Em Caracas, um vendedor ambulante escaneia um código QR para receber o equivalente a 15 dólares em USDT pelo seu café. Em Buenos Aires, uma família converte seus pesos em Bitcoin assim que o salário cai na conta. E em Istambul, um comerciante oferece desconto de 5% para quem paga em criptomoedas.
Três cidades, três realidades distintas, mas uma pergunta em comum: essas pessoas estão tentando proteger seu patrimônio da corrosão inflacionária ou simplesmente apostando na valorização de um ativo volátil?
O Que os Números Contam
A resposta não é simples. E os dados da Chainalysis revelam nuances importantes.
Na Argentina, onde a inflação atingiu 211% em fevereiro de 2025, o uso de criptomoedas disparou. O país ocupa a 20ª posição no Índice Global de Adoção de Criptomoedas, com stablecoins representando 61,8% do volume total de transações. Na Venezuela, a situação é ainda mais extrema. O bolívar perdeu 99% do seu valor desde 2018, e as criptomoedas deixaram de ser opção para se tornar necessidade. Grupos no Telegram facilitam a compra de USDT para compras básicas do dia a dia.
Já no Brasil, o cenário é diferente. Segundo Thomaz Fortes, líder de criptomoedas do Nubank, o principal caso de uso por aqui ainda é o investimento especulativo. Os brasileiros buscam diversificação e potencial de retorno. A preservação patrimonial vem em segundo plano, embora isso esteja mudando com a desvalorização do real (que perdeu 21% frente ao dólar em 2024).
Quando Não Há Outra Escolha
A diferença entre uso especulativo e reserva de valor parece estar diretamente ligada à gravidade da crise econômica local. Pessoas em economias mais estáveis tendem a tratar criptoativos como investimento de risco. Já quem vive sob hiperinflação não tem esse luxo.
O relatório Geography of Cryptocurrency de 2025 aponta que a América Latina processou US$ 1,5 trilhão em transações cripto nos últimos três anos. O crescimento foi de 63% em relação ao período anterior.
O que chama atenção é o tipo de ativo preferido em cada país. Na Argentina e Venezuela, stablecoins como USDT dominam. São moedas digitais atreladas ao dólar, sem a volatilidade do Bitcoin. São usadas para compras cotidianas, pagamento de serviços, remessas familiares. É dolarização informal via blockchain.
No Brasil, o perfil é outro. O país movimentou US$ 318,8 bilhões em criptoativos entre julho de 2024 e junho de 2025. Crescimento de quase 110%. Mas aqui as stablecoins também dominam, representando mais de 90% dos fluxos. A diferença está na motivação: brasileiros usam mais para transferências internacionais e proteção cambial do que para sobrevivência imediata.
O Fenômeno das Stablecoins
A ascensão das stablecoins mudou completamente o debate sobre cripto e inflação.
Quando se fala em Bitcoin como reserva de valor, a volatilidade sempre aparece como objeção. E faz sentido. Um ativo que pode cair 30% em semanas não serve como proteção de patrimônio no sentido tradicional. As stablecoins resolvem esse problema ao manter paridade com o dólar.
Na prática, isso criou um sistema financeiro paralelo em países com controles cambiais rígidos. Venezuelanos que prestam serviços remotos para empresas estrangeiras recebem em USDT via rede Tron, pagando menos de 1 dólar de taxa. Argentinos convertem pesos em USDC no mesmo dia do pagamento para evitar perdas com a desvalorização diária.
A plataforma El Dorado, focada na América Latina, já facilitou mais de 2,5 milhões de transações P2P com USDT, conectando 70 métodos de pagamento locais em seis países. Não é mais nicho.
A Fronteira Entre Necessidade e Especulação
A linha que separa uso prático de aposta financeira nem sempre é clara.
Tome o caso da Turquia. A lira perdeu mais de 80% do valor contra o dólar desde 2021. Famílias como a dos Yilmaz, em Istambul, estabeleceram “planos de poupança em Bitcoin” em 2024, convertendo parte das receitas do negócio familiar. A estratégia permitiu que financiassem a educação dos filhos no exterior quando a lira colapsou ainda mais. É proteção patrimonial? É. Mas também é uma aposta de que o Bitcoin manterá ou aumentará seu valor em dólares.
O mesmo vale para brasileiros que alocam pequenas porcentagens de seu portfólio em Bitcoin. Estão especulando no sentido técnico do termo, mas muitos o fazem como hedge contra a instabilidade do real. Dados de 2024 mostram que R$ 10 mil investidos em Bitcoin no início do ano teriam se transformado em quase R$ 32 mil até dezembro, considerando também a variação cambial.
O Papel do Entretenimento Digital
Curiosamente, a popularização das criptomoedas na América Latina também passa pelo entretenimento. Plataformas de jogos e apostas que operam com ativos digitais funcionam como porta de entrada para muitos usuários que nunca tinham tido contato com carteiras cripto.
No Brasil, quem busca jogar cassino online utilizando bitcoins acaba aprendendo a operar com criptomoedas de forma prática. BetFury conquistaram espaço no mercado brasileiro justamente por oferecer uma experiência que combina entretenimento com o ecossistema cripto, permitindo depósitos, saques e até staking de tokens.
Esse contato inicial, ainda que motivado por lazer, frequentemente evolui para usos mais amplos. Uma pesquisa do Banco Central do Brasil mostrou que as importações de criptoativos aumentaram 60,7% entre janeiro e setembro de 2024 em comparação com o mesmo período do ano anterior.
O Que Dizem os Especialistas Brasileiros
Luiz Haddad, pesquisador de blockchain na Sherlock Communications, utiliza Bitcoin como reserva de valor desde 2020. Para ele, a criptomoeda oferece fundamentos econômicos claros: oferta limitada a 21 milhões de unidades e independência de decisões políticas de curto prazo.
Segundo a CNN Brasil, o halving de 2024 reforçou essa narrativa de escassez. O processo, que ocorre a cada quatro anos, reduz pela metade a emissão de novos bitcoins. É um mecanismo deflacionário embutido no código, algo que nenhuma moeda fiduciária possui.
Mas Beto Fernandes, analista da Foxbit, faz uma ressalva importante: “No estágio em que estamos, praticamente qualquer investidor que entrou em bitcoin, seja qual foi o momento, está com lucro. É natural desse processo que uma parte queira colocar o dinheiro no bolso.”
Ou seja, mesmo quem comprou pensando em proteção patrimonial não está imune à tentação de realizar ganhos.
O Veredicto Impossível
A resposta para a pergunta inicial depende de onde você está.
Se você vive na Venezuela com uma moeda que perde valor a cada hora, converter qualquer quantia para USDT ou Bitcoin é uma questão de preservação básica. Se você está em Buenos Aires com inflação de três dígitos, stablecoins funcionam literalmente como poupança em dólar, algo que o governo dificulta de outras formas.
Já no Brasil, com inflação elevada mas não catastrófica, o uso tende mais para especulação e diversificação. As pessoas não estão fugindo do colapso iminente, estão buscando rentabilidade e proteção cambial.
O que os dados mostram de forma inequívoca é que as criptomoedas deixaram de ser experimento tecnológico para virar infraestrutura financeira em boa parte da América Latina. As stablecoins em particular já processam trilhões de dólares anualmente, ultrapassando sistemas tradicionais de remessas em vários corredores.
A pergunta certa talvez não seja se o uso é especulativo ou defensivo. É se as pessoas teriam outra opção viável. Em muitos casos, a resposta é não.