Drácula, da Netflix, é uma divertida decepção | Crítica

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Conhecidos por Sherlock, Steven Moffat e Mark Gatiss adaptam Drácula para Netflix mantendo tudo que há de bom e ruim na série estrelada por Benedict Cumberbatch

O Drácula de Bram Stoker já deve ter se revirado no túmulo inúmeras vezes depois de tantas inspirações e adaptações provenientes de sua história. O vampiro mais famoso de todos os tempos é figura central da obra mais relevante do autor, sendo replicado (assim como os demais personagens) em filmes, séries, quadrinhos e outros livros.

A bola da vez é o mais novo programa da Netflix, que apresenta uma narrativa quebrada, ou seja, não possui uma linha do tempo linear. Somos apresentados a um advogado com aspecto asqueroso e comportamento estranho, trancado no quarto de um convento. De repente, surge em cena a personagem mais interessante que é vivida por Dolly Wells. Até ali, sabemos que ela é uma freira chamada Agatha que perdeu sua fé, mas mantém uma singular virtuosidade e aplicação em descobrir cada detalhe sobre conde Drácula.

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O que mais causa espanto nessa adaptação não são suas cenas horripilantes ou jump scares despretensiosos, mas a habilidade que os produtores Steven Moffat e Mark Gatiss tiveram em começar algo tão bem roteirizado para terminar a curta temporada de forma ridícula de tão ruim. No entanto, ao consultar alguns espectadores da série Sherlock (aquela que ajudou a consagrar o grande ator Benedict Cumberbatch – e principal criação da dupla) não há surpresa alguma nos defeitos dessa versão.

Diferente da adaptação da obra de Arthur Conan Doyle, aqui não encontramos nenhum ator renomado para alavancar audiência, mas temos figuras interessantes. Além da já citada Dolly Wells, o ator que dá vida ao personagem principal, Claes Bang, é dotado de presença e até um certo carisma. Seus trabalhos anteriores não são de grande destaque, no entanto.

Antes de falar mal, quero destacar também que gostei bastante da produção, apesar dela ter sofrido com a falta de uniformidade. A maquiagem consegue oscilar entre esquisita e muito boa, o que costuma ser algo normal em produções gore.

No começo tava bom

A quebra temporal supracitada é uma estratégia que se mostra benéfica no início, trabalhando com habilidade o jogo de investigação entre roteiro e espectador, ávido por brincar de Sherlock Holmes e descobrir cada detalhe antes da hora. Esse é o grande trunfo do primeiro episódio, que consegue uma dinâmica narrativa ímpar.

Joga contra esse Drácula é a própria estrutura da série. Mesmo estando na Netflix, ela segue o padrão britânico de TV, ou seja, são apenas três episódios, mas com uma hora e meia cada. É uma forma diferente de consumir entretenimento, que certamente tem seu lado bom mas aqui prejudica. O ideal seria um seriado com mais temporadas, algo que mantivesse os personagens no período apresentado no primeiro capítulo por mais tempo, dando assim espaço para o devido desenvolvimento dos personagens. Isso poderia ter evitado a sequência de equívocos que o roteiro apresentou do meio pro fim.

Alguns spoilers

Porém, não quero advogar gratuitamente contra as decisões de ordem contemporânea. O que vemos na reta final é o vampiro acordar nos tempos atuais, após longo período na antiguidade. Essa ideia, a princípio, parece interessante e com toda certeza poderia ter rendido bons momentos ao programa. Mas o que acontece é justamente o contrário.

Por mais que tenhamos momentos de humor no show, a justificativa para a liberdade do conde com base em princípios legais soa como comédia pastelão, chegando a causar vergonha alheia. Num cenário de conturbada geopolítica em que vivemos, onde direitos são violados de acordo com a intenção e poderio de quem manda, não dá pra engolir tal solução. Quem teve essa ideia deveria se envergonhar.

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O núcleo contemporâneo possui a grande característica de não possuir carisma algum. Subtramas são inventadas de nada para chegar a lugar nenhum, ficando apenas na tentativa de dar um aceno a questões mais clássicas do vampiro como seu narcisismo, o que acontece na história de Lucy (Lydia West).

Outra questão bizarra é a atriz Dolly Wells dar vida a uma descendente da sua personagem anterior, a irmã Agatha. Esse movimento de trazer o mesmo ator pra viver um descendente décadas depois é digno da mais preguiçosa novela das oito, e aqui é usado como se estivesse tudo bem. Somos obrigados a acreditar que duas pessoas possam ser exatamente iguais só porque estão na mesma árvore genealógica.

O máximo que podemos aproveitar desse episódio final é alguns elementos jogados aqui e ali, a fim de brincar com a mitologia estabelecida de Drácula. Mas são coisas miúdas, como o motivo dele não sair ao sol ou ter medo da cruz. Mas não garanto que você vá gostar dessas adaptações. Ao final, o saldo é divertido, mas também negativo.

Se você me permite um conselho, assista apenas ao primeiro episódio de Drácula. O que se segue após isso é um impressionante declínio de qualidade, que só vai atrapalhar sua experiência de um modo geral.

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