Charles Luis Castro

7 maio, 2021

Séries

Conflito de gerações e pensamentos marca a primeira temporada de O Legado de Júpiter

O texto a seguir NÃO contém spoilers!

Desde que a figura do super-herói foi inserida na cultura pop, seu significado passou por várias mudanças ao longo do tempo. Os aspectos messiânicos dos seres poderosos continuam presentes, porém, discussões mais profundas foram incorporadas aos personagens e suas histórias. Dessa forma, inúmeras obras visam trabalhar de maneira criativa com essa desconstrução. Garth Ennis e Darick Robertson fizeram isso com The Boys, apenas para citarmos um exemplo de sucesso recente. No seu batizado Millarworld, Mark Millar criou, entre outras coisas, Kick-Ass e aquela que é tida como sua grande ideia: O Legado de Júpiter. É justamente com ela que a Netflix começa a explorar os direitos desse universo, entregando mais um bom produto dessa nova onda de adaptações de quadrinhos.

Baseada na obra escrita por Millar e desenhada por Frank Quitely, a série é dividida em duas linhas temporais diferentes. Em 1929, conhecemos Sheldon Sampson (Josh Duhamel) que após eventos trágicos decide partir em uma expedição para uma ilha misteriosa no Atlântico. Ele e seus companheiros desvendam o segredo do local e adquirem habilidades incríveis. Assim, nascem os primeiros super-heróis da história. Juntos, Utópico (Duhamel), Lady Liberdade (Leslie Bibb), Onda-Cerebral (Ben Daniels) e os outros formam a União da Justiça. No presente, acompanhamos os velhos heróis e seus herdeiros lidando com a responsabilidade de proteger um mundo em constante evolução.

Em sua primeira temporada, O Legado de Júpiter trabalha em cima da diferença geracional entre os antigos e novos super-heróis. Os fundadores da União são frutos de uma época onde as noções de bem e mal eram bastante definidas. Guiados por um código moral, eles carregam um ideal romantizado e imutável. Já a nova geração precisa encarar um cenário de mudanças constantes na sociedade, onde a figura de uma pessoa capaz de voar ganha novos contornos. Logo, o discurso de grandes poderes e grandes responsabilidades é mais aprofundado. E esse choque de pensamentos resulta na principal problemática da trama. Os episódios equilibram cenas de ação e momentos de reflexão, dosando a violência extrema em prol de estabelecer um argumento mais direto com o público.

Aliás, quem espera o mesmo nível de sadismo e sanguinolência de The Boys pode acabar decepcionado. Apesar de algumas cenas mais fortes, os personagens buscam o máximo não cruzar a linha de matar os adversários. Quando o fazem, precisam lidar com julgamentos e o peso na consciência. No entanto, as cenas de combate carecem de refinamento. Os movimentos dos personagens são engessados, resultando em coreografias de luta pouco fluidas. Se compararmos com outras produções do gênero, era perfeitamente possível entregar algo melhor nesse aspecto. Os efeitos visuais também são problemáticos. A Netflix afirma que as prévias liberadas para imprensa não estão em sua versão final nos aspectos técnicos, mas a impressão inicial não é das melhores.

Steven S. DeKnight, conhecido por produzir a série do Demolidor na Netflix, encara uma missão complicada. Assim como em todas as suas obras, Mark Millar incluiu várias referências em O Legado de Júpiter. Temos um mashup de Superman, King Kong, Watchmen, Reino do Amanhã e tantos outros. A transposição para a tela poderia cair na armadilha de transformar-se em algo caricato. No entanto, a produção é consciente e trabalha bem com esse aspecto. As referências existem, mas não ocupam mais espaço do que o necessário. De toda forma, olhos bem treinados irão pescar as homenagens ao longo dos episódios.

A divisão temporal da trama fornece uma perspectiva maior sobre os personagens, em especial os primeiros super-heróis. É interessante acompanhar quem eles eram antes da transformação e como decidiram agir com tanto poder em mãos. A humanização de seres poderosos assim é sempre um elemento engrandecedor para histórias. Do outro lado da moeda, temos os jovens e a maneira leviana com que lidam com suas obrigações. Como grandes estrelas pop, levam uma vida de excessos. Esse conflito de ideologias poderia ser melhor explorado caso as cenas no presente tivessem um melhor desenvolvimento. Sinto que a ideia dessa primeira temporada é preparar o terreno, especialmente para aqueles que não conhecem a HQ, e deixar o aprofundamento temático para os próximos anos. Em todo o caso, a série se sai melhor nos momentos em que debate as áreas cinzentas da sociedade.

O elenco é repleto de nomes pouco conhecidos pelo grande público, mas que ganham suporte de atores mais experientes. Destaque para Elena Kampouris e Andrew Horton que vivem, respectivamente, Chloe e Brandon Sampson, os poderosos filhos de Utópico e Lady Liberdade. Já Josh Duhamel é quem ganha mais material para trabalhar, navegando em diferentes facetas de seu personagem. Ben Daniels funciona como o oposto de Josh, com sua versão heroica cercada por um ar de mistério.

Em linhas gerais, O Legado de Júpiter começa de forma consistente. Com um universo interessante, estabelece bem seus personagens e entrega uma história moderna e repleta de reviravoltas que tem tudo para cair nas graças do público. Mesmo com alguns problemas em seu primeiro ano, a série pode ter uma vida longa no catálogo da Netflix. Dizem que Mark Millar cria suas obras pensando em futuras adaptações. Seja verdade ou não, o fato é que seus trabalhos costumam ser sinônimos de sucesso.

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