Para jovens escritores, o envio de um original a um editor é um momento único, repleto de alegria, torcida e… espera! Como fazer esse envio de um modo eficiente e quais as outras opções de carreira além do mercado tradicional? Essas e outras perguntas serão discutidas por Enéias Tavares e seus convidados no Bestiário Criativo deste mês. Prontos para conhecerem o Grifo Escritor e a dura tarefa de criar um Book Proposal para o seu universo fantástico?

Grifos são monstros ancestrais híbridos que, como as esfinges, possuem cabeça e corpo de águia e corpo leonino. Essa aglutinação de dois animais repletos de significações simbólicas refere-se tanto a sua capacidade aérea e intelectual quanto terrestre e material. Símbolos de sabedoria e força, raros são os monstros tão admirados quanto eles. Além disso, lendas aludem a sua capacidade de colocarem ovos de ouro em ninhos distantes e inacessíveis. Deles nasciam outras criaturas tão mágicas e poderosas quanto seus pais.

No caso dos grifos, há um desafio não apenas de conceber ovos dourados como também de construir ninhos adequados para os proteger. E neste caso, o obstáculo era maior: Além de zelar pela vida de suas futuras crias, havia também o risco de atrair ladrões que buscavam por seu valioso invólucro! Em termos gerais, Grifos apontam para nossa capacidade tanto de sonhar e planejar quanto de transformar esses planos ousados em materialidades concretas. Para escritores, essa dupla natureza é essencial. Cabeça nas nuvens – para conceber histórias incríveis – e bunda na cadeira – para escrever as benditas cinquenta mil palavras.

Grifo Real, por Thiago Almeida

Se antes usamos esfinges como metáforas para os nossos heróis e heroínas, agora usaremos grifos para falar dos nossos esforços para colocar obras, manuscritos, projetos e ações no mundo. E se usarmos a criatura e seus ovos para tratar da história, isso quer dizer que nossos livros serão nossos filhotes, não é mesmo? Hmmm… não. Na verdade, aqui é o ponto em que precisamos deixar nosso vínculo emocional com nossas histórias um pouco de lado para investir mais em nossa capacidade estratégica, racional e mercadológica. Isso mesmo, amigos, no post deste mês, o penúltimo da nossa coluna, não teremos problema algum em tratar de questões editoriais, comerciais e financeiras. Afinal, profissionais pensam em tudo isso, não é mesmo?

Mas antes de mergulharmos nas oportunidades e desafios do mercado, precisamos de um dedinho de prosa sobre nosso manuscrito. Será que depois de meses de trabalho, chegando à última versão da nossa história, devemos então já enviá-lo pras editoras, agentes e contatos? Novamente, a resposta é não. E essa resposta tem a ver um assunto que atormenta muitos jovens escritores: Serviços Profissionais de Leitura, Preparação e Revisão!

Revisões Profissionais: Pagar ou Não Pagar, Eis a Questão!

Como vimos antes, um Manuscrito dificilmente terá uma única versão e por isso mesmo dificilmente passará por apenas uma Revisão. Aqui eu gostaria de diferenciar – para evitarmos qualquer mal-entendido – Versão de Revisão, apesar de muitos tratarem dessas palavras como sinônimas. A meu ver, “Versões” são feitas pelo autor, ao passo que “Revisões” são executadas por profissionais cujo envolvimento com sua história e seu texto é de outra natureza. A Revisão é como a Preparação de Texto, que tende, por exemplo, a ser feita por um profissional de uma editora. Estamos falando de especialistas que receberam formação especial – editorial ou acadêmica – para executar essas funções. Mas quais profissionais seriam esses? Vou tratar de quatro:

