Quando séries viram apostas a história dos mercados especulativos sobre desfechos de produções audiovisuais Quando séries viram apostas a história dos mercados especulativos sobre desfechos de produções audiovisuais

Quando séries viram apostas: a história dos mercados especulativos sobre desfechos de produções audiovisuais

Nos últimos tempos, as séries viraram um fenômeno de audiência, o que era um formato já consolidado nos Estados Unidos acabou se transformando em algo mundial, primeiro com a TV a cabo e depois com a Netflix, que mudou a maneira como assistimos a uma variedade enorme de programas.

Embora ainda haja séries de muito sucesso, a última franquia a fazer um barulho estrondoso em termos de audiência foi Game of Thrones, da HBO, onde multidões paravam para discutir o andamento da série durante a semana e paravam para assistir os episódios aos domingos (embora seu final não muito bem trabalhado possa ter diminuído o interesse nas séries derivadas e até mesmo no formato como um todo).

Em paralelo a isso, já tínhamos também as apostas aparecendo como outro grande fenômeno de audiência, algo que começou com os esportes (na Europa, esse processo começou ainda nos anos 2000 e foi crescendo desde então), com as casas buscando explorar todos os nichos possíveis, e o das séries não estava imune a isso, especialmente uma que atraía tanta atenção do público.

O nascimento dos novelty markets: antes de Game of Thrones, já existia

O mercado de apostas na Inglaterra é um dos mais desenvolvidos do mundo, são séculos de tradição nesta área, com uma regulamentação que permite às casas explorar uma série de opções diferentes, além de um público bastante habituado a este ambiente.

Assim, antes mesmo do advento das apostas via internet já havia apostas em entretenimento, por exemplo com “EastEnders”, uma série inglesa que começou a ser transmitida em 1985 e ainda está no ar, dizem que uma aposta foi feita nesse sentido, mas para a novela ainda estar sendo transmitida na virada do século, algo que acabou ocorrendo.

Porém, foi com a internet que isso acabou ganhando muito mais popularidade, já que as casas agora podiam explorar muito mais opções, o que acabou sendo visto em opções de apostas como a de quem era o narrador de “Pretty Little Liars”, além de também termos visto outro fenômeno de audiência, o Big Brother, atrair muitas apostas.

A Inglaterra era um terreno bastante propício para isso, com um público que tem nas apostas uma grande tradição, especialmente nos esportes que dominavam (e ainda dominam) o cenário, mas casas como a PaddyPower e William Hill viram nas apostas em entretenimento uma grande oportunidade.

No início, eram apostas especiais e embora hoje ainda tenham seu espaço, elas também são um tipo de aposta alternativa, muitas vezes sendo tratada mais como entretenimento.

O motivo para isso é que não existe uma métrica muito precisa para este tipo de evento. No futebol, por exemplo, você pode utilizar estatísticas, olhar para escalações e procurar dados para embasar suas apostas, o que quase não acontece quando se faz apostas em entretenimento.

Ainda assim, esse tipo de aposta atrai muita atenção e por vezes pode ser tratado como uma diversão, seja para os apostadores mais regulares ou para quem simplesmente busca uma forma diferente de se divertir.

O caso Game of Thrones: o ponto de virada

É bem verdade que algumas séries, e outros eventos, elevaram o patamar das apostas em entretenimento, mas nenhuma outra fez isso tão bem quanto Game of Thrones, que extrapolou as barreiras da televisão e mexeu também com as apostas.

Não são divulgados dados em relação a volumes de apostas, mas pela quantidade de mercados diferentes podemos ter uma bela ideia, desde apostas em quem ficaria com o trono ao final da série, até mortes de personagens como Cersei e Daenerys, além do destino de Jon Snow eram algumas das opções preferidas do público e bastante presentes em casas de apostas.

Nesse caso, uma das opções preferidas dos apostadores foi a de Bran para ficar com o trono no final da série, algo que caiu para uma odd de 1.20 próximo do fim, e que permitiu às casas ter um bom lucro dado que várias pessoas apostaram em outras opções.

Apesar disso, esse cenário também não está livre de problemas. Na semana que antecedeu o episódio final, houve um vazamento do roteiro e isso obrigou as casas de apostas a bloquear alguns mercados, embora mesmo à época se discutisse sobre a veracidade das informações vazadas.

Além disso, outras medidas também foram tomadas, como limitar apostas e buscar detectar padrões, há pessoas com informações privilegiadas, como roteiristas, produtores ou o elenco, que podem fazer esse tipo de aposta e ao investir grandes somas em algo que daria um retorno garantido, mas deixando um rastro de padrões como apostas muito altas que ajudam a denunciar estas atividades.

Essa é também uma das diferenças para apostas esportivas, já que esportes não seguem um roteiro e não há um desfecho certo (e, embora raramente existam fraudes que podem ser detectadas com os mesmos padrões, mesmo assim não quer dizer que haja um final garantido em atividades esportivas).

Esse cenário também ajudou as casas a se prevenir para eventos como este no futuro, onde as apostas em eventos especiais também precisam de um tratamento diferente das apostas esportivas e gerando um case que serve até os dias de hoje sobre a prevenção de problemas nessa área.

Onde esses mercados existem (e onde ainda não)

Como dissemos, a Inglaterra foi pioneira no lançamento desse tipo de aposta, com muitas casas daquele país oferecendo esta opção e sempre buscando se diferenciar, num mercado onde opções não faltam por conta da concorrência, bastante acirrada. Entretanto, isso não é algo comum ao mundo todo.

Mesmo entre os mercados europeus regulados, a presença de categorias de entretenimento está longe de ser garantida. Em mercados como o português ou ainda o francês, não é possível ainda fazer esse tipo de apostas, como é possível confirmar nas melhores casas de apostas legais em Portugal segundo a Sportytrader.

A regulação local dos operadores licenciados, focada quase exclusivamente em mercados esportivos tradicionais, deixa pouco espaço para listagens sobre desfechos de séries ou personagens de ficção, o que faz com que a maior parte do volume global desses mercados continue concentrada em jurisdições anglófonas.

Nos Estados Unidos, por sua vez, em Las Vegas (que serve de referência para a indústria das apostas não apenas do país, mas também no mercado internacional) as apostas em premiações e desfechos de séries foram vetadas pela comissão reguladora ainda em 2015.

Já na Europa continental o cenário muda, uma vez que cada país tem suas próprias regras em relação às apostas e isso gera um cenário muito mais diverso, onde alguns permitem esse tipo de aposta e outros não, além dos que também possuem limitações nessa área.

Como podemos ver, esse é um assunto que cada país trata como convém, havendo uma grande diversidade de abordagens para apostas como esta, algo um pouco diferente das apostas em esportes, onde há um tratamento mais uniforme entre as jurisdições.

Enquanto isso, no Brasil temos a regulamentação das apostas (sob a Lei 14.790/2023) entrando em vigência há pouco tempo, mas também sem dispor em maiores detalhes sobre as apostas em entretenimento, entretanto, há um precedente para as apostas em política, que foram proibidas no país.

Os herdeiros: Succession, House of the Dragon, Squid Game

No momento atual, temos algumas séries que também vêm deixando sua marca, Succession é uma delas, tendo se iniciado enquanto Game of Thrones se encaminhava para o final, também da HBO.

Nesse caso, a série surpreendeu por conta de um final onde não havia tanta clareza sobre o que aconteceria, e assim gerou um cenário não tão comum. O desfecho mais cotado era mesmo o da venda da Waystar, que tinha odds de 2.0 à época, mas o que aconteceu é que Tom Wambsgans acabou como CEO, o que tinha uma odd de 20 (bem maior que nomes como Shiv, com 2.5, e Kendall, com 8). Ainda assim, essas cotações mostram a imprevisibilidade do cenário.

A série derivada de Game of Thrones, House of the Dragon, também tem atraído apostadores (com mercados sobre sobreviventes da Dança dos Dragões, por exemplo). Porém, diferentemente da série original, os livros já estão acabados e isso exige uma criatividade maior das casas de apostas, além de também ter mais informações para quem leu os livros (embora algumas coisas possam mudar na versão para TV).

Squid Game (também chamada Round 6) é outro caso de série bem-sucedida nos últimos tempos e que inclusive atraiu muitas apostas, mas com a peculiaridade de não ter apostas no próprio país de origem da série, a Coreia do Sul, que tem sido bem restritiva em relação a essas atividades.

Outros que também chamaram a atenção recentemente foram a temporada final de Breaking Bad, Westworld e True Detective, sendo sucessos de audiência e também marcando presença nas casas de apostas.

Premiações: o primo legítimo dos outcome markets

Na categoria de apostas especiais, ainda temos outro tipo de aposta: as premiações. Por exemplo, eventos como o Globo de Ouro, Oscar, BAFTA e Emmy são alguns dos eventos em que se pode fazer apostas em várias das casas de apostas disponíveis.

Se formos levar ao pé da letra, esse tipo de aposta tem mais semelhanças com as apostas esportivas do que as apostas em séries, dado que funciona quase que como uma competição.

Além disso, ninguém conhece o final de antemão, já que não há um roteiro, e embora possa haver a chance de vazamentos de alguns participantes, é extremamente raro que aconteçam vazamentos dos vencedores.

Adicionalmente, também há uma periodicidade nesses eventos, já que eles possuem datas marcadas previamente e calendários específicos, enquanto que apostas em séries de televisão só ocorrem quando há muita popularidade em um seriado específico, que também possui data para acabar.

O futuro: prediction markets e o fim das casas tradicionais para esses mercados?

Se esse tipo de aposta começou nas casas mais tradicionais, hoje um novo mercado vem se abrindo, agentes como a Polymarket e Kalshi entraram como uma alternativa, sendo mais voltados para previsões de eventos, como acontece em eleições e outros tipos de evento (sendo que alguns nem mesmo estão disponíveis nas casas de apostas).

Um dos exemplos disso é o próprio Oscar, onde os prediction markets tiveram um volume até maior do que das casas de apostas (o fato de não ter tantos limites quanto as casas tradicionais ajuda esses novos players do mercado).

Porém, esse modelo não está livre de riscos, dado que alguns países podem regulamentar e até banir esse tipo de atividade, como ocorreu recentemente no Brasil, onde a Polymarket foi bloqueada por oferecer mercados nas eleições.

Como as casas mais tradicionais têm mais foco nas apostas esportivas e podem também ter certa dificuldade para montar as odds, as apostas em séries podem acabar migrando totalmente para esse tipo de mercado, que tem funcionamento relativamente parecido com as bolsas, onde o mercado dita muito sobre os valores.

O que aprendemos com isso tudo

As casas de apostas aproveitaram a popularidade das séries e com isso deram início a um movimento que veio para ficar. É bem verdade que dificilmente o fenômeno visto com Game of Thrones possa ser comparado em algum momento, mas ele ainda influencia outras séries que vieram depois.

Isso também reflete um pouco em outros fatores, como a utilização de informações privilegiadas, vazamento e até manipulação de narrativas por conta desses interesses, mas é algo que vai continuar existindo, mesmo que não seja mais nas casas de apostas, os novos prediction markets estão aí para buscar seu espaço.