Não é novidade para ninguém que a Netflix está investindo pesado em suas produções originais. Filmes, séries, documentários, animações e etc. Uma variedade de atrações para agradar todos os públicos. E com tanto sucesso que o serviço de streaming vem conquistando, sempre surge a oportunidade de ir mais além. The Crown é fruto dessa ousadia e uma prova de que o céu parece ser o limite para a empresa.

Com um investimento na casa dos US$ 100 milhões, The Crown causou um burburinho desde o seu anúncio. E assim como a família real britânica, chama a atenção de alguma forma. Se fosse para comparar com produções atuais de sucesso, diria que a série tem elementos de Downton Abbey, Mad Men e até mesmo House of Cards. Claro que guardando as devidas proporções.

Na trama, vamos acompanhando os primeiros anos do reinado de Elizabeth II, a mulher que há mais tempo ocupa um cargo de poder no mundo (embora esse poder possa ser debatido atualmente). Mas o primeiro grande acerto de The Crown é mostrar o lado mais humano dessa história. Nós conhecemos a senhora simpática que acena para o público e dá bronca nos filhos ao vivo, mas não tivemos a oportunidade de presenciar a época em que Elizabeth ainda não sonhava em ser rainha.

O trono ainda é ocupado pelo Rei George VI – papel que já foi de Colin Firth no excelente O Discurso do Rei – e aqui interpretado de maneira bastante competente por  Jared Harris. Um homem repleto de responsabilidades, mas que mesmo diante de graves problemas de saúde, nunca abandona seu jeito bondoso. Seja no trato com os súditos ou com a família. A dinâmica entre ele e Elizabeth é essencial para dar profundidade aos eventos impactantes que conhecemos dos livros de história.

A atuação de Claire Foy como Elizabeth II também é bastante consistente. Ao longo dos episódios ela vai alternando entre uma figura sensível – mas longe de ser fraca – para uma governante firme, que consegue derrubar os preconceitos e incertezas que a cercam. E os melhores momentos dessa transformação não necessitam de diálogos, sendo transmitidos apenas por uma olhar penetrante.

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Sua química com Matt Smith (que vive Philip Mountbatten) é convincente, especialmente em momentos de tensão. Ele entrega um personagem dividido entre o amor e suas obrigações como o marido da nova rainha da Inglaterra. E isso gera um impacto em suas crenças. Não são poucos os momentos em que Philip mostra pensamentos modernos, mas que esbarram na forma como ele deve se comportar ao lado da esposa. Também existe um interesse no casamento, uma das várias intrigas que surgem ao longo do episódio.

Ainda falando de atuações, é preciso citar o trabalho primoroso de John Lithgow como o Primeiro-Ministro Winston Churchill. Em sua segunda passagem pelo cargo, após ter se tornado uma figura aclamada devido o sucesso britânico na Segunda Guerra, ele tem uma relação interessante com Elizabeth II. Pela dinâmica dos episódios, ele tem espaço para brilhar em vários momentos, principalmente na reta final da temporada.

Mas o que realmente se destaca é a direção de arte em The Crown, deixando claro aonde foi investido boa parte do orçamento milionário da série. Transportar o espectador para a Londres dos anos 50 não seria uma tarefa fácil, o que exigiu bastante pesquisa da produção. E o resultado é maravilhoso.

Os cenários, os figurinos, a fotografia e direção geram um espetáculo visual. Os figurinos criados por Michele Clapton (vencedora de 3 Emmys por Game of Thrones) não abordam apenas um período específico, mas também dão cor e forma para as personalidades dos personagens. Se existir justiça na próxima temporada de premiações, The Crown é forte concorrente nos quesitos técnicos.

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Mas apesar de encantar os olhos, The Crown apresenta alguns defeitos específicos de produções do gênero. É claramente um série de nicho, que vai agradar amantes de produções de época, história e principalmente do estilo britânico. Não que o resto da público vá odiar, mas falta um certo impacto ao longo dos episódios. O ritmo repetitivo pode comprometer a atenção de quem está conhecendo esse mundo pela primeira vez.

Também falta certa consistência aos episódios, que ficam divididos entre o jogo político, as intrigas dos bastidores e os dramas familiares. Alguns são tão bem construídos, que poderiam facilmente ser confundidos com um filme, mas outros não possuem o mesmo charme. É um trabalho competente, porém arriscado, de Peter Morgan (indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original por A Rainha) e Stephen Daldry ((Billy Elliot, As Horas e O Leitor).

Apesar de uma segunda temporada ainda não ter sido anunciada, é seguro acreditar que The Crown será renovada. Afinal, o reinado de Elizabeth II já dura seis décadas. O que não falta são histórias para contar. Dito isso, me despeço por aqui, pois já está quase na hora do chá das cinco. Até a próxima.