Roberta Filizola

28 ago, 2021

Séries

Leve, rápida de assistir e muito cativante, Special merece sua atenção

Special é mais uma das séries da Netflix inspiradas na vida real do próprio autor, nesse caso Ryan O’Connel, que também atua e roteiriza, e traz um ponto de vista que sempre foi silenciado. Para o horror da Netflix de Direita, o protagonista dessa história não só tem paralisia cerebral, como também é gay. Com um tom de brincadeira, mas de modo muito sincero e profundo, a série apresenta a vida de Ryan Hayes, um millennial de quase 40 anos, vivenciando situações pela primeira vez que, para a maioria das pessoas de sua idade, são comuns. 

Então, com a vontade de experimentar, ele resolve começar a trabalhar para um blog cult bacaninha em que Olívia (Marla Mindelle), a editora-chefe e uma das personagens mais engraçadas, pede para seus redatores posts “lacração” porque são assuntos que estão na moda, e fala desse jeito meio errado mesmo, sem meias palavras. O que presencia nessa redação, ainda mais quando se aproxima de Kim (Punam Patel), a responsável pela maior audiência do blog por conta de seu conteúdo body positive, faz a gente perceber que o objetivo não é questionar ou criticar a importância desses assuntos, mas fazer com que nós, pessoas cult bacaninhas, possamos rir de nós mesmos.

Assistimos a Special num instante, mas algumas cenas, mesmo com seu clima leve, permanecem na gente pelo assunto que abordam, principalmente para quem se identifica de algum modo. Em algumas delas, Ryan mostra o quanto internaliza o capacitismo do qual sempre foi vítima, tanto que não tem coragem de dizer que tem paralisia cerebral de primeira, e até reproduz em outras pessoas com deficiência. Já Kim, apesar do discurso de autoaceitação, tem, sim, várias questões com corpo: às vezes não acredita quando alguém realmente sente atração por ela, e sempre tenta compensar de outras formas o fato de não ser uma mulher que atende ao padrão de beleza convencional. 

Por não apresentarem essa aparência padrão que, como eles dizem, já atrai o sorriso e a atenção das pessoas, cada um enfrenta, à sua maneira, a indiferença ou mesmo a indisposição da sociedade para fazer eles se sentirem bem. Ou então a condescendência das pessoas funcionalmente típicas, cheias de boas intenções, que tratam pessoas com deficiência como inferiores, como um dos personagens que, em uma academia, vai parabenizar Ryan por ele insistir em fazer exercício, mesmo com suas características físicas (como muitas vezes já ouvimos ou até já pensamos a respeito dos atletas das paralimpíadas, por exemplo).

O documentário Crip Camp, também disponível na Netflix, indicado ao Oscar esse ano, relata a história de um acampamento destinado a jovens com deficiência, que funcionou entre os anos 1950 e 1970, e muitos dos seus participantes se tornaram ativistas na luta pela acessibilidade. Uma das coisas que esse filme traz à tona é a relutância da sociedade em considerar que PCDs podem ser pessoas sexualmente ativas, assunto que é desenvolvido de modo muito sensível em Special. A partir do seu ponto de vista, assistimos ao protagonista dando seu primeiro beijo e fazendo sexo pela primeira vez, mas não sem muita frustração no caminho.

 

Agora que tem um emprego e até amigos, sua vontade de se tornar um adulto independente também o faz tomar a atitude de sair da casa em que morava com sua mãe, Karen Hayes (Jessica Hecht), onde vivia quase como um adolescente. Karen é outra personagem muito rica, assim como a relação que tem com seu filho. Quando ele se muda, ela tem a oportunidade de se envolver romanticamente, coisa que não fazia desde que o pai de Ryan abandonou os dois. Mas vive esse relacionamento escondido do filho, porque, por algum motivo, não tem coragem de admitir para ele. E Ryan que, da boca para fora, sempre falou que ela deveria ter preocupações que não fossem ele, na verdade não aceita tão bem quando isso acontece.

Essa relação de co-dependência entre uma mãe e seu filho com diversidades funcionais - que realmente demandava uma atenção maior por parte dela - culmina em uma separação com a qual eles têm que lidar na segunda temporada. É cativante o paralelo feito entre a vida dos dois, cada um aprendendo a estar a sós, a se bastar e a se satisfazer com a própria companhia. Para eles e os outros personagens, essa temporada serviu como encerramento, que até conseguem agradar bastante - e se houvesse uma terceira com esse mesmo clima, provavelmente agradaria também - mas para quem, como eu, viu a primeira e a segunda logo em seguida, o sumiço de alguns plots e personagens fica um pouco estranho.

Enquanto que, na temporada anterior, Ryan cria coragem para mostrar sua verdadeira face, na última ele tenta se fortalecer para conseguir enfrentar um mundo que não admite diferenças. Ele encontra um homem que o ama de verdade, mas que, ainda assim, não o trata como igual; passa a frequentar um grupo formado por pessoas com deficiência que compartilham os preconceitos que sofrem, dos sutis aos mais graves; além do mais, enfrenta um bloqueio criativo quando tenta escrever os posts para o blog de Olívia. Então percebe que, talvez, seja hora de ir além: quem sabe poderia escrever um livro autobiográfico, que poderia virar, por que não, um seriado na Netflix...? 

Podemos aprender bastante sob a perspectiva de Ryan, mesmo que Special não faça questão de explicar por A mais B o que significa ser PCD. O conjunto de pessoas com diversidade funcional e paralisia cerebral é bem grande, embora seja possível contar nos dedos as vezes que elas aparecem com algum destaque em produções assim - Breaking Bad, Atypical... Que mais? - o que, inclusive, é dito com tom de piada em um episódio da série. Enfim, a intenção não é representar todas essas pessoas, mas mostrar de perto a experiência de uma delas.

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