  • Leitores Betas: São leitores profissionais, geralmente já inseridos no mercado editorial ou com vasta experiência no meio, que irão fazer uma leitura comentada a fim de avaliar a qualidade do seu manuscrito em relação ao mercado. Seus comentários tendem a ser mais amplos, sugerindo alterações no enredo, adição ou exclusão de personagens, construção de conflito e reescrita de capítulos específicos, entre outros elementos.
  • Editores: São basicamente Leitores Beta, com a diferença de que esses têm um interesse mínimo na sua história e de que há a possibilidade de publicá-la no futuro. A dificuldade em encontrar Editores dispostos a avaliar um original é o que muitas vezes leva autores e autoras a buscarem por Leitores Beta profissionais.
  • Preparador de Texto: São pessoas que trabalharão com seu texto corrigindo variações mais pontuais como construção de diálogos, frases ambíguas, descrições confusas, passagens paradoxais, incongruências narrativas, espaciais ou temporais, entre milhares de outros elementos que constituem um texto ficcional. Um preparador – também chamado de “Copidesque” por alguns – idealmente trabalhará com um texto que já passou pelo crivo de um leitor beta ou de um editor.
  • Revisor Gramatical: Por fim, chegamos àquele homem ou mulher que irá acentuar suas palavras, corrigir suas crases, ajustar suas locuções, concertar suas concordâncias nominais e verbais, diminuir parágrafos longos ou aumentar parágrafos mínimos, entre milhares de outros afazeres que envolvem o trabalho final com um texto. Não é raro editoras contratarem dois ou até três revisores gramaticais. Como muito pode acontecer com um texto entre sua última versão DOC e a versão diagramada, em PDF, é comum um revisor pegar uma versão e o segundo, outra.

No Brasil, ainda há certa imprecisão nas nomenclaturas dessas atividades. Como disse, para muitas pessoas o editor não passa de um leitor beta. Já outras, ainda esperam que uma única pessoa faça tanto Preparação de Texto quanto Revisão Gramatical. Apesar desses papeis poderem ser intercambiáveis, eu gosto de pensar em pessoas diferentes fazendo essas atividades. Afinal, revisar pescando incongruências narrativas é BEM diferente de ler caçando colocações pronominais erradas. Não concordam? Pra mim, tentar fazer essas duas coisas é como tentar levar duas conversas ao mesmo tempo com duas pessoas diferentes. Em algum modo, você vai dar uma bola fora!   

O que nos leva ao inevitável debate sobre o pagamento dessas atividades. Trataremos da diferença entre a produção inserida no mercado e a produção independente na próxima seção, mas de saída se espera que editoras profissionais paguem pelos serviços descritos acima. Mesmo assim, se você decidiu publicar seu livro de forma independente ou simplesmente deseja melhorar seu texto antes de apresentar para uma editora ou um agente, isso significa que você pagará por esses serviços.

Ninho de Grifo por Myron C.P.

“Mas e seu eu tiver um amigo ou amiga que é revisor(a) de texto? Ou um conhecido que já trabalha em uma editora?” Ou, ainda, “um ‘parça’ que não iria me cobrar? Será mesmo que eu devo pagar por esse tipo de serviço?” Sim, você deve. Ainda mais se a pessoa for sua amiga. Afinal, você pagaria por qualquer outro serviço executado por um estranho, não? Fosse ele de tradução, encanamento, instalação elétrica ou… limpeza de sua casa! Por que diabos os amigos têm então de trabalhar de graça? E as razões disso são inúmeras.

Quando pagamos um profissional, estamos pagando por dois grandes investimentos de tempo: O tempo que ele ou ela levou aprendendo a tarefa que estamos contratando e o tempo que ele ou ela levará para executar nosso pedido. Essa é uma questão sempre delicada, mas nós, que estamos querendo adentrar um mercado e fazer com que esse mercado prospere, devemos fazer esse investimento, tanto nos profissionais que o integram como também em nós mesmos! Isso mesmo, porque em última instância, um texto bem preparado e bem revisado contará MUITOS pontos na avaliação de seus futuros Editores e, ainda mais, dos seus futuros Leitores.

Sobre a importância desses diferentes serviços, Nikelen Witter, autora de Territórios Invisíveis e de Guanabara Real – A Alcova da Morte, ambos da AVEC Editora, afirma: “Acho que todo o escritor deve seguir os seguintes passos: Envie o texto o mais pronto possível. Isso significa investir em boa betagem, boa preparação de texto, e uma excelente revisão. Ah, a editora vai fazer isso? Algumas irão e ainda assim, não se perde nada em fazer antes dela. E, principalmente, nem todas as editoras farão isso e não é por que seu livro é perfeito, nenhum é, é por falta de grana, desleixo e, em alguns casos, pouco domínio do processo editorial. Prefira editores chatos para não se arrepender depois.”

