Mindhunter – 2ª temporada (Netflix) | Crítica

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Mindhunter continua a mesma: um indigesto – e igualmente hipnotizante – produto para apreciadores menos convencionais

Em tempos atuais, vivemos a era do imediatismo. De pacotes de jujuba a séries de TV, tudo é devorado em um ritmo assustador. 100 metros, 200 metros. Precisamos alcançar logo a linha de chegada sob o risco de perder a competição de views para o site ou ficar de fora do assunto do momento. Nessa cadência, o que consumimos rapidamente vira descartável. O negócio é curtir a viagem, dividir com os amigos e pular para a próxima.

Mas diz aí, e quando um produto te desafia a não ter pressa? Essa foi uma das propostas de Mindhunter em sua primeira temporada, que trocou a adrenalina da violência gráfica por uma construção psicológica que privilegia apreciadores menos convencionais. E é com a mesma subjetividade que a série retorna para mais um ano acima da média.

Dando sequência de onde parou a temporada anterior, vemos o departamento de análise comportamental e psicologia criminalística do FBI continuar trilhando seus primeiros passos na tentativa de traçar o perfil das mentes assassinas mais perigosas dos EUA. Com o FBI agora sob comando de Ted Gunn (Michael Cerveris), que chega com ideias mais arrojadas, os agentes Bill Tench (Holt McCallany) e Holden Ford (Jonathan Groff) passam a ter mais liberdade para aprofundar suas análises e, com isso, reunir uma base de dados que se prove verdadeiramente eficiente na caça aos assassinos em série.

A produção acerta em manter seu ritmo, onde nada é apressado. Seguimos acompanhando longos diálogos que vão pouco a pouco nos envolvendo no clima pesado dos agentes. Tudo culminando em tensas – e ao mesmo tempo hipnotizantes – entrevistas com prisioneiros de mentes assustadoramente perturbadas. Neste ano, um dos detentos entrevistados é Charles Manson (interpretado por Damon Herriman, que também encarnou o psicopata em Era uma Vez em… Hollywood), líder de um grupo de jovens que aterrorizou os Estados Unidos no final dos anos 60 ao planejar uma grotesca carnificina que envolveu, entre diversas mortes, a da atriz Sharon Tate, grávida de 8 meses.

Como se não bastasse o mundo carregado em que os protagonistas estão imersos, os roteiristas ainda tratam de torcer a faca. Já no início da nova temporada, testemunhamos Holden vivendo uma crise de pânico, que surgiu a partir das inquietantes entrevistas com os detentos. A característica recém-adquirida – que pode retornar diante de novos picos de estresse – atribui ao personagem uma interessante imprevisibilidade que, infelizmente, é deixada de lado pelo roteiro ao longo da trama.

Ganhando mais destaque nos episódios, outro que também traz uma eficiente mola narrativa – essa melhor explorada – é Bill. Enquanto cada vez mais confirma a teoria de que figuras com traços de psicopatia tiveram no passado uma infância difícil, vê seu introspectivo filho apresentar características preocupantes de alguém que pode se tornar um potencial assassino no futuro.

A psicóloga e criminalista Wendy Carr (Anna Torv) também retorna com um novo arco dramático. Seus conflitos giram em torno de se manter respeitada em um mundo tomado por homens, enquanto vive a angustia de se sentir na necessidade de esconder sua preferência sexual por mulheres. Um tema oportuno, mas que aqui encontra pouco espaço para ser desenvolvido. Os encontros amorosos da personagem ganham relevância apenas por permitir que o espectador conheça um pouco mais de seu íntimo, onde ela se sente mais segura para baixa as defesas e expor vulnerabilidades.

Como principal fio condutor do novo ano, a série explora o assassinato de diversas crianças negras na cidade de Atlanta. Na época, essas mortes tiveram enorme repercussão na mídia estadunidense e o FBI vê o caso como uma forma de pôr em prática e provar a eficiência de suas então experimentais habilidades investigativas. Os crimes revoltaram a população local que exigia justiça atribuindo a eles uma motivação racial. Enquanto a opinião pública acreditava que a matança era cometida por um grupo de pessoas brancas – a Klu Klux Klan aparecia como principal suspeita das famílias negras de Atlanta –, os agentes do FBI reuniam informações que os faziam crer que tudo seria obra de um único e metódico indivíduo.

Novamente capitaneada por David Fincher (Seven, Clube da Luta, Zodíaco), que, dirigindo os três episódios iniciais, estabelece na série sua atmosfera – que vai desde sua palidecida fotografia à uma trilha sonora cirurgicamente imersiva –, a segunda temporada de Mindhunter retorna ainda interessada no mesmo público que devorou o primeiro ano. Optando por dialogar com espectadores mais sofisticados – noticiários policiais, por exemplo, fazem isso com outro tipo de audiência –, Fincher mais uma vez evidencia sua tese de que, mesmo que não cometamos os bárbaros assassinatos das mentes doentias expostas na produção, nosso mórbido fascínio pelo tema é mais do que real.