The Boys: Segunda Temporada | Discussões e Final Explicado

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A segunda temporada de The Boys acabou e pegou todos de surpresa por superar a primeira. A série da Amazon Prime sobre um grupo de pessoas comuns tentando enfrentar super-heróis famosos trouxe ainda mais discussões políticas e encerrou alguns arcos nessa temporada. Mas algumas questões ficaram em aberto e alguns temas precisam de uma análise maior, então confira a seguir nossa análise de alguns temas abordados. Claramente, o artigo está cheio de spoilers.

Crítica ao governo Trump

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Ficou bem claro que nessa temporada, The Boys atacou forte o governo Trump e suas política xenofóbicas. Apesar de usar termos que já estão um pouco 2001 demais como “terroristas”, a série mostra em diversos momentos o diálogo do Capitão Pátria e da Tempesta contra estrangeiros. Sempre utilizando o discurso da superioridade americana. Como diz Samuel Johnson, “O patriotismo é o último refúgio dos canalhas”. Os ideais patriotas muito comuns nos EUA e agora bem famosos no governo Bolsonaro no Brasil tentam unir o povo através desse amor à “pátria” mas acabam muitas vezes fazendo com que esse amor vire ódio àquilo que é diferente.

Essa crítica à nova política e a forma como as massas são manipuladas também é mostrado no esquema de Fake News de Twitter e zapzap da Tempesta. A série mostra que essa manipulação hoje é feita de forma muito mais sutil adicionando pequenas pílulas de ódio pelas redes sociais. Existe uma cena bem forte que mostra uma pessoa comum se tornando um assassino simplesmente por absorver esse tipo de informação. Não existe nazifascismo sem o medo, o terror atribuído a certos grupos. No caso do The Boys são o super terroristas. Difícil não fazer conexão com a política do próprio Brasil que tem seus próprios inimigos públicos e fábricas de fake news.

Nazismo e Neo-Liberalismo

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Esse é um ponto muito interessante que a série aborda e que é difícil vermos até nas obras mais progressistas americanas. Ao aproximar a Tempesta do Capitão Pátria a série faz uma conexão do liberalismo americano com o Nazismo da Alemanha Nazista. O Capitão está muito feliz em dizer que adora os EUA e que acha que eles são superiores ao resto do mundo. Mas ao ver a Tempesta falar sobre superioridade branca ele já fica um pouco confuso e com o pé atrás.

A máquina cultural americana gosta de colocar o Nazismo como o pior mal que já apareceu na Terra. Mas é importante destacarmos que o próprio Hitler elogiava e se inspirava no modelo de economia liberal americano. O liberalismo apoiou a escravidão e outras atrocidades durante anos. Um sistema de governo que apoia a exploração de países mais fracos não é muito diferente do Nazismo. É importante lembrarmos da frase de Domenico Losurdo que diz que o fascismo e o nazismo nada mais é do que a aplicação das políticas de exploração liberais – normalmente postas em países pobres – aplicada em países ricos. Uma das características do Fascismo inclusive é o anti-comunismo, e essa é só uma das características em comum do Fascismo com o Liberalismo.

Até mesmo nos simbolismos a série acerta em cheio. O visual do uniforme da Tempesta é mais escuro lembrando um uniforme nazista. Até seu cabelo com um undercut do lado lembra o de Hitler, um corte que era comum naquela época e local. Já o Capitão Pátria é o exemplo do ariano ou do supremacista branco. Ele tem, ao mesmo tempo, um rosto bem padrão de Hollywood mas ao mesmo tempo esquisito. Como se ele fosse uma distorção ou paródia do que é ser um patriota americano. Ponto Positivo para Antony Starr que interpreta o personagem de forma magistral. A cena dos dois voando e se beijando é muito icônica, selando essa união entre liberalismo americano e nazismo com maestria.

Grandes Corporações e Política

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Lembra de quando a gente tinha obras Cyberpunk com grandes corporações controlando o mundo? Pois já estamos nele. A Voidt da série é uma mega corporação responsável por diversos tipos de produtos. Hoje temos empresas assim que atiram para vários tipos de produtos e serviços, com seus tentáculos tocando vários aspectos da sociedade.

Na série vemos duas ramificações desse tentáculo interessantes: na religião e na política. A igreja em que o Profundo entra representa esses grandes grupos religiosos que trabalham juntamente com a política e as empresas para poder reforçar os estereótipos do conservadorismo. Vivemos hoje no Brasil e no mundo uma onda de liberalismo na economia e conservadorismo nos costumes. Onde é permitido que as corporações façam de tudo para visar o lucro enquanto as liberdades individuais são seciadas. Mas como tudo se adapta, o liberalismo se apropria de pautas mais progressistas como a de diversidade sexual e de gênero e sexual tentando parecer mais descolado. Vemos isso no núcleo da Rainha Maeve, que precisa ter sua vida sexual exposta como se fosse um produto em busca de ganhar mais fama do público.

Quanto à política, a série mostra que é muito difícil mudar o sistema utilizando suas regras. A própria senadora Victoria Neuman que parecia boazinha, no final é representada como uma “explodidora” de cabeças com seus próprios interesses. Mas é necessário dizer que essa visão de que “todo político” é malvado pode ser um pouco problemática. É importante lembrarmos de que foi essa narrativa que elegeu outsiders como Trump, Bolsonaro e Dória.

Se destruir o sistema por dentro usando suas regras não funciona então o que vai funcionar? Fica aí o questionamento. Mas é legal ver uma série que não se resume a mostrar violência explícita e piadas de humor duvidoso. A segunda temporada de The Boys mostrou que dá para trazer discussões muito complexas dentro das sutilezas enquanto te diverte no processo.

Agradecimento especial a Bárbara Rodrigues, minha esposa, que me ajudou na escrita deste texto.