“Entendi”, você diz. “Mas e os grifos, onde foram parar?” Na Idade Média, o cristianismo transformou grifos em símbolo divino, mantendo porém sua simbologia tradicional de caráter divino e terrestre. Neste contexto, o grifo era um guardião, um protetor que vigiava o acesso às sagradas verdades. Por isso o encontramos em igrejas, templos e palácios de arquitetura gótica na Idade Média e também depois. Se você, como escritor, é um grifo, isso quer dizer que vocês deseja proteger seus ovos dourados, não? Então, pense nesses profissionais – leitores-beta, preparadores e revisores de texto – como os sagrados guardiões e protetores do seu precioso ninho.

“Tá, mas como eu faço para ter meu livro publicado?”

Já vamos chegar lá. Mas já adianto que a resposta é um pouco mais complexa do que gostaríamos. Com o manuscrito pronto, preparado e revisado, qual é o próximo passo? Bom, dadas as várias opções, a escolha é com você. Mas basicamente, a principal decisão que você precisa tomar no início da sua carreira é se você optará por adentrar no mercado tradicional ou se tentará uma carreira independente. Acredito que essa é a grande encruzilhada que qualquer autor enfrenta em um momento ou outro do seu percurso.

No caso da primeira opção, isso significa objetivar casas editoriais sérias e profissionais, que terão respeito por seu livro, respeito por você e que não cobrarão por isso. “Mas cara… você não disse há pouco que pagar é um investimento?” No caso de pagar um profissional para melhorar seu texto, sim. No caso de uma editora, nem sempre. Digo isso porque são notórios os casos de editoras que cobram valores de produção bem altos e que acabam não revertendo nem em visibilidade nem em qualidade para jovens escritores. Na dúvida, façam pesquisas, avaliem relatos e tentem contatar, através das redes sociais, autores que tiveram livros publicados por editoras que costumam cobrar pela publicação.

No caso das editoras profissionais, que não cobram dos autores, o problema é que elas demoram muito tempo para avaliar um original, isso se chegarem a fazê-lo. E, salvo exceções, elas não fazem isso por serem más ou prepotentes e sim por falta de tempo. Editoras recebem um alto número de propostas, e-mails, manuscritos, pedidos etc, e nem sempre conseguem responder ou mesmo avaliar todo esse material. Fora do Brasil – e em nosso país essa também é a tendência futura – a solução pra esse problema é a criação de agências literárias que servem de intermediária entre autores e editoras. Um editor, por exemplo, não conseguirá avaliar 100 manuscritos, mas poderá avaliar 10 que lhe foram indicados por um agente ou agência em quem confia. Não raro, esses editores não estão apenas buscando um bom livro e sim um bom livro para o mercado naquele momento. Em outros termos, um livro que venda bem. Mas como é possível prever isso?

Nikelen Witter, Felipe Castilho e Camila Fernandes

Sobre esse tópico no mínimo espinhoso, Felipe Castilho, autor de O Legado Folclórico (Gutenberg) e Ordem Vermelha – Filhos da Degradação (Intrínseca), afirma: “Vou até afrouxar a gravata aqui. Os bons editores valorizam a originalidade, a forma, a apresentação, as possibilidades no autor em estado bruto, e enxergam inclusive qualidades num original com diversos pontos fracos. Esses mesmos bons editores muitas vezes não possuem autonomia para concretizarem todos os seus projetos, e muitas vezes precisam ainda atender a expectativa de quem os emprega. Ou seja: às vezes temos bons editores com bons originais em mãos, mas com poucas chances de ‘vender bastante’. Então, ele acaba publicando mais do mesmo, quando o resultado é mais garantido.”

A fala de Castilho – que também tem em seu currículo atividades tão díspares e ao mesmo tempo tão complementares quanto editor, roteirista, ghost writer e livreiro (!!!) – nos faz atentar a um importante tema, que é o fator mercadológico e comercial que tanto impacta a literatura. Sobre isso, Camila Fernandes, autora de O Reino das Névoas (Tarja), escreve: “O que sei é que as editoras querem e precisam vender livros, isso é óbvio. Então, em geral, apostam naquilo que elas têm motivo para acreditar que venderá bem. Se conseguirem publicar alguns best-sellers, talvez possam arriscar o lançamento de autores iniciantes ou de obras ‘diferentonas’. Às vezes, a verdade é que alguns leitores não querem nada muito diferente. Por isso, quando um livro de determinado gênero é um grande sucesso comercial, logo chegam ao mercado vários com propostas semelhantes para aproveitar a onda. Ou seja, o livro que você escreve é arte, mas o livro que você vende é produto. É preciso lembrar-se disso para não cair no drama do artista incompreendido.”

