Roberta Filizola

21 jul, 2021

Séries

Uma série divertida e cativante que representa um grande avanço para o protagonismo de pessoas não brancas

Antes de falar da segunda temporada de Eu Nunca..., que estreou semana passada na Netflix, vamos de recapitulação da primeira: depois de ver seu pai, Mohan Vishwakumar (Sendhil Ramamurthy), morrer de um infarto fulminante na sua frente, Devi Vishwakumar (Maitreyi Ramakrishnan) perde a locomoção das pernas, e só consegue andar novamente ao ver Paxton Hall-Yoshida (Darren Barnet), o capitão do time de natação e também o menino mais bonito da escola. Conclui, então que se relacionar com ele é sua chance de subir na pirâmide social da escola e, por isso, tem a grande ideia de pedir que ele lhe tirasse a virgindade.

Narrada predominantemente pelo tenista John McEnroe, o ídolo de Mohan, a série foca nas descobertas de uma adolescente filha de indianos que migraram para os Estados Unidos, uma perspectiva que há muito foi sub-representada. Como outras produções que vem chamando atenção atualmente, é baseada em uma história real, mais especificamente na infância e adolescência de Mindy Kaling, que criou a série em parceria com Lang Fisher. Eu já amava Mindy desde que roteirizava e interpretava Kelly Kapoor em The Office, e passei a admirar ainda mais depois de Eu Nunca... Não só porque simboliza um sinal verde para que histórias parecidas, protagonizadas por descendentes de pessoas não brancas, de culturas não ocidentais, com elenco diverso e que tocam em assuntos importantes sem deixar de ser divertidas, mas também porque é aquele tipo de comédia adolescente que aquece o coração.

Por trás das desventuras que Devi se mete, como forçar um relacionamento com um menino que mal conhece , está a tentativa de superar (ou esquecer) a perda repentina de uma das pessoas mais importantes em sua vida. Seu pai se foi e, sem a mediação dele, a relação dela com sua mãe, Nalini Vishwakumar (Poorna Jagannathan), uma mulher exigente, workaholic e conservadora, fica ainda mais difícil. Os conflitos entre as duas fazem delas personagens tão humanas que é muito fácil se colocar no lugar de, pelo menos, uma delas. E é emocionante vê-las se reconciliando ao final para se despedir de Mohan, um personagem que nos deixa com lágrimas nos olhos quando aparece.

Enfim, chegamos na segunda temporada, lançada cerca de um ano depois da primeira. No entanto, no universo da série, nenhum tempo passou. O enredo já começa no lugar em que a outra parou, ou seja, no beijo entre Devi e Ben Gross (Jaren Lewison), seu rival nos estudos. Devi prossegue com dificuldades em lidar com ausência de seu pai, o que tem grande influencia nas turbulências que enfrenta agora, mas pelo menos não tenta fugir.  Até fala mais abertamente sobre isso com Dr. Jamie Ryan (Niecy Nash), sua terapeuta, e as conversas entre as duas rendem cenas ótimas, que tocam em lugares mais profundos, com leveza, sem perder a graça. Ainda assim, a protagonista continua com seu jeito torto de tratar dos problemas, pois, como diz o narrador, costuma evitar a introspecção e a maturidade necessárias para encarar as questões que lhe aparecem.

Por exemplo, Devi tem agora dois boyzinhos na dela: de um lado Paxton, sua paixão platônica desde sempre, e Ben, que se entrega por inteiro para o relacionamento que iniciam (minha torcida vai para ele, por sinal). Talvez ela já saiba quem realmente quer, mas não consegue dispensar nenhum. E, provavelmente, essa decisão de namorar os dois, sem que eles saibam, é sua resposta para o fato de que Nalini, com a falta do marido, decidiu voltar para a Índia. Como consequência, Devi mudaria no meio do ensino médio para um país que ela nunca conheceu. Para piorar, sua mãe percebe que não se sentirá mais em casa no seu país de origem e desfaz a ideia de voltar, isso depois que os dois crushs da filha descobrem, da pior maneira, que estavam sendo traídos. Sem saída, resta à personagem de Maitreyi encarar a raiva dos dois.  

Objetivamente, acho a primeira temporada mais redonda. Essa segunda trata de tantos assuntos que fica até difícil citar todos aqui. A misoginia que a prima Kamala Nandiwadal (Richa Moorjani) enfrenta no laboratório do doutorado, a relação de Nalini com o Dr. Chris Jackson (Common), a novata Aneesa (Megan Suri), também descendente de indianos e que tem distúrbios alimentares… Não é que são mal desenvolvido ou se apresentam de modo superficial, pois têm, sim, a gravidade devida que uma obra desse gênero e com esse público alvo é capaz de ter. Mas havia tanta coisa para mostrar que personagens importantes ficam bem apagados em vários episódios, prejudicando um pouco seu desfecho. 

Eu nunca... é uma série muito divertida e leve, e não importa se tem alguns furos no roteiro, ela cumpre sua função. Nessa temporada, porém, ficaram mais perceptíveis do que na anterior, como no caso em que Ben coloca seu nome na lista de espera para entrar em uma espécie de “barraca do beijo” e Devi faz de tudo para impedi-lo. Depois, ele diz que só entrou lá para poder fugir dela, sendo que ele já tinha um horário marcado… Além disso, também senti falta de uma presença maior da nova amiga Aneesa do meio para o fim, pela importância que ela ganha quando aparece. Inclusive, havia um potencial para desenrolar a identificação entre as vivências das duas que não foi tão explorado.

Falo tudo isso na tentativa de tentar fazer uma crítica menos passional, mas, para ser sincera, a série repercute na gente como se fosse nota 10 mesmo. Não é à toa que está há alguns dias em primeiro lugar entre os mais assistidos da Netflix brasileira e de outros países. Como já disse, as partes em que Mohan demonstra que ainda faz parte de Devi são muito bonitas, como também o amadurecimento da amizade que mantém com Eleanor (Ramona Young) e Fabiola (Lee Rodriguez), pois agora se esforça para ser uma amiga melhor. Porém, elas ainda usam seu nome como um verbo - "devizar", na tradução - quando a protagonista explode e dá mais uma de suas pisadas de bola monumentais. E com razão, realmente é muito difícil torcer pela protagonista em certos momentos. Só que, de alguma forma, Devi nos convence a acreditar nela e prosseguimos tentando.

Algo que achei super interessante nessa segunda temporada foi o arco de Paxton. Na primeira, quem teve mais destaque foi Ben, que até protagonizou um dos capítulo, narrado pelo incrível Andy Samberg. Nessa, foi a vez de Yoshida, que teve um episódio narrado por Gigi Hadid após perder a possibilidade de ir para a faculdade com uma bolsa de atleta. Se quiser saber o porquê, é melhor assistir, mas o importante é que, por causa disso,  precisa melhorar suas notas para poder cursar o ensino superior. Mesmo não sendo team Paxton, tenho que admitir que é cativante ver sua dedicação para se superar nos estudos, assim como a influência que Devi teve para despertar esse seu lado.

Nesses novos episódios, Eu nunca... termina de uma forma semelhante a da primeira temporada e, ao mesmo tempo, acaba da forma inversa. Bem, só assistindo para entender. Continua sendo uma série que gosto muuuuito e só me deixa triste ter que esperar mais um ano para os próximos episódios. Ainda não são certeza, mas pelo final que deixa várias questões sem resolução e pelo sucesso que vem fazendo, a Netflix só não renovaria esse contrato se estivesse doida.

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