Edipo Pereira

23 jun, 2021

Animes e Mangás

Entre erros e acertos, adaptação para a Netflix entrega boas lutas entre humanos e deuses

Não sei bem explicar a expectativa dos fãs de anime para a chegada de Record of Ragnarok (Shuumatsu no Valkyrie) na Netflix, mas se eu fosse obrigado a correr o risco, diria que foi pelo carisma estético do trabalho original aliado à proposta de colocar uma verdadeira salada de frutas divina para se estapear numa arena onde está em jogo o destino da humanidade. Essa fórmula, que aproxima o desenho a outros consagrados, como Dragon Ball Z, tende a render bons momentos e reter a audiência jovem quando bem executada.

A história se inicia a partir de uma audiência em Valhalla, onde os deuses se reúnem periodicamente para decidir se a raça humana merece viver por mais um milênio. Ao ver que a panelinha divina não tá muito simpática com os homens e as mulheres, a mais velha das Valquírias, Brunilda, intervém e propõe que essa decisão venha de um modo pouco convencional: uma disputa entre deuses e humanos, 13 batalhas de um contra um onde quem vencer ao menos 7 dessas lutas se consagrará vencedor. É o Ragnarok.

Claro que se pensarmos que são os seres humanos que andam destruindo as florestas do planeta, agredindo a camada de ozônio, elegendo estrumes feito Bolsonaro e Trump, é prudente concordarmos com os deuses de que já deu para nós. E vem daí a principal fraqueza no roteiro do anime, que é não nos dar um bom motivo para torcer pela raça humana. A coisa muda um pouco quando conhecemos cada um dos campeões que irão enfrentar os deuses nas três rodadas que essa 1ª temporada contempla, mas fica evidente que falta substância.

Que fique claro: não conheço o mangá que deu origem a Record of Ragnarok, e fiquei sabendo que o anime tem sofrido com algumas críticas de ordem técnica (saiba mais aqui).

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Adão em sua participação na segunda luta da batalha que decidirá o destino da raça humana

Record of Ragnarok é porradaria divina: precisa explicar mais?

Como grande entusiasta de ideias novas (mesmo que dentro de uma fórmula pra lá de gasta), vejo com bons olhos a dinâmica apresentada. Por mais que tanto no título ocidental quanto oriental as referências sejam da mitologia nórdica, o que ocorre é uma mescla de tudo quanto é crença: Zeus, Odin, Shiva, Loki, Thor, Adão... não há horizontes divinos aqui. Outro detalhe interessante é o próprio conceito do que é o Ragnarok, coisa que a Marvel já brincou muito bem no terceiro filme do Thor para os cinemas.

Do ponto de vista narrativo, o anime sofre um pouco, tendo o seu ritmo quebrado. Para suprir a falta de uma contextualização prévia e atender a demanda dos mais apressados, colocando os lutadores prontos pra luta logo de cara, o resultado disso é cerca de vinte minutos de flashback para explicar uma característica do personagem em análise, de um novo golpe que vai ser desferido ou qualquer coisa semelhante. Essa fórmula poderia ser melhor dosada pela direção, e, infelizmente, acaba pesando negativamente na nossa experiência ao assistirmos a série.

Além da crítica feita anteriormente, de que falta elementos para que sintamos simpatia pelos humanos, ainda não sabemos exatamente até então as motivações de alguns personagens, como é o caso das Valquírias. Na figura de Brunilda, vemos elas se rebelarem contra os deuses em prol das pessoas, e essa trama de bastidores dá uma certa qualidade à coisa toda. No final das contas, pode ser que essa peia divina não seja apenas luta pra agradar adolescentes ávidos por ação.

Mas o saldo é positivo. Record of Ragnarok não veio pra revolucionar o seguimento, mas traz uma trama simples e personagens com grande potencial de carisma nesta 1ª temporada. No entanto, alguns ajustes e melhor cuidado com a edição são necessários para a continuidade do anime.

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