Os Testamentos: Das Filhas de Gilead | Crítica e resumo do Episódio 3 Os Testamentos: Das Filhas de Gilead | Crítica e resumo do Episódio 3

Os Testamentos: Das Filhas de Gilead | Crítica e resumo do Episódio 3

O terceiro episódio de Os Testamentos: Das Filhas de Gilead, disponível no Disney+, finalmente responde à pergunta que pairava desde a estreia: quem é Daisy (Lucy Halliday) e como uma garota canadense, criada na liberdade, acabou vestindo o branco das Pérolas em Gilead? Mais do que um simples flashback, este capítulo mergulha na formação de uma espiã relutante e apresenta a melhor narrativa da série até agora, equilibrando ação, tragédia pessoal e a tensão constante de uma infiltração em território inimigo.

Pela primeira vez, abandonamos Gilead e conhecemos a vida anterior de Daisy. Em Toronto, ela é uma adolescente comum: fuma maconha no skatepark com o namorado Justin, tem uma relação descontraída com os pais, Neil e Melanie, e estuda a queda de Gilead nas aulas de história como se fosse um evento distante. A diretora constrói uma atmosfera de normalidade quase utópica, exatamente para que o impacto da tragédia seja maior.

Ao voltar para casa tarde da noite, Daisy encontra seus pais assassinados. A cena do reconhecimento dos corpos no necrotério é filmada com uma frieza clínica que traduz o estado de choque da personagem. O atendente do serviço social que aparece para “ajudá-la” logo se revela suspeito, e é neste momento que June Osborne (Elisabeth Moss) surge como uma salvadora improvável.

June explica que os pais de Daisy eram agentes da Mayday, a resistência contra Gilead, e que a loja da família era apenas uma fachada. Eles foram mortos por agentes do regime, e Daisy é a próxima. O que Daisy não sabia: Neil e Melanie não eram seus pais biológicos. Eles a adotaram quando ela era bebê, salvando-a de ser levada de volta para Gilead.

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A despedida da infância: Justin e a escolha solitária

Um dos momentos mais dolorosos do episódio ocorre quando Daisy foge do esconderijo seguro para ver Justin. A sequência é banhada por uma luz azul de aquário que confere um tom onírico e melancólico à despedida. Eles fazem sexo, choram e Daisy pede que ele fuja com ela. Justin, porém, ainda é uma criança – ele quer acordar os pais, conversar, buscar permissão. É o momento em que Daisy entende que aquela parte de sua vida acabou. Sozinha, ela pula a janela e encontra June esperando na escuridão.

A cena é um raro exemplo de amadurecimento forçado pelo trauma. Daisy não escolheu se tornar uma soldado; a guerra veio até ela.

O ataque ao ônibus

De volta ao presente em Gilead, o episódio ganha fôlego com uma sequência de ação tensa. O ônibus das Ameixas (as adolescentes) é cercado e alvejado a caminho de uma visita. As meninas são forçadas a se abrigar em uma loja abandonada. Tia Vidala tem o braço quebrado, e o caos se instala.

É neste momento que Daisy e Agnes se aproximam de verdade. Daisy puxa Agnes para o chão do ônibus, protegendo-a dos tiros. A gratidão de Agnes é genuína, e o gelo entre elas começa a derreter. Ainda assim, o episódio não romantiza a aproximação: Agnes continua desconfiada, e Daisy mantém sua missão em segredo.

No abrigo, as meninas descobrem, chocadas, que homens têm pelos no corpo – pasmem. O momento é ao mesmo tempo cômico e trágico: em Gilead, a educação sexual é tão reprimida que um torso masculino peludo é motivo de espanto e fofoca.

Os Testamentos: Das Filhas de Gilead | Crítica e resumo do Episódio 2

A revelação de Garth

A grande virada do episódio vem com Garth, o Guardião bonitão por quem Agnes nutre um interesse romântico silencioso. Ele não é apenas um motorista; Garth é um agente da Mayday. Daisy entrega a ele o mapa da Escola Tia Lydia que vinha desenhando em segredo, e ele revela que o ataque ao ônibus foi, na verdade, uma missão de resgate que deu terrivelmente errado.

Daisy exige falar com June, mas Garth finge não conhecer o nome – um momento que soa falso para quem acompanha a série, já que June é uma figura lendária tanto na resistência quanto no imaginário de Gilead. A cena, no entanto, serve para isolar Daisy ainda mais: ela está profundamente atrás das linhas inimigas, e suas conexões com o mundo exterior estão se rompendo uma a uma.

O jantar na casa de Penny

Após uma semana de recuperação, as meninas finalmente visitam Penny, uma ex-Ameixa agora casada com o Comandante Judd. A casa é uma vitrine rosa do sonho americano distorcido de Gilead: móveis de veludo, refeições servidas por Marthas silenciosas e uma jovem esposa que já suspeita estar grávida.

Comandante Judd fixa o olhar em Daisy. Ele a questiona sobre suas motivações para estar ali, e ela responde com uma honestidade brutal: “Não sobrou nada para mim”. A resposta, que serve como disfarce, é também a verdade nua e crua de sua existência. Judd parece acreditar – por enquanto.

Os Testamentos: Das Filhas de Gilead

Veredito do 2º episódio de Os Testamentos: o melhor até agora?

O terceiro episódio é, de longe, o mais coeso e emocionante. Ao dedicar metade de seu tempo ao passado de Daisy, a série humaniza uma personagem que até então era vista apenas como uma perturbadora ambulante. Chase Infiniti continua sólida como Agnes, mas é a atriz que interpreta Daisy (cujo nome ainda guardamos para não estragar surpresas) quem rouba a cena – transmitindo o desespero de uma garota que perdeu tudo e a frieza calculista de uma espiã amadora.

A direção acerta ao alternar os tons: o terror doméstico da menstruação ritualística de Agnes contrasta com a ação crua do ataque ao ônibus, e ambos são intercalados pela melancolia do flashback em Toronto. O episódio também responde (parcialmente) a uma das grandes questões dos fãs: não, Daisy não é Nichole. Mas sua identidade verdadeira promete ser revelada nos próximos capítulos.

O único senão fica por conta da subutilização de June. Aparecendo apenas nos flashbacks, ela funciona como uma mentora distante – uma pena, pois a química entre Elisabeth Moss e a nova protagonista é eletrizante. Ainda assim, a série finalmente encontrou seu ritmo, equilibrando a crítica social afiada com o suspense de espionagem.

Com Garth na resistência, Daisy infiltrada e Agnes cada vez mais próxima de descobrir a verdade sobre sua mãe, “Os Testamentos” se prepara para um conflito que promete incendiar Gilead por dentro. A pergunta que fica: quando a bomba vai explodir?