Edipo Pereira

3 nov, 2021

Séries

Sintonia foi uma grata surpresa na época de seu lançamento na Netflix, em agosto de 2019. Àquela altura, não me importei com o fato de ser uma produção que servia mais como um motor publicitário de uma máquina de fazer dinheiro, vulgo KondZilla, numa espécie de Malhação do funk brasileiro (estilo musical que considero ruim): o que me conquistou foi a precisa leitura que o texto fez da periferia social paulistana através de três pilares, que são a música, a fé e o crime organizado.

Nesta segunda temporada, temos o MC Doni finalmente deslanchando na carreira de cantor, enquanto Nando se aprofunda no crime na condição de chefe e precisa lidar com recorrentes sabotagens em suas transações do tráfico. Rita, agora devota de Deus, tenta um modo de reativar a igreja local.

Crime

A produção cumpre bem a missão de dar continuidade à trajetória dos três personagens centrais. Isso de fato era algo esperado, uma vez que seus pilares possuem boa dose de carisma. Eles carregam para a discussão temas interessantes como a dificuldade para alguém na situação de Nando sair da cólera do crime. É nesse núcleo também que temos boa dose de humor involuntário nos diálogos, com os personagens esbanjando as gírias paulistanas, algo que já chamou atenção do espectador desde a primeira temporada da série. Christian Malheiros, o Nando, é o que melhor demonstra potencial para a carreira de ator, algo que você já pode comprovar assistindo ao filme Sócrates.

Dentro da religião em Sintonia, Rita é os olhos e ouvidos dos bastidores da fé neopentecostal. Bruna Mascarenhas manda muito bem no papel, mas sua história ficou mais amarrada à tentativa de refundar a igreja local com a ajuda do filho do pastor, seu crush. O roteiro parece não querer adentrar muito nas sujeiras da igreja, algo que eu particularmente estava esperando. Ao invés disso, preferiu se manter mais centrado no legítimo sentimento altruísta que move grande parte das pessoas na comunidade. Não é uma abordagem errada, até porque fica mais do que claro o viés mercadológico da fé local.

Funk

Já o principal pilar da série, o funk carioca, traz como líder o pior dos três atores. Jottapê carrega uma imagem positiva com o público, mas seu convencimento como ator se assemelha à piada do Hermes & Renato quando inventaram a Escola de Atores Sylvester Stallone. Jottapê precisa se dedicar bastante para conseguir uma nota boa dentro desse curso. O resultado final acaba evidenciando demais a vertente publicitária da produção, principalmente quando entra para a jogada participações especiais como a de Alok e MC Kevinho.

Não deixa de ser divertido acompanhar a rotina de um cantor em busca do estrelato, com a cansativa rotina que sempre acaba colocando dificuldades do jovem MC Doni ter uma vida pessoal mais presente. Outro ponto positivo é a preocupação do garoto em se manter nas raízes do seu trabalho, ao invés de sucumbir às colaborações que visam apenas abocanhar outros mercados.

Claro que, no final das contas, a qualidade do som de Sintonia acaba por expor a fragilidade do próprio suposto gênero musical que é o funk. Digo suposto porque esse funk brasileiro em nada se assemelha ao verdadeiro funk de artistas como James Brown, Funkadelic e Kool & The Gang. Tampouco estou pegando no pé, uma vez que não sou um crítico musical, mas não me parece coincidência que todos esses nomes de sucesso no Brasil (Kevinho, Anitta e Ludimila) tenham se enveredado para um estilo que se encaixa mais dentro do pop.

Nesse ritmo, seria melhor Sintonia findar suas atividades na terceira ou quarta temporada, no máximo. Esse modelo essencialmente publicitário apadrinhado por KondZilla pode ter sido o responsável por trazer um produto interessante à luz, mas é, ao mesmo tempo, o principal limitante para uma melhora na qualidade da série.

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