Charles Luis Castro

13 nov, 2020

Séries

Quanto mal deve ser feito antes de se fazer o bem?

Chega a ser uma coincidência macabra que o remake norte-americano de Utopia, série originalmente britânica concebida por Dennis Kelly, tenha se arrastado por tanto tempo que acabou sendo lançado justamente durante uma pandemia sem precedentes. Digo isso porque o cerne da obra é justamente teorias da conspiração que envolvem vírus que afetam a sociedade nos mais diversos níveis. Essa nova versão comandada por Gillian Flynn (Garota Exemplar) e lançada pela Amazon acaba sofrendo do mesmo mal de outras releituras feitas pelos EUA, em especial uma facilitação da trama e de discussões mais profundas, o que acaba tirando muito do impacto da ideia principal.

Na história, Utopia é a continuação quase lendária de uma famosa graphic novel que atraiu dois tipos de fãs: o primeiro grupo que vê todos os simbolismos e estranhezas como mais uma criação de uma mente genial e perturbada. E o segundo grupo que acredita que as informações contidas nas páginas dão pistas sobre grandes eventos epidêmicos como SARS e Ebola e pior: contém segredos sobre o próximo vírus que irá assolar a humanidade. Não custa muito para que essa segunda linha de pensamento se mostre verdadeira, desencadeando uma sequência de situações catastróficas.

Obras que envolvem conspirações são, em sua maioria, divertidas de se acompanhar. Justamente pela facilidade de extrapolar a realidade e brincar com o imaginário do espectador. Dessa forma, a abordagem pode flertar com o ridículo ou com algo muito mais denso. Utopia busca justamente essa última opção, mas acaba falhando na execução. Os roteiros escritor por Flynn e Ryan Parrott conseguem manter uma certa coesão narrativa até pelo menos metade da temporada, mas se perdem ao resumir tudo em violência estilizada e diálogos expositivos que impedem que o espectador mergulhe no universo fantástico da história. Todo o jogo de gato e rato desenvolvido durante os episódios culmina numa revelação sem peso algum, justamente porque a trajetória até esse momento é irregular.

Mesmo sem nenhuma intenção, é curioso que o principal trunfo da série esteja justamente na possibilidade de comparação com nossa atual situação. E isso é o que mais assusta, porque o comportamento da população, da mídia, dos grandes empresários e etc é similar a tudo que acompanhamos desde o início do ano. Obviamente que eventos passados foram utilizados como estudo, mas sabemos que a história tende a se repetir. É uma pena que a série não tenha conseguido equilibrar melhor realidade e ficção.

Outro problema em Utopia está no seu elenco. Não necessariamente na escolha dos atores, mas na hora de guiar suas atuações. O aspecto de união entre o grupo principal custa a funcionar na tela, algo que é crucial para manter o interesse das pessoas na história. O bizarro é que eles pareciam mais ligados quando se comunicavam apenas por mensagens, fazendo do esperado encontro uma experiência insossa. O texto também não ajuda, exigindo que cada um tenha que se esforçar para superar clichês narrativos como o incrédulo, a idealista, o louco das conspirações e por aí vai. O que culmina num desbalanceamento de foco entre os personagens. John Cusack, conhecido por seus papéis mais afetados, está terrivelmente contido em cena. O mesmo vale para a protagonista vivida por Sasha Lane, totalmente ausente de carisma. E quando a personagem principal não encanta, o resto fica bastante complicado.

Ainda que de maneira atrapalhada, Utopia consegue passar sua mensagem principal para o público. Diante de um conflito ético e moral, a série levanta questões sobre a forma como gastamos os recursos naturais, diferença de classes e etc. Discussões mais do que necessárias, mas presentes em um material que desconhece sua própria capacidade. Caso seja renovada para uma segunda temporada, fica a expectativa de que os criadores possam consertar todos os deslizes. Até lá, a realidade segue mais imprevisível que a ficção.

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