Mas vamos lá, pense no melhor dos mundos: Você publicou seu livro por uma boa casa editorial e seu livro vendeu bem, ao menos do seu ponto de vista. Isso significa que sua carreira de sucesso está garantida? Novamente, não. Como veremos no próximo mês, há ainda muito trabalho pela frente. O sucesso financeiro então está? Também não. Como todos sabem, um autor ganha em média 10% do valor do preço de capa. Como nosso foco aqui é outro, não entrarei no mérito da questão se esse valor é justo ou não, uma vez que isso necessitaria detalhar todo o sistema mercadológico do Brasil. E alguém já fez isso de uma forma didática, divertida e instrutiva. Falo do texto de Carol ChiovattoLivro não é caro no Brasil coisa nenhuma.

“O Mercado Editorial Brasileiro em 15 Minutos”, por Carol Chiovatto

Tanto concordo com o título quanto penso que os 10% acima são justos, dado o investimento que uma casa editorial faz para colocar uma obra no mercado e o risco que ela corre caso a obra não venda. Antes de passarmos ao próximo tema, vamos exercitar um pouco a nossa capacidade de vender a nossa história? Antes de “vender” seu livro aos seus leitores, você precisa vender seu projeto a um editor e, na maioria dos casos, esses têm apenas um minuto para avaliar sua história. E eles farão isso através de um documento de uma página chamado BOOK PROPOSAL. Como se faz um? Os exercícios 19 e 20 do nosso Bestiário Criativo te ajudarão na resposta.

EXERCÍCIO CRIATIVO 19: BOOK PROPOSAL PARTE I

HÁ MILHARES DE MODELOS E EXEMPLOS DIFERENTES DE UM BOOK PROPOSAL. VOCÊ DEVE PESQUISAR E ESCOLHER O MAIS ADEQUADO À SUA OBRA E AO ESTILO. O QUE SUGERIREI AQUI, NOS ÚLTIMOS DOIS EXERCÍCIOS DA NOSSA COLUNA, É UM DOS MAIS SIMPLES E É CONSTITUÍDO DE APENAS SEIS TÓPICOS. VAMOS AOS TRÊS PRIMEIROS:

  1. LOGLINE ǀ RESUMA SUA HISTÓRIA NUMA FRASE.
  2. INFLUÊNCIAS ǀ CITE TRÊS OBRAS REFERÊNCIAS PARA A SUA HISTÓRIA.
  3. ENREDO ǀ RESUMA SUA HISTÓRIA EM ATÉ 10 LINHAS.

“Publicar de forma independente pode funcionar?”

Agora que vimos como funciona em linhas gerais a publicação tradicional, vejamos como materializar nossa obra através da produção independente. Se antes os autores e artistas que optavam por esse caminho eram minoria, cada vez mais vemos o surgimento de bons autores e obras de qualidade indiscutível sendo produzidas em formatos diferentes e pioneiros e através de plataformas que estão distante do mercado livreiro tradicional. Para esses também há várias opções.

A primeira delas é a auto publicação, que pode acontecer tanto em formato físico – caso você tenha condições de bancar a própria tiragem e os serviços para se produzir um livro de qualidade, que além de preparação e revisão também envolvem diagramação e capa. Há também a possibilidade da auto publicação digital, o que hoje pode acontecer em blogs, portais literários e em duas plataformas de mérito reconhecido, como Amazon e Wattpad. A primeira possibilita que seu livro seja vendido através do Kindle Unlimited, podendo resultar em um lucro bem significativo dependendo de suas estratégias, contatos e gênero literário. Já a segunda, permite a publicação e o consumo gratuito em um espaço com diversos recursos interessantes. E se o Wattpad não reverte lucro aos autores, sem dúvida tem se mostrado um belo canal de divulgação e formação de público.

