir em Seres Rastejantes (horror) e Super (herói), representando assim a união desses dois gêneros.

Do ponto de vista macro, essa produção oferece um respiro para quem encontra dificuldade em enxergar nuances e subjetividade em produções comercialmente mais amplas, não só como as da Marvel Studios mas também da própria referenciada Warner com seus personagens DC Comics. Ao mesmo tempo, fica a curiosidade de como será a reação da própria empresa em ver uma versão alternativa de um produto seu no mercado.

No final, fica um claro movimento para que Brightburn represente não apenas um novo subgênero nos cinemas, mas também o início de um universo expandido no melhor estilo Marvel Studios, mas com orçamento nanico. Isso obriga que prevaleça as boas ideias, aliando criatividade com competência de uma galera que pode até não estar nos holofotes do cinema pipoca, mas é capaz de entregar coisas tão grandiosas quanto qualquer um.