USS Callister abre a nova temporada de Black Mirror com uma paródia doentia de Star Trek.

Black Mirror está de volta e, como de costume, você vai conferir o review de todos os episódios por aqui. A série cyberpunk de Charlie Brooker tem 6 novos episódios na Netflix e promete muita discussão e depressão. A nova temporada já começa com os dois pés na porta trazendo um dos melhores episódios da série: USS Callister. Bom lembrar que o review está cheio de Spoilers.

O episódio já se inicia de forma genial trazendo algo que parece uma paródia de Star Trek, com direito a efeitos de vídeo antigo e tudo, um show de vergonha alheia. Mas nem tudo é o que parece e vemos o então protagonista da história Robert Daily (Jesse Plemons) de volta à vida real onde ele é um introvertido programador de um jogo de realidade virtual. Bob conhece então a novata Nanette Cole (Cristin Millioti) e se interessa por ela. Sabendo que não vai poder ficar com a moça descobrimos que ele é um psicopata que pega o DNA dos colegas de trabalho e cria consciências dos mesmos em seu jogo. A história então muda e acompanhamos a consciência copiada de Cole tentando fugir de dentro do jogo doentio de Daily.

capitão daily segurando uma máquina e sua tripulação atrás

Esse é um clássico episódio de Black Mirror onde uma nova tecnologia é apresentada e vemos um uso perturbador da mesma de forma assustadora. É importante ressaltar que esse episódio utiliza conceitos de outros como “Playtest”,”White Christmas” e “San Junipero”. Mas a novidade é fazer essa paródia de Star Trek em uma narrativa que pega esses conceitos já apresentados e nos entrega algo novo.

Um dos principais aspectos interessantes do episódio é a mudança de protagonismo. No início, temos Daily como o clássico nerd que sofre bullying mesmo sendo um gênio, mas aí descobrimos que na verdade ele é o vilão da história que passa a ser sobre a consciência de Cole tentando fugir da realidade doentia criada por Daily. Outros personagens outrora escrotos também viram vítimas desse jogo onde eles têm que fazer tudo para agradar Daily, até mesmo interpretar cenas absurdas e beijar o seu deus.

integrantes da nave dando um oi

Outro aspecto que se destaca aqui é a produção bem mais próxima de algo cinematográfico, os efeitos especiais estão muito bons e existe um trabalho ótimo de fotografia diferenciando a realidade virtual da real. A direção de Todd Haynes (Sherlock, Doctor Who) consegue ser tensa e trazer um sentimento de desespero clássico de Black Mirror, mesmo sendo um dos poucos episódios que terminam “bem”. A maquiagem também está de parabéns por diferenciar muito os personagens dentro do jogo e na vida real..

Mas o forte de Black Mirror ainda é a discussão. E a principal discussão aqui é sobre direitos humanos de consciências virtuais. Será que elas merecem ser tratadas como todos nós ou não merecem pena nenhuma por serem “falsas”? Daily usa o seu jogo como uma forma de escapismo do mundo real para poder fugir dessa personalidade introvertida e sem poder que ele tem. Ele não é muito diferente de todo mundo que pega um GTA e sai matando e torturando pessoas somente por diversão. A grande diferença aqui é que os “NPCs” são conscientes e sofrem de verdade. Isso nos faz refletir nossas próprias ações o porquê de sermos tão psicopatas em jogos.

Cole olhando com medo para cima

Esse tema de uma consciência virtual pode gerar enormes papos, claramente podemos ver que Daily não trata seus colegas virtuais como humanos, para ele são somente códigos que não merecem ser tratados como gente. O que abre uma discussão sobre o que é ser humano de verdade, se a humanidade vem de memórias e a capacidade de sentir, uma inteligência virtual não é muito diferente de um ser humano de carne e osso, por sentir de forma parecida. Também existe a discussão do que é ser “eu”, muito parecido com o que vimos em “San Junipero”, existe até uma armadilha aqui que é o seguinte: se o telespectador não comprar a ideia de que aquela consciência virtual pode sentir como nós, é capaz de que ele não compre todo o drama da história e não se importe com eles.

Em segunda instância o episódio ainda consegue fazer uma crítica aos próprios nerds, presos em seus mundinhos e se achando superiores a todos. Pessoas que se prendem em realidades virtuais e acabam deixando de viver as vidas “reais”. Até mesmo no final do episódio temos uma brincadeira sobre isso quando aparece um jogador online que não tem o mínimo de apreço pela “vida” humana dentro do jogo. Isso nos faz refletir sobre nossas ações nesses ambientes, por sabermos que não existe punição, nossas ações são muitas vezes sem pensar e com nada de humanidade.

close no capitão daily

USS Callister possui alguns malabarismos de roteiro para que algumas cenas funcionem mas é um ótimo exemplar da série, entrando para o rank de um dos melhores episódios de Black Mirror. O segmento possui uma direção cinematográfica, fazendo referências à cultura pop e reflexão sobre nossas ações. O episódio é um dos mais longos e não traz muitas inovações tecnológicas como o centro da trama, mas aproveita conceitos já expostos e os usa de uma maneira diferente e genial.

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