Ian Fraser e os Dois Volumes do Projeto Pioneiro Araruama

Outra possibilidade é deixar que seus próprios leitores paguem pelo seu livro antes de o receberem. Como assim?! Ora, plataformas de Financiamento Coletivo como Catarse e Kickante são exatamente isso: Sistemas confiáveis que permitem a artistas apresentarem seus projetos meses antes deles serem concretizados. Há grandes obras vindo à luz através desse formato, como a série Araruama, de Ian Fraser, por exemplo, cujo sucesso dos Livro I – O Livro das Sementes e Livro II – O Livro das Raízes atesta esse modelo de publicação e de carreira.

Sobre seu percurso, Fraser declara: “Um escritor em começo de carreira é um ser preenchido de inseguranças. Parece até que a gente só fica em pé porque nossos músculos vivem rígidos de tanta ansiedade. Vencido o obstáculo que é escrever seu primeiro romance – e não estamos falando de um obstáculo qualquer, minha gente –, todo autor iniciante se vê diante da dúvida mais frequente do ramo literário: como lançar esse livro? O conhecimento popular nos leva ao caminho tradicional, o envio de manuscritos para editoras. No entanto, bastam alguns e-mails e algumas horas no Google para perceber que poucos conseguem trilhar esse caminho e sair do outro lado com uma sua obra em mãos.”

A partir desse desafio, Ian optou por montar Araruama como um projeto para a plataforma do Cartarse, que permitia a ele montar o projeto como desejasse e o mais importante: Criar um diálogo e um vínculo com seus leitores. “O que eu aprendi nas minhas pesquisas é que o Financiamento Coletivo não é propriamente um mercado tradicional, tão pouco um centro de caridade: ele é um bicho próprio. Há muitos elementos que são importantes na hora de criar sua campanha, muitos mesmo, mas o mais importante talvez seja a identidade. Eu sei que é cruel algo subjetivo ser o primordial, mas foi isso que eu aprendi com a minha experiência: seu projeto tem que ter a cara do Financiamento Coletivo.”

“Devo eu optar por um modelo ou outro? Seriam esses dois modelos de publicação – tradicional e independente – auto-excludentes?” A meu ver, não. Há autores que apenas objetivam a publicação por casas editoriais. Outros, estão bem satisfeitos com a publicação e a carreira independente. Já outros podem projetar uma ação para levar à outra. Hoje, vemos autores consolidados recorrendo a projetos independentes. E autores independentes que depois de um projeto de sucesso conseguem um contrato em uma editora. Além desses modelos possíveis, há ainda um terceiro tipo de atividade que pode ajudar jovens autores a entrarem no mercado literário.

Falamos de Concursos Literários e Editais Públicos. Para muitos autores, ganhar um prêmio literário ou vencer um concurso é a via de acesso ao mundo da literatura, tanto pela visibilidade como também pelo valor financeiro que muitas dessas ações apresentam. Quanto aos editais, há vários em níveis federal, estadual e até municipal. Esses editais costumam investir em obras literárias e outras ações artísticas. Para saber mais, há vários sites na internet onde você pode pesquisar listas de concurso e editais.

Outra possibilidade são as revistas literárias. Cada gênero tem suas especificidades e canais específicos, mas eu destaco quatro publicações – todas digitais – onde você pode submeter contos e novelas para apreciação crítica gratuita e publicação. São elas as revistas Somnium, a Trasgo, a Mafagafo e a Fantástika 451 – que publica ensaios e resenhas. Por fim, há também as coletâneas. Mas neste caso, atente ao conselho acima sobre chamadas que cobram dos autores. Muitas coletâneas não têm rigor crítico ou qualidade de publicação justamente por isso. Apesar de isso parecer um contrassenso, na verdade revela um interesse mais financeiro do que propriamente literário. Diferente dessas ações, há vários exemplos de editoras que publicam coletâneas de forma séria e abalizada, como a Draco e a Lendari.

