Dorohedoro – 1ª Temporada (Netflix) | Crítica

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A Netflix tem tentado (e conseguido) trazer cada vez mais conteúdo para sua plataforma. E os animes entraram de vez em sua pauta. Sempre adicionando alguma novidade de conteúdo da animação japonesa – como os clássicos Naruto e Evangelion – ou trazendo produções originais – como Castlevania e Devilman Crybaby –, a streaming, recentemente, colocou à disposição Dorohedoro, um anime adulto com uma história singular e bem contada, com alguma pancadaria, mutilações, magias e uma boa dose de comédia.

Dorohedoro
Reprodução: Netflix

A TRAMA

Dorohedoro nos apresenta um mundo divido em dois: O Buraco e o Mundo dos Feiticeiros. O Buraco se assemelha às cidades industriais – fábricas poluindo a rodo todo o ambiente, ruas sujas, nenhum planejamento urbano, violência para dar e vender. Mas as semelhanças param por aí. Nesse lugar, todos vivem à mercê dos Feiticeiros, pessoas com habilidades variadas onde a fumaça é a fonte de seus poderes. Sim, fumaça. Por exemplo, você solta uma fumaça pelo dedo (ou outra parte do corpo) e ela pode gerar um fogo, transformar matéria orgânica em cogumelos, dilacerar tudo o que estiver pela frente ou outra maluquice que você tenha na cabeça. Cada pessoa possui um tipo de magia, então, é como se fosse uma assinatura. A imaginação é o limite. E isso, o autor do mangá em que o anime se baseia, Q Hayashida, trabalha bem.

No mundo dos Feiticeiros já temos uma inversão do que vemos no Buraco. É tudo mais fantástico, colorido, mas nem por isso menos caótico. Aqui, há clãs ou gangues de magos, definidos por linhagem e nível de poder (fumaça e habilidades). E nesse contexto todo é que conhecemos nossos dois personagens-chave na história: Caiman e Nikaido.

Caiman é um homem com uma cabeça de réptil e um caso grave de amnésia, e Nikaido é uma jovem que busca ajudá-lo a descobrir quem lançou uma magia para que ele ficasse dessa forma. O “por que fizeram isso comigo?” é o que gira todo o jogo de aventura que vai se seguindo. Não vou mentir, no primeiro episódio fiquei um pouco perdido. Nada faz muito sentido, tudo vai seguindo enquanto personagens vão sendo apresentados. Mas calma. Tudo logo se clareia e vai sendo trabalhado com boas sacadas na narrativa.

Caiman é um personagem carismático, comilão, tagarela e imune a magia. Já Nikaido é uma mulher forte, fofa, cozinheira – dona de uma lanchonete no Buraco, além de uma eximia artista marcial com um passado misterioso. Os dois juntos funcionam bem, e o surgimento de outros personagens, como En, Shin e Noi, Fujita e Ebisu balanceia ainda mais a trama, tornando tudo mais cômico, sanguinolento e absurdo.

En é chefe de uma corporação que vende/negocia cogumelos – o que tem relação com seus poderes, além de possuir diversos negócios por sua cidade; Shin e Noi trabalham para En, são parceiros muito bem treinados e possuem um toque de psicopatia que ajuda nos trabalhos que surgem durante o anime. Já Ebisu tem o seu parceiro morto por Caiman e Nikaido, mas acaba resgatando Fujita de um confronto com Caiman, onde ela estava quase morta. Com esses personagens, nós temos uma noção a mais do que se passa entre os dois mundos, e qual a relação de amor e ódio entre os humanos do Buraco com o Feiticeiros salafrários.

Senti falta de um desenvolvimento melhor sobre toda a ambientação. Como, por exemplo, o fato dos Feiticeiros usarem máscaras, e cada uma ser única. Como isso influencia em algo? Qual a relevância? E toda a questão dos parceiros com a Noite Azul… Não é nada que atrapalhe a narrativa ou a história como um todo, mas penso que pode ser algo trabalhado no mangá – que não li. Mas no todo, não é algo que vá dificultar o consumo do anime.

Dorohedoro
Reprodução: Netflix

ANIMAÇÃO

Produzida pelo estúdio MAPPA – que traz bons animes como Yuri on Ice (2016) ou mesmo Dororo (2019), junto da TOHO Animation, Dorohedoro conta com a direção de Yuichiro Hayashi (Kakegurui XX; Garo the Animation), roteiro de Hiroshi Seko (Banana Fish; MOB Psycho 100) e design de personagens por Tomohiro Kishi (My Little Monster; 91 Days). Já é um grande time por trás, e com as composições da banda (K)NoW_NAME, acredito que temos a bela cereja em cima de toda a animação.

Ao longo dos episódios, temos a abertura “Welcome to Chaos”, que já apresenta a loucura/insanidade que você vai encontrar em Dorohedoro. E com os encerramentos (sim, toca mais de uma música da banda (K)NoW_NAME) fizeram algo bacana, modificando (quase sempre) as animações ao fundo, junto da música, fazendo uma ligação com o que vimos no episódio. Achei um cuidado memorável.

Além disso, as cores, as dublagens dos personagens e até a mistura de animação 2D com 3D (que é uma das coisas que muitos irão ou podem criticar) funciona e se encaixa aqui. Este tipo de animação híbrida está muito melhor do que vista em outros animes que se utilizam dessa técnica – como Berserk. Goste ou não, essa mistura de técnicas vai ser mais recorrente em animes vindouros.

Acredito que as proporções dos ambientes e corpos seja intencional do autor com tudo o que se tem naquele mundo. É bizarro, mas tudo (ou quase tudo) se coloca como algo que podemos nos relacionar/identificar de alguma forma. Tirando as fumaças mágicas, e as bizarrices causadas por ela, é claro.

Depois de falar – mesmo que pouco diante tudo o que você pode esperar -, acredito que, sem dúvidas, Dorohedoro é um dos melhores animes que a Netflix trouxe para o ocidente. Tem uma história (mesmo que simples) interessante, boa narrativa e ótimos personagens em uma animação chamativa. O que eu acho? Dê uma chance.