Charles Luis Castro

14 dez, 2020

Séries

História absurda e violência marcam o novo battle royale da Netflix

Parece existir algum tipo de prazer sádico em colocar pessoas para lutarem por suas vidas durante disputas sangrentas. Stephen King já havia abordado essa premissa em 1982 no livro O Concorrente. Mas foi com o sucesso de Battle Royale, ficção escrita pelo autor japonês Koushun Takami, em 1996, que produções desse tipo ganharam o mundo. Um dos exemplos recentes e mais famosos é a franquia Jogos Vorazes. Claro que o excesso de obras cria uma sensação de mais do mesmo, contudo, algumas delas conseguem trabalhar melhor com os clichês estabelecidos. Alice in Borderland, nova série da Netflix, é mais interessante do que aparenta. Embora caia em diversas armadilhas narrativas.

Baseada no mangá escrito por Haro Aso, a trama acompanha três amigos de infância: Arisu (Koushun Takami), Karube (Keita Machida) e Chota (Yûki ​​Morinaga) que durante um dia de diversão em Tóquio acabam transportados para uma realidade onde os poucos habitantes que restaram são obrigados a sobreviverem durante jogos violentos dos mais variados tipos. Com apenas 8 episódios em sua primeira temporada, Alice in Borderland não tem medo de jogar tanto os personagens quanto os espectadores no meio do caos. Os primeiros minutos são usados para estabelecer um background dos protagonistas, em especial de Arisu. O restante da explicação é entregue durante os eventos e nos poucos momentos em que os jogadores podem relaxar. Essa mistura de confusão e mistério estabelece uma conexão imediata entre o público e as pessoas na tela. Os medos e questionamentos são os mesmos, assim como a recompensa da descoberta.

A inventividade dos desafios também chama atenção. Como a intenção é destroçar os participantes física e mentalmente, as situações nunca são tão obvias quanto aparentam. Mais do que o preparo corporal, é preciso estar atento aos detalhes. A ação desenfreada da primeira metade da temporada não é cansativa, justamente pela pluralidade de elementos. Em meio à sanguinolência, a história consegue intercalar bem situações de apelo emocional. Alice in Borderland consegue frear de certa forma o ímpeto característico de produções desse tipo: o protagonista genial. Apesar de sua inteligência, usada em momentos oportunos é preciso dizer, Arisu nunca está confortável diante dessa nova realidade. Medo, raiva, tristeza, sensação de impotência. Tudo isso permeia o personagem de maneiras até extremas. A violência gráfica é um aspecto que define o tom da obra.

Contundo, na necessidade de entregar respostas, Alice in Borderland acaba perdendo força na segunda leva de episódios. Os jogos ficam de lado e a série adota uma postura mais investigativa. Isso ocorre com o entrada da Praia na trama, um local utópico onde as pessoas tem liberdade para aproveitar a vida. Porém, com uma condição: ajudar o Chapeleiro (Nobuaki Kaneko) a concretizar seu plano mirabolante. Embora seja um elemento necessário para a resolução do mistério, a alternância abrupta de tom retira muito do charme da produção. Não se engane, a violência continua presente. Mas agora faz parte da discussão de até onde o ser humano é capaz de ir para sobreviver. Algo melhor trabalhado durante as disputas mortais.

Outro aspecto negativo consiste numa clara iniciativa de inflar a trama nos episódios finais, prologando situações que não contribuem para o andamento da narrativa. Um ótimo exemplo disso é a inserção de flashbacks