Quatro anos após o final conturbado de “The Handmaid’s Tale”, a nova série Os Testamentos: Das Filhas de Gilead, disponível no Disney+, finalmente chega para responder à pergunta que atormentava os fãs: o que aconteceu com Agnes, a filha de June Osborne? A adaptação do romance homônimo de Margaret Atwood não apenas retoma o universo distópico, mas aprofunda o horror ao mostrá-lo sob uma nova perspectiva: a de uma adolescente sendo doutrinada desde o berço. O primeiro episódio, intitulado “Flores Preciosas (Precious Flowers)”, estabelece um tom sombrio, claustrofóbico e surpreendentemente cheio de nuances.
A vida de Agnes: flores em um jardim envenenado
O episódio começa com Agnes (interpretada pela boa Chase Infiniti) , a filha mais velha de June, vivendo sob os cuidados do poderoso Comandante Mackenzie e sua detestável esposa, Paula. Criada como uma “ameixa” (a designação para adolescentes que ainda não menstruaram), Agnes frequenta a escola onde aprende as regras rígidas de Gilead. As cores definem o destino: rosa para as crianças, roxo para as jovens verdes (férteis) e, em breve, verde para as noivas dos Comandantes.
O que torna a narrativa fascinante é a dualidade da voz de Agnes. Ela narra em tom de doutrinação, repetindo as frases feitas do regime, mas suas ações, como decapitar a boneca que representa a madrasta, revelam uma fúria íntima que ela mesma parece não compreender completamente. A diretora de fotografia e o roteiro constroem uma tensão constante entre a menina obediente que Agnes acredita ser e a sobrevivente que ela talvez ainda carregue no sangue.

Daisy chega para abalar o sistema
O grande motor da trama é a chegada de Daisy (Lucy Halliday), uma vinda do Canadá, supostamente convertida à fé de Gilead. A Tia Lydia (Ann Dowd, tão magistral quanto sempre) encarrega Agnes de ser a “pastora” da novata, uma missão que a princípio parece um fardo, mas rapidamente se revela uma bomba-relógio.
Daisy é o espelho invertido de Agnes. Enquanto as demais alunas regurgitam o discurso do regime, Daisy demonstra choque genuíno diante da violência. A cena central do episódio — a amputação pública da mão de um Guardião pego se masturbando nas dependências da escola, é um tour de force do horror institucionalizado. As alunas, treinadas para odiar, pedem sangue em uníssono. Daisy, por outro lado, sai correndo para vomitar e solta um sonoro “Jesus, que porra é essa?”.
É nesse momento que Agnes faz sua primeira escolha moral significativa: ela esconde a reação de Daisy das Tias. O pacto selado com um “juramento de mindinho” é um gesto infantil que carrega um peso revolucionário. Agnes ainda não sabe, mas ao proteger a garota que amaldiçoa Gilead, ela está traindo tudo o que foi ensinada a amar.
A violência como ferramenta de doutrinação
“Os Testamentos: Das Filhas de Gilead“ não economiza na brutalidade, mas ela é aplicada de forma cirúrgica. Diferente de “The Handmaid’s Tale”, onde a violência era frequentemente sexual e contra as mulheres, aqui ela é pedagógica e performática. As meninas não são apenas vítimas; são plateia e juízas. Elas aprendem desde cedo que o Estado não apenas permite a violência, mas a exige como prova de fé.
A sequência em que o braço do Guardião é serrado enquanto as garotas gritam é perturbadora não apenas pelo gore, mas pelo entusiasmo coreografado. É um lembrete de que Gilead não se mantém apenas com medo, mas com a cumplicidade ativa de seus cidadãos mais jovens. A cena também serve para contrastar Agnes (que assiste impassível) de Daisy (que se desespera). Uma ainda está adormecida; a outra, recém-acordada para o pesadelo.
Flashbacks, mistérios e a sombra de June
O episódio intercala o presente em Gilead com flashbacks do passado de Daisy no Canadá. Lá, descobrimos que ela não é uma fugitiva comum: ela é observada por June Osborne (Elisabeth Moss, em uma participação especial que promete se expandir). A cena final, onde Daisy sintoniza um rádio para ouvir transmissões da resistência (apresentadas por uma voz que remete a Stephen Colbert), e depois coloca fones de ouvido para ouvir música, um simples ato de liberdade negado às meninas de Gilead, é um golpe de misericórdia emocional.
A grande revelação, porém, vem na cena derradeira: Agnes menstrua. A passagem para a idade adulta, que deveria ser um motivo de celebração (“agora você pode ser esposa de um Comandante”), é apresentada com a frieza de uma sentença de morte. Ela agora está oficialmente no mercado de fertilidade de Gilead.
Veredito do episódio 1 de “Os Testamentos: Das Filhas de Gilead”: Promissor
O primeiro episódio de “Os Testamentos: Das Filhas de Gilead” faz o que uma boa estreia deve fazer: recontextualiza o universo conhecido sem perder sua essência. Ao transferir o foco das aias para as filhas dos Comandantes, a série encontra um novo território de horror — mais psicológico, mais insidioso e, de certa forma, mais desesperador. As meninas não são estupradas (ainda), mas são treinadas para aplaudir a própria castração emocional.
Chase Infiniti está soberba como Agnes, transmitindo uma vulnerabilidade que nunca escorrega para a vitimização passiva. Ann Dowd, como sempre, rouba a cena como uma Tia Lydia complexa, ao mesmo tempo tirana e tragicamente presa em sua própria criação. E a introdução de Daisy (interpretada por uma atriz que ainda promete nos surpreender) injeta a dissonância cognitiva necessária para que o espectador de fora — e Agnes por dentro — comece a questionar o que antes parecia inquestionável. A única ressalva fica por conta da narração em excesso, que por vezes subestima a inteligência do espectador. Felizmente, as imagens e as atuações falam mais alto.
O final, com Agnes menstruando e Daisy ouvindo música escondida, é um presságio perfeito do que está por vir: uma guerra entre a obediência forçada e o instinto de liberdade. Se os próximos episódios mantiverem a qualidade, “Os Testamentos: Das Filhas de Gilead“ pode não apenas honrar seu material de origem, mas se firmar como uma das melhores séries do ano no Disney+.