Revistas e Coletâneas Literárias Indicados a Autores Experientes e Iniciantes

Portanto, não há um só caminho ou percurso e sim a sua decisão de como projetar sua carreira. AJ Oliveira, por exemplo, o criador do Podcast Os 12 Trabalhos do Escritor e do romance Asas, Pingentes e Imortais no WhattPad, tem muito a dizer sobre isso. “O mercado editorial nos mostra seus critérios a partir dos produtos que escolhem levar as prateleiras. Hoje, principalmente com o sucesso dos Youtubers, ficou claro que é imprescindível ter uma plataforma de seguidores no momento em que o editor estiver com seu manuscrito em mãos. Seja por publicações online, produção de conteúdo (youtube, blog, podcast, etc), engajamento nas redes sociais, ou até mesmo um fã clube. Não importa! Ter seguidores fieis é a garantia de que seu livro já chegará vendendo para um determinado número de pessoas sem que seja necessário investir pesado em marketing.”

No caso de AJ, foi a partir dessa avaliação que seu projeto de um podcast literário com a presença de escritores discutindo técnicas de escrita nasceu: “No meu caso a ideia foi criar meu público através do podcast Os 12 Trabalhos do Escritor, o que me traria uma audiência cativa não apenas de leitores, mas de pessoas cientes da minha jornada de aperfeiçoamento técnico. Tomei essa escolha por ser um amante da mídia e por ter certa facilidade em contatar escritores para entrevistar. Contudo, basta uma rodada de conversas numa bienal do livro para encontrar outros casos tão inovadores e de muito mais sucesso do que eu, caso de autores como Maurício Gomyde (Intrinseca), Gustavo Magnani (Geração) e Vanessa Bosso (Astral).”

Sobre as várias possibilidades para a formação de uma carreira literária, Oscar Nestarez, autor do estudo Poe & Lovecraft: um ensaio sobre o medo na literatura, do romance Bile Negra (Empíreo) e um comunicador da RadioGeek, afirma: “Meu primeiro livro (Poe & Lovecraft) foi uma auto publicação. Eu mesmo o financiei, até por conta do estímulo que recebi de professores – o texto resultou da monografia que escrevi para uma especialização em História da Arte. Mas acabei dando sorte, porque o livro me possibilitou participar de vários eventos e dar palestras – também abriu as portas para o mestrado e, agora, para o doutorado. Isso contribuiu demais na formação da tal comunidade (ainda que muito incipiente, bem aos poucos, estou só começando).”

AJ Oliveira, Oscar Nestarez e Andrio Santos

Ainda sobre a publicação independente, Andrio Santos, autor de Réquiem para o Pássaro da Morte e da webcomic Metalmancer, afirma: “O que eu escrevo, também o que eu acredito, visa oferecer alguma experiência aos leitores. E acho que meus textos vão, vez que outra, na contracorrente do mercado editorial. Publiquei minha primeira obra de forma independente, utilizando as mídias sociais para vendê-la e sites de vendas para comercializar para outras partes do Brasil. Tive um relativo êxito, para um autor iniciante e praticamente desconhecido. Hoje, acredito que essa seja a forma mais adequada de apresentar meu trabalho aos leitores, tanto que ainda continuo publicando principalmente dessa forma.”

Todos esses caminhos podem ser percorridos, testados e usados para montar a sua carreira de acordo com suas necessidades e objetivos. Brasiliana Steampunk, enquanto projeto transmídia, é uma prova disso. Lição de Anatomia só foi publicado por causa de um concurso literário promovido pela LeYa Brasil. O cardgame Cartas a Vapor! só existe porque eu e a Potato Cat fizemos um financiamento coletivo para o jogo. Contos do universo de Brasiliana Steampunk estão em revistas como a Trasgo, em sistemas como o Kindle Unlimited e em plataformas como o WattPad. Por outro lado, projetos de HQ e da série audiovisual A Todo Vapor! estão inscritos em vários editais. E todas essas ações me oportunizam publicar livros como Guanabara Real e Fantástico Brasileiro em casas editoriais como AVEC e Arte & Letra, além de formar, pouco a pouco, uma comunidade de leitores. Mais sobre esse tópico, na coluna do próximo mês.

