Roberta Filizola

28 dez, 2020

Séries

Mesmo com o ritmo lento, a segunda temporada termina deixando um gostinho de quero mais

A primeira coisa que chama atenção em Hilda é a arte incrível, que nos convida a dar um mergulho em cada cenário. Do cabelo azul da protagonista até os tons em dégradé do horizonte, o desenho tem uma paleta de cores que te faz querer entrar no mundo e viver as aventuras com os personagens, lembrando bastante as sensações que Steven Universo e Hora da aventura provocam em quem acompanha. Mas, com Hilda, o aperto no coração é um pouco mais melancólico, pois seus elementos – as cores frias, as músicas e as narrativas – criam uma atmosfera mais agridoce.

Não é à toa que essa série, baseada nas Graphic Novels de Luke Pearson, é considerada uma versão escandinava das histórias que Hayao Miyazaki dirigiu. Assim como acontece quando assistimos a alguns filmes do Studio Ghibli, ficamos envolvidos pela junção do visual fascinante à forma com que a animação tem de mostrar uma mitologia e uma lógica própria.

Bruxas bibliotecárias, homens de madeira egocêntricos, Elfos invisíveis e burocráticos, nuvens estressadas e Trolls que só acordam à noite são alguns dos seres que fazer parte da realidade da série, que podem ser fofos, engraçados, aterrorizantes ou apenas existem, sem a necessidade de maiores explicações. Junto com a protagonista, que muitas vezes aterrissa em ecossistemas mágicos e desconhecidos, pegamos a história no meio do caminho e, sem subestimar o telespectador, seja lá qual for sua idade, o universo do desenho revela seu funcionamento.

A fuga para esse outro mundo era justamente o que eu precisava no final de um ano como 2020. Mas, como uma boa obra de realismo fantástico, essa suposta válvula de escape perpassa por questões bem presentes em nossas vidas, que dizem respeito a relacionamentos, empatia, mudanças, amadurecimento, dentre outros. O roteiro de Hilda sabe tratar desses temas de uma forma positiva, voltada para o público infantojuvenil, mas sem aquela lição de moral maçante e artificial.

De modo sutil, a narrativa dos capítulos seguem um caminho diferente e mais complexo que o do maniqueísmo. Por exemplo, ao longo dos episódios, a personagem título fortalece sua amizade com Frida e David, e as façanhas dos três não só são a alma do enredo, como também, muitas vezes, são responsáveis por salvar secretamente a cidade de Trollburgo e os seres que nela vivem. Porém, quando chega em casa, Hilda se mostra uma filha difícil de lidar, pois passa o dia fora, apesar dos perigos que ameaçam a região, não diz para onde foi e constantemente inventa mentiras para sua mãe. Esta, por sua vez, tenta ser compreensiva, mas sofre com a culpa quando se vê obrigada a colocar a menina de castigo, já que, embora seja uma heroína, não deixa de ser uma criança.

Em outros casos, aprendemos que as tentativas de controlar a natureza por parte da humanidade podem causar consequências graves. Ao mesmo tempo, percebemos que ela não segue nossa moral, por isso, é importante respeitá-la sem romantizar, pois a interação direta pode ser muito perigosa.

Por ter terminado a primeira temporada em 2018, ano de seu lançamento, minha imersão na história ficou um pouco atrasada, uma vez que já tinha me esquecido de muita coisa. A temporada anterior se encerrou com um cliffhanger que não ficou muito na memória, por isso, para entender o primeiro episódio da segunda, é necessário assistir novamente ao final da primeira. Assim, pela expectativa gerada por uma espera de mais de um ano, a impressão que tive é que esse conflito foi superado rápido demais.

Na verdade, apesar de tantos atrativos, tenho a sensação de que o envolvimento com toda a série ocorre mais devagar. A vontade de ver o próximo capítulo e a saudade que sentimos dos personagens só ficam fortes quando terminados de assistir ou quando estamos perto do fim. Meu palpite é que isso ocorre porque a maioria dos episódios são procedimentais, ou seja, a história de cada um começa e termina nele mesmo. Outras animações, como Over the Garden Wall ou O Príncipe Dragão (que, por também ser da Netflix, segue um ritmo de produção parecido com o de Hilda), dão mais vontade de maratonar. Penso que isso se deve porque a conclusão do enredo que começa no primeiro capítulo só termina, de fato, no último, mesmo que pequenas narrativas sejam desenvolvidas em um só episódio.

Mas o final dessa segunda temporada, assim como a anterior, faz a espera valer a pena, pois toda a bagagem emocional desenvolvida – dos personagens entre si e nosso apego em relação a eles - ainda que de modo lento, vai compondo um clímax poderoso, e é interessante notar como alguns detalhes, que podem passar despercebidos no início, vão ganhando importância.

Não consigo decidir se meu episódio favorito é A noite de 50 anos, pois adoro histórias de viagem no tempo, ou A corça-raposa, em que aprendemos mais sobre o passado de Túlio, uma corça-raposa que, além de uma espécie rara, é o animal de estimação de Hilda. De toda forma, terminei já ansiosa por uma terceira temporada, até porque, mais uma vez, o arco dessa última acaba com um conflito sem solução.

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