O Grito: Origens – 1ª Temporada (Netflix) | Crítica sem spoilers

320
cena de O Grito - Origens, série da Netflix que chegou em sua 1ª temporada

Série é uma homenagem decente da Netflix aos filmes originais que marcaram o terror japonês “O Grito”

No início dos anos 2000, o terror norte-americano não vivia seu melhor momento. Entretanto, do outro lado do mundo, o gênero passava por uma transformação interessante, encabeçada pelas mais variadas produções asiáticas. Mesclando sangue, comentários sociais e uma variedade enorme de lendas folclóricas, não tardou para que mais pessoas abrissem seus olhos para esse movimento. Dessa forma, não chegou a ser uma surpresa quando Hollywood importou algumas dessas histórias. E mesmo depois dessa troca de culturas cinematográficas esfriar, O Grito ainda é um assunto recorrente.

Criada por Takashi Shimizu, a franquia conta com inúmeros projetos desde filmes televisivos passando por produções para o cinema. O último longa hollywoodiano estreou no início desse ano, sem conseguir agradar a crítica e o público. Na tentativa de resgatar o espírito original da história, a Netflix lançou a série O Grito – Origens. E em sua primeira temporada, com seis episódios de 30 minutos, é possível reviver muito da atmosfera opressora idealizada por Shimizu.

A ideia da série é explorar histórias brutais que serviram de inspiração para a criação de Ju-On, como é conhecido originalmente. Na trama, acompanhamos o investigador paranormal Odajima (Yoshiyoshi Arakawa) – que busca colher relatos de terror para seu livro – e a estrela da TV Haruka Honjo (Yuina Kuroshima), que é assombrada por sons estranhos durante a noite. Apesar de alguns personagens recorrentes, Origens adota o mesmo estilo dos projetos originais, com histórias não-lineares que se ligam através da icônica casa banhada por uma maldição sem precedentes.

A direção de Sho Miyake trabalha bem esse conceito, explorando a liberdade de não precisar prender-se a uma narrativa comum. Isso garante dinamismo para a história e exige do espectador um pouco de atenção para as mudanças temporais. O grande problema é que nem todos os núcleos são interessantes o suficiente e falta equilíbrio no tempo de tela. O que gera uma certa pressa nos momentos finais para que os pontos se encaixem.

Cena de O Grito – Origens. Divulgação: Netflix.

Os roteiros escritos por Yō Takahashi e Takashige Ichise caminham por uma linha tênue entre o terror padrão norte-americano e aquele que é característico da versão original, pendendo mais para esse segundo lado. Logo, o uso de jump scares é bastante contido, investindo na criação de um clima de tensão e desespero para os personagens. Os efeitos visuais também são modestos, entregando a limitação orçamentária. Porém, a temporada não deixa a desejar na violência gráfica, com cenas realmente impactantes. O que pode compensar a ausência de muitos sustos.

O Grito – Origens explora algo que sempre esteve presente nas boas histórias de terror: a crueldade do ser humano. Mesmo com a presença dos tradicionais onryõ (espíritos vingativos que assombram os lugares onde foram assassinados), a série mostra o pior lado de seus personagens e as atrocidades que são capazes de cometer. Gerando assim momentos questionáveis como uma determinada cena de estupro. Aliás, a violência contra mulheres é um tema recorrente durante a temporada.

Mesmo sem a participação de seu criador, O Grito – Origens presta uma homenagem decente aos filmes originais e pode servir de porta de entrada para curiosos e entusiastas do terror japonês. E ainda que o gênero viva uma fase de brilho no ocidente, é sempre bom ficar de olho em outros mercados.