Roberta Filizola

4 jul, 2021

Séries

Sinceramente, nem sabia da existência de Manhãs de Setembro quando acessei a Amazon Prime Video. Entrei na plataforma para assistir outra série e, quando vi o título, achei uma coincidência essa produção ter o mesmo nome de uma música da Vanusa (sim, foi a primeira coisa que pensei). Cliquei por curiosidade, sem ler o resumo nem ter a intenção de continuar assistindo. Mas me vi capturada na primeira cena, quando Cassandra, uma entregadora de aplicativo interpretada por Liniker, é destratada por um usuários e, por isso, quebra o seu anão de jardim ao som de What to do.

What to do, para quem não sabe, é um rock gravado por essa musa da Jovem Guarda em 1973 que, pouco tempo depois, veio a se parecer muito com um dos hinos do Black Sabbath (depois compara a música da Vanusa com Sabbath Bloody Sabbath. Se não houve plágio, os compositores só podem ter sonhado com os mesmos acordes…). Sim, antes de errar o hino nacional e virar meme, Vanusa já tinha feito isso e muito mais, como lançar Belchior no cenário musical, cantando sua música Paralelas, ou chamar a atenção para o iniciante Zé Ramalho, sendo a primeira a gravar sua música Avôhai.

Voltando à série, além de motogirl, Cassandra também é cantora, e faz com que os hits de Vanusa embalem sua história. Mesmo com as dificuldades para uma mulher trans de se inserir no mercado de trabalho, ela finalmente consegue realizar o sonho do flat próprio, então canta Nas manhãs de Setembro, uma música que até já foi interpretada como um protesto contra a ditadura militar. Porém, como a protagonista diz, simboliza mais a liberdade que a própria cantora tentava buscar na juventude. Só que Cassi, pensando que poderia começar o seu “feliz para sempre”, descobre que teve um filho chamado Gersinho (Gustavo Coelho) com Leide (Karine Teles), lembrando o caso de Bree (Felicity Huffman) no filme Transaméria.

Sua primeira reação é repelir a criança, que representa um empecilho para os seus sonhos futuros e o resgate de um passado que ela quer superar. Eu poderia dizer que Cassi se comporta de um jeito nada louvável e muito mesquinho, mas conseguimos entender que Cassandra é apenas uma personagem muito humana. Afinal, como ela deveria reagir à existência de um filho fruto de um deslize que, por muitos anos, não conhecia  e que, ainda por cima, chama ela de pai, desrespeitando sua identidade de gênero?

Mesmo assim, ao ver que a criança e sua mãe dormem em um carro quebrado, praticamente na rua, não consegue deixá-los desamparados. A contragosto, leva os dois para seu apartamento, planejado para caber apenas Cassandra e seu namorado Ivaldo (Thomas Aquino). É aí que Vanusa, que dá bronca em Cassi de vez em quando, canta para ela Estou Fazendo Hora. A presença da ídola de Cassandra é outro ponto interessante sobre a forma como a narrativa se desenrola: a cantora surge como a voz de sua consciência, e cheguei a me perguntar se a produção não teria ocorrido antes de 2020, ano em que a cantora morreu. Mas a voz carregada e marcante vem da atriz Elisa Lucinda, que faz uma interpretação incrível mesmo sem aparecer.

Leide, que de repente surge com um filho para Cassandra, é uma verdadeira truqueira, mas só porque a vida lhe exigiu que fosse assim. Ela vende mercadoria contrabandeada em sinais de trânsito, e quando os policiais chegam para confiscar, finge que não é dela. Rouba, deixa o filho nos lugares sem avisar para onde vai e se aproveita do flat de Cassandra como se fosse seu. Tudo para sobreviver e para conseguir criar um filho sozinha. Já Ivaldo é um garçom nordestino que é muito mais do que o estereótipo. Ele mostra um real interesse no relacionamento com Cassi, porém, nunca o considera tão verdadeiro quanto o que tem com a mulher e a filha, como bem fala Pedrita (Linn da Quebrada). Esses personagens, Cassandra e os demais, cativam porque não são planos. São contraditórios e múltiplos, tiveram sua personalidade lapidada pela vivência e pelas formas com que conseguiram superar as dificuldades.

Aliás, Leide e Ivaldo estão em uma das cenas mais bonitas de Manhãs de Setembro: os dois caminham pela cidade, ela depois de uma entrevista de emprego frustrada, ele depois do expediente, enquanto Cassandra ensaia Paralelas no palco, despertando a admiração de Gersinho. Logo depois, Cassi flagra o menino cantando a mesma música e, a partir disso, não consegue evitar o afeto que ele lhe desperta, assim como fica inevitável adorar a relação entre eles. Gersinho a tratava como homem mais por inocência que por maldade, e na tentativa de entendê-la, fala frases como “você está muito bonita, pai”. Ao mesmo tempo que aprende a reconhecê-la como mulher, Cassandra aprende a reconhecê-lo como filho.

Em apenas cinco episódios, a série consegue desenvolver bem os núcleos dos personagens que fazem a rede social de Cassandra e também uma São Paulo quase sempre sub-representada nas novelas: a cidade do trabalhador, da travesti e dos moradores de rua passando frio. Além disso, questões sociais tangenciam o enredo sem dar a sensação de que são tratadas de forma superficial. Apenas se manifestam, sem precisar de tanto aprofundamento, só porque fazem parte da realidade desses sujeitos. É como a imagem de Marielle Franco colada em um muro, mostrada rapidamente em uma das cenas, ou então a greve na escola pública, uma mulher que trabalha como prostituta, que é também uma mãe atenciosa, os grafites, os terrenos baldios e as janelas, caixinhas luminosas dos prédios de SP.

A cultura LGBTQ+ se apresenta com bastante naturalidade em Manhãs de Setembro, sem focar apenas no sofrimento. Inclusive, recomendo fortemente o conhecimento do Pajubá para assistir. O que também acontece com muita naturalidade é a interpretação de Liniker, que já tinha minha admiração pelas canções e por mostrar que gosta tanto de música brasileira quanto eu. Não tenho como fazer uma crítica imparcial, mas a escolha de quem daria vida a Cassandra não poderia ser mais acertada, já que a música é tão importante nessa série. 

No entanto, mais do que o sonho de viver de música no futuro, como viveu Vanusa ou sua mãe, Cassi percebe que, o que vale mais é o amor dos que estão ao seu redor, no presente. Enfim, sei que Manhãs de Setembro não é perfeita, e o conflito que surge no final, ligado à personalidade de Gersinho, não foi tão bem construído assim. Mas nesse ponto, já estamos tão envolvidos que a veracidade nem importa tanto. E, não sei se ando muito sensível, mas terminei com lágrimas nos olhos...

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