The Great: Elle Fanning e Nicolas Hoult brilham em sátira sobre ascensão de Catarina II | Crítica

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The Great

Em The Great, Tony McNamara ri da desgraça e mostra como o poder em mãos erradas pode ser uma desgraça maior ainda

Pontualmente, uma história verdadeira. Com esse prólogo, dá-se início a The Great, nova série da Hulu sobre a ascensão de Catarina II, imperatriz da Rússia que viveu no século XVIII. Seguido de um nervoso violino que acompanha a chamada da série, temos um vislumbre do que nos espera: uma sátira política trazendo como personagem central a monarca russa.

Diferente da recente minissérie da HBO estrelada por Helen Mirren (A Rainha), que traz a imperatriz em outra fase da vida, a produção da Hulu mira em uma idealista Catarina ainda na flor da idade, recém-chegada à Russia para se casar com o também jovem imperador Pedro III.

Elle Fanning como Catarina II
Elle Fanning como Catarina II. Reprodução

Criada, escrita e produzida por Tony McNamara, responsável pelo roteiro de A Favorita (2018), em uma camada mais superficial, The Great não esconde o desejo de nos fazer rir. E muito! Para isso, a série é precisa na escalação de seu elenco, que conta com Elle Fanning (Malévola; Por Lugares Incríveis) como Catarina II e Nicolas Hoult (Mad Max: Estrada da Fúria; Tolkien) como Pedro III. Ambos reafirmam aqui como são ótimos e versáteis na profissão. Fanning brilha na comédia ao exibir um excelente timing nas diversas situações em que o texto exige. Quando precisa transitar pelo drama, aí a atriz está ainda mais à vontade e também não decepciona.

Hoult é um caso à parte. O ator, que já deixou evidente diversas vezes seu talento, apresenta em The Great o melhor trabalho de sua carreira até o momento. Ele arranca gargalhadas – quase sempre ofuscando a protagonista, que vira sua escada para o riso nas cenas em que estão juntos – numa performance sensacional de Pedro III, mostrado como um sociopata com jeito de meninão mimado, que tem seus caprichos atendidos por todos da corte.

Nicolas Hoult e Elle Fanning
Nicolas Hoult e Elle Fanning. Reprodução.

O tom de humor da série nos faz lembrar o de diversos trabalhos de Guel Arraes, que dirigiu e contribuiu na adaptação de roteiro do filme O Auto da Compadecida (2000). Nesse quesito, McNamara parecia estar realmente muito inspirado. Seu humor é ágil, cheio de sarcasmo e ironia, fazendo piada de tudo sem nenhum medo em dar de cara com o ridículo.

No universo criado pelo autor, todos parecem ter algum grau de loucura e Catarina, ao se deparar com sua nova realidade, logo percebe que precisa aprender como ser alguém digna da expectativa de todos. Frustrada com a condução do reino pelo marido, que está mais interessado em mandar seus homens para a Guerra e promover festas em ode a ele mesmo, a imperatriz, influenciada por ideais iluministas, não tarda em conspirar contra esse cenário.

Nicolas Hoult como Pedro III
Nicolas Hoult como Pedro III. Reprodução

Claro que por baixo da superfície (como toda boa sátira) temos uma forte crítica à sociedade. Em determinada passagem, o arcebispo do império (Adam Godley, de Breaking Bad) refuta a arte e a ciência, colocando-as como ideias perigosas e questionando por que o futuro seria melhor do que o passado ou um avanço em vez de um retrocesso. Entenda como quiser, mas vejo aí uma ácida crítica do criador da série que pode ser perfeitamente enquadrada aos dias de hoje. Cabe a você extrair dela o que achar conveniente.

The Great é um entretenimento completo. Trazendo 10 episódios, temos em sua mistura um belíssimo trabalho de reconstituição de época, com direito a conspirações, crítica de costumes e um texto com vocação para nos fazer dar muitas risadas. Seu elenco de apoio, com Phoebe Fox (The Aeronauts), Sacha Dhawan (Doctor Who) e Douglas Hodge (esse impagável como Velementov, o sempre alcoolizado chefe da guarda russa), torna a investida ainda mais prazerosa. Longe de ser uma piada, eis uma das gratas surpresas de 2020. Hurra!

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