Antes de encerrarmos, vamos terminar o nosso Book Proposal? Eu aconselho esse exercício a qualquer criativo, seja ele a buscar um sistema tradicional ou independente. Fazer o Book Proposal é forçar sua mente a outro tipo de dinâmica, menos criativa e mais comercial. Afinal, sendo você quem for e sendo sua carreira tradicional ou não, o objetivo final é vender seu livro, não? E para tanto, é importante saber apresentar sua história, seu mundo, seu projeto. Então, lá vamos nós:

EXERCÍCIO CRIATIVO 20: BOOK PROPOSAL PARTE II

  1. ESTRUTURA E LINGUAGEM | DÊ O MÁXIMO DE INFORMAÇÕES TÉCNICAS EM ATÉ 10 LINHAS, COMO NÚMERO DE CAPÍTULOS, PALAVRAS, ESTILO E ABORDAGEM DO TEMA.
  2. PÚBLICO ALVO | AQUI, VOCÊ PODE, EM ATÉ 10 LINHAS, AMPLIAR O NÚMERO DE REFERÊNCIAS, INDICANDO, ALÉM DE FAIXA ETÁRIA E INTERESSES, LEITORES DE QUAIS AUTORES OU OBRAS VOCÊ DESEJA ATINGIR.
  3. MINI-BIO | EM ATÉ 5 LINHAS, DÊ OS PRINCIPAIS DADOS DA SUA TRAJETÓRIA PROFISSIONAL, DESDE FORMAÇÃO E EXPERIÊNCIA EM PROJETOS EDITORAIS OU ARTÍSTICOS, BEM COMO SUAS REDES SOCIAIS. SE VOCÊ JÁ TEVE UM PROJETO BACANA, NÃO DEIXE DE MENCIONÁ-LO.

Ainda sobre o Book Proposal, alguns editores podem também pedir que, em duas páginas, você detalhe a estrutura do seu livro capítulo a capítulo. Se não for solicitado, eu prefiro não enviar, deixando as informações mais importantes em uma única página. Por quê? Porque se alguém não tem tempo de ler uma página, não terá tempo para ler três. Também porque me concentrar numa página impecável é mais fácil do que em um número maior. Quanto a se enviar ou não o manuscrito ou algum capítulo finalizado, penso ser mais indicado esperar a solicitação. Além de menos intrusivo, mostra mais profissionalismo. É a diferença entre o amigo que pede a você se pode enviar o manuscrito de 400 páginas e aquele que já envia, perguntando se poderemos lê-lo no próximo final de semana. Sabem como é, não? Quem nunca!

E onde foi parar nosso grifo?

Está ocupado, ora essa, projetando sua carreira e revisando seu Book Proposal. No Bestiário desse mês, usamos grifos como metáfora para nosso processo criativo de enviar originais. Como mensagens em uma garrafa, nunca sabemos onde elas irão parar. Então, um bom conselho é variar em projetos, mídias e envios. Num mercado flutuante como o nosso, não há regras e pouco sabemos do que virá pela frente. Então, fiquem aqui com o nosso Grifo Escritor, que tem finalizado dois romances, uma novela e vários contos fantásticos sobre grifos e seus conflitos e aventuras. Ele obviamente tem milhares de outras coisas na gaveta, mas essas não contam.

Griffo Escritor enviando Book Proposals, por Jéssica Lang

Como ele, estamos nessa árdua e divertida tarefa de lançarmos ao mundo nossas histórias, aventuras e dramas. O resultado? Quem saberá? O importante é nunca perdermos de vista que manuscritos em garrafas podem chegar rápido ao seu destino. Ou não. Mas em algum momento, coisas mágicas podem acontecer. Histórias explodem prisões. Criam asas. Voam até seus destinatários. Sejam eles quem forem. Estejam eles onde estiveram. Como pequenos filhotes de grifos.

Nos vemos no próximo mês? Um abraço a todos e bons sonhos!

Enéias Tavares, o autor desta coluna, é o criador de Brasiliana Steampunk (Editora LeYa) e coautor de Guanabara Real (Editora Avec), duas séries ambientadas em um Brasil retrofuturista. É um dos coordenadores do projeto Bestiário Criativo na UFSM, onde ensina Literatura Clássica e Escrita de Ficção. Nas poucas horas vagas, escreve, caminha e pesquisa a História da Literatura Fantástica no Brasil, junto de Bruno Anselmi Matangrano, para o projeto Fantástico Brasileiro. A artista responsável pelo belo grifo deste mês e por outras criaturas deste bestiário é Jéssica Lang, designer, ilustradora e uma das criadoras da webcomic Metalmancer, ao lado de Andrio Santos.

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