Um teste de fé para Deuses Americanos

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É impossível não viajar ao passado enquanto acompanhamos House on the Rock, primeiro episódio da segunda temporada de Deuses Americanos. Mais precisamente para o lançamento de The Bone Orchard, o primeiro episódio da série. Todo o deleite visual aplicado por Bryan Fuller, acompanhado de uma narrativa perfeitamente desenvolvida, não marca presença nesse novo ano. O que já é um enorme ponto negativo para o show.

Problemas de bastidores culminaram nas saídas de Fuller e Michael Green, responsáveis por tirar Deuses Americanos do papel. O que acabou resultando em baixas no elenco: Gillian Anderson e Kristin Chenoweth. A missão de guiar Deuses Americanos caiu então no colo de Jesse Alexander e do próprio Neil Gaiman (que apesar de conhecer esse universo com a palma da mão, não possui o mesmo talento de seus antecessores na hora de fazer a transição livro-tela).

Não significa, no entanto, que House on the Rock seja um desperdício de tempo. Continuando de onde a primeira temporada terminou, temos agora dois caminhos extremamente solidificados, dois núcleos que se preparam para a eminente guerra. Nas figuras de Mr. World e Technical Boy, os Novos Deuses precisam se recuperar do embate no season finale. Espaço suficiente para entender mais do poder e da influência histórica de Mr. World, além de nos encantarmos de novo com a estranheza de Crispin Glover.

Do outro lado da moeda, Odin, Shadow, Laura e Sweeney partem para o local que dá nome ao episódio, em busca de firmar uma aliança com o restante dos Antigos Deuses. É desse segmento que surgem as cenas mais inspiradas do episódio. As cores saturadas e os contrastes entre as verdadeiras formas de cada deus ali presente resultam em momentos belíssimos. Destaque para a toda sequência envolvendo o carrossel e a viagem através da mente de Odin. É necessário aplaudir o imenso talento de Ian McShane e Orlando Jones, completamente hipnotizantes.

Porém, a segunda temporada de Deuses Americanos parece abrir mão do texto inteligente e instigante do primeiro ano. Agora entrega um certo didatismo, como se não confiasse mais na astúcia de seu público. É possível argumentar que, estabelecida a dicotomia entre os inimigos, não seja necessário guardar tantos mistérios. Mas tornar-se algo expositivo pode não ser uma boa ideia. Em tempo, é preciso elogiar a coragem que a nova temporada mantém de mesclar passagens marcantes do livro e momentos inéditos.

Para uma série que tem a fé como premissa básica, a segunda temporada de Deuses Americanos começa testando a crença de seus espectadores. Mesmo que não mantenha a mesma beleza e a astúcia do primeiro ano, ainda é muito cedo para fornecer um prognóstico pessimista. Restam sete episódios para Deuses Americanos provar que tem espaço no panteão das grandes séries da atualidade.

Obs: A Casa na Rocha do episódio é um lugar real e está mesmo aberto para visitação. Caso tenha interesse em conhecer, fica em Spring Green no Wisconsin.

Obs 2: Palmas para quem teve a ideia de utilizar Everybody Walkin’ This Land, de Paul Cauthen, como a música da reta final do episódio. Uma sacada genial.