Spike Lee mostra os perigos do discurso de ódio.

Spike Lee ( Malcolm X) é conhecido por ser um diretor que, sempre que pode, gosta de trazer as questões raciais para seus filmes, às vezes de forma bem panfletária. No seu novo filme, Infiltrado na Klan (BlaKKKlansman no original), ele traz mais uma vez essas questões de racismo como um soco no estômago do espectador. Confira nossa crítica sem spoilers.

Infiltrado na Klan, conta a história real de Ron Stallworth (John David Washington), um policial negro que em 1978 conseguiu se infiltrar dentro da Ku Klux Klan com a ajuda de seu parceiro Flip (Adam Driver), ajudando a desmontar a organização na sua cidade e proteger Patrice (Laura Harrier), uma militanteestudantil do movimento negro.

O longa inicia informando que a história, por mais absurda que pareça, foi real. E, apesar de ter algumas liberdades cinematográficas, consegue contar uma história tão louca que vai te fazer rir do absurdo mas também chorar por tal brutalidade. Mão se preocupe, o filme não é gráfico no estilo de 12 Anos de Escravidão, a violência que ele representa é muito mais presente no nosso dia-a-dia, a violência do discurso de ódio, muitas vezes pior ainda, pois é invisível e se espalha mais rápido.

Em sua parte técnica, o filme é competente. Consegue trazer boas atuações e uma direção precisa, que conta o que precisa sem exagerar muito. Apesar de achar que em alguns momentos temos alguns problemas de montagem porque o filme em alguns momentos não consegue conectar bem algumas cenas, tendo aquele problema de O Retorno do Rei de possuir vários finais. O filme é tecnicamente competente mas acredito que uma obra como essa vai muito além da técnica cinematográfica.

Infiltrado na Klan é o tipo de filme que deveria ser assistido por todos, principalmente agora que estamos no mês da consciência negra. Como falado antes, apesar de não ter cenas violentas, ele fere em como ele representa o discurso de pessoas que vêem os negros como algo inferior ao ser humano. O longa consegue realmente no colocar na sala de estar de pessoas que realmente acreditam ser superiores e não tem medo de falar injúrias racistas pois sabem que estão entre iguais. Muitos podem achar que os “vilões” do filme são caricatos, mas todos já viram pessoas no seu círculo de amizades, na família ou no trabalho proferirem aberrações como são ouvidas no filme.

Enquanto você assiste o longa, você se sente compadecido mas existe uma certa distância. Você pensa: “Ah, mas isso foi no passado”, “Ah, mas essas pessoas não existem mais”. A jogada de mestre de Lee é fazer uma conexão com o atual momento que a América e o mundo vive, nesse momento você leva o soco na cara e percebe que essas pessoas ainda estão aí, que o discurso não mudou. Principalmente quando você sabe que David Duke (também representado no filme de forma cômica e nojenta), ex-líder da KKK, já elogiou o atual presidente eleito do Brasil. Quando você faz essas conexões é que a porrada bate.

Infiltrado na Klan é um filme importante e que deve ser assistido. É um manifesto de como o racismo perdurou na América, inclusive colocando uma culpa justa em como o cinema ajudou a fazer isso. É também um aviso que a luta nunca deve terminar, que nunca devemos no calar e que os racistas com mentalidade conservadora e retrógrada ainda estão entre nós e devem ser combatidos. O longa termina de forma agridoce e realista, trazendo diferentes sentimentos, mas a mensagem que fica é…

Todo o poder para todas as pessoas.

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