Com uma atmosfera de horror cósmico, Aniquilação entrega uma boa trama de ficção científica, cheia de mistérios e cenas sublimes

Aniquilação é uma produção original da Netflix, adaptação de uma série de livros homônima, dirigida e roteirizada pelo promissor Alex Garland. Alex já tinha demonstrado seu talento dirigindo uma ficção científica no aclamado Ex Machina (2015), vencedor do Oscar de Efeitos Especiais. Além disso, também tem experiência com horror pelo roteiro de O Extermínio (2002), numa época em que filmes de zumbis/infectados estavam em baixa, este foi muito bem recebido pelo público e pela crítica. Em Aniquilação, há um equilíbrio sutil e eficaz entre ficção científica e horror, onde Garland trabalha o conflito entre o medo do desconhecido e a curiosidade humana, com cenas que misturam o belo e o intimidador.

Na trama, Natalie Portman interpreta Lena, uma bióloga e ex-soldada que após seu marido (Oscar Isaac) ter desaparecido numa expedição secreta e reaparecido sob circunstâncias estranhas, é convocada para uma missão exploratória na Área X, um local isolado da civilização, cercado por um campo energético conhecido como “Shimmer”. Outras três mulheres a acompanham nesta missão: Dr. Ventress (Jennifer Jason Leigh) psicóloga e lider da expedição, Anya Thorensen (Gina Rodriguez), paramédica e Josie Radek (Tessa Thompson), doutora em física. Como duas tropas de soldados enviadas à Área X não retornaram, as cientistas decidem ir munidas de armas de alto calibre, sem saber dos riscos que as aguardam.

Durante boa parte do filme a narrativa segue pela perspectiva de Lena e sob linhas do tempo distintas, principalmente no início do longa, intensificando a atmosfera de mistério, porém, em certos momentos, pode parecer forçar uma confusão desnecessária. As memórias dessincronizadas, juntamente com cenas que beiram o surreal em alguns casos, reforçam a noção de que Lena pode não ser uma narradora confiável.

Ao entrarem na área X, as cientistas percebem que diversos aparelhos eletrônicos e de geolocalização pararam de funcionar. Algumas espécies exóticas e ameaçadoras de seres vivos surgem no ambiente, forçando as personagens a usarem suas armas para se defenderem. Inicialmente, algumas atitudes das cientistas podem gerar estranhamento do público, pois não há um planejamento muito cauteloso para uma missão daquela relevância e risco. No entanto, parte dessa falta de cautela e precauções é justificada pelas motivações de algumas personagens, ainda não reveladas no início do longa, além da justificativa de que o “Shimmer” pode alterar o comportamento e estado psicológico de quem está sob ele.

Confesso que enquanto cientista (biólogo), alguns fatores me incomodaram no filme, como por exemplo as hipóteses levantadas por Lena e suas companheiras, que apesar de exigirem um teste e serem difíceis de se afirmar sem uma análise apurada, foram imediatamente assumidas como verdades pelas personagens. As cientistas não pensavam num leque de possibilidades (como deveria ser feito em ciência), mas apenas em uma hipótese que enviesava toda sua linha de pensamento. Apesar disso, um lado intrigante da figura do cientista foi muito bem representado: a curiosidade das personagens, principalmente da protagonista, é sua maior motivação, ultrapassando até mesmo os limites da auto-preservação. A ânsia pelo desconhecido e a mistura de apreensão e fascínio é retratada em diversas cenas com belíssimos efeitos e fotografia. O sentimento controverso que um cientista enfrenta ao se deparar com fenômenos que vão muito além das leis já conhecidas, promove consequências diversas para cada uma das personagens, influenciadas pelos seus segredos pessoais. As “anomalias” se iniciam com espécies de vegetais e animais com características híbridas, porém a medida que a história avança esta “hibridização” começa a ocorrer não mais apenas em seres vivos, subvertendo a própria delimitação das formas vivas até culminar numa sequência final lisérgica e inebriante. O belo visual do filme é acompanhado de uma trilha sonora pontual, porém impactante, além de ótimas atuações de toda a equipe de cientistas principais.

Com pitadas de horror cósmico, a premissa da trama lembra bastante A Cor que caiu do céu de H. P. Lovecraft, e a obra do autor como um todo, pelo próprio contexto de formas hibridas, fenômenos inexplicáveis e pela presença de um narrador não confiável. Apesar do roteiro parecer forçado em alguns momentos, acompanhado por uma narrativa não muito fluida, Aniquilação consegue entregar uma bela ficção científica, com um bom ritmo, cenas sublimes, e uma reviravolta eloquente no final.