Edipo Pereira

3 jun, 2021

Séries

Série da Netflix traz questões importantes, mas peca na construção da própria mitologia

Atualmente, a mitologia nórdica só perde para a grega no quesito "arroz de festa": são diversas produções adaptando os mitos envolvendo deuses como Thor, Loki, Odin... Algumas boas, como o mais recente God of War, o livro Mitologia Nórdica, de Neil Gaiman, e as recentes aparições do Thor nos filmes da Marvel Studios; e outras ruins, como o próprio Thor nos primeiros filmes solo do herói. Ragnarok, série da Netflix que acaba de ganhar sua segunda temporada, infelizmente se encontra neste segundo grupo.

A trama da série criada por Emilie Lebech Kaae e Adam Price traz o tradicional fim do mundo escandinavo para os tempos atuais, onde Magne (David Stakston), nosso protagonista, se muda para a cidade (fictícia) de Edda (nome que remete aos textos que permitiram iniciar o estudo e a compilação das histórias referentes à mitologia nórdica), na Noruega junto com sua mãe e seu irmão. Em meio às dificuldades para se adaptar ao novo lar, incluindo a escola e o fato de Magne ser disléxico, o garoto passa a desenvolver estranhas habilidades envolvendo condições climáticas, além de um potencial físico fora do comum se comparado a qualquer ser humano.

Nesta pacata cidade, a principal geradora de emprego é a mega corporação pertencente à família Jutul, tendo Vidar como principal representante junto com sua família. Desse modo, os Jutul possuem grande influência em relação ao destino de tudo que diz respeito à cidade, e uma contaminação na água de Edda logo levanta suspeitas sobre a atividade da empresa.

 

A ideia de adaptar esses mitos para os dias atuais numa dinâmica jovem escolar, remetendo ao saudoso programa Malhação da TV Globo, não é das piores. Principalmente, colocando junto a isso pautas sensíveis como a preservação do meio ambiente e os dilemas que qualquer herói ou heroína acabam tendo. No campo das ideias e das propostas, podemos receber muito bem, a princípio, Ragnarok como um entretenimento leve, rápido e de considerável diversão.

O único problema mesmo é começar a assistir Ragnarok

Não digo isso por maldade, pois realmente fui de coração aberto, mas a série não desce bem. Aos poucos, os diálogos passam a ficar cada vez mais forçados, e a construção de personagens se torna muito falha.

Os romances que o roteiro tenta encaixar são péssimos. Magne e Gry (Emma Bones) trocam meia dúzia de palavras e é como se um tivesse nascido para o outro, enquanto Fjor (Herman Tømmeraas) se torna o grande amor da garota mesmo sendo um babaca completo que, inclusive, queria assassinar a coitada (pra não chamar de burra).

Mesmo acertando no aspecto estético na escolha de Thor (que se assemelha muito mais ao dos quadrinhos da Marvel do que o vivido por Chris Hemsworth, por exemplo, com o rosto liso e aspecto sisudo) e Loki, o acerto da produção nesse quesito para por aqui. Magne acaba sendo um protagonista sem carisma algum, enquanto Laurits é digno da encarnação mais tonta possível do Deus da Trapaça. O lado bom, que seria sua não identificação específica com um gênero ou sexualidade, está presente aqui, mas de um modo um tanto confuso e mal trabalhado.

As coisas poderiam melhorar quando entrasse o escopo mitológico, onde os deuses nórdicos que habitam os cidadãos comuns trariam algum carisma ou coerência à trama. Mas não rola. Um exemplo adequado dessa vez é Iman (Danu Sunth), que na verdade é Freya (deusa do amor, luxúria, fertilidade - escolhe aí!). Trata-se da personagem pior aproveitada de todas, onde o texto lança mão de seus poderes de persuasão para afazeres banais com viés egoístas, mas não os utiliza em momentos que envolvem sua própria preservação.

Esses problemas de desenvolvimento se misturam de forma absurda, a ponto de você identificar (caso queira) a mesma negligência com cada um dos principais personagens. Dentre eles, Odin, Tyr, Loki e por aí vai. Já a supracitada pauta ambiental, mesmo sendo oportuna, não salva Ragnarok de uma avaliação negativa.

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O Pai de Todos. Divulgação: Netflix

Defeitos especiais

Destaque especial para o absurdo que foi aquela versão de Jormungand, a Serpente do Mundo. Transformar uma criatura tão importante numa tênia foi a maior heresia que uma adaptação poderia cometer. Não bastasse a atitude, ainda gastaram dinheiro de hidromel barato no desenvolvimento dos efeitos especiais nas cenas onde a pobre criatura, outrora habitante do ventre de Loki, aparece.

Ragnarok pode ser uma boa diversão para você, principalmente se estiver interessado numa obra onde se desperdiça diversos potenciais devido à falta de habilidade (e até noção do ridículo) para entregar algo digno. Mjolnir que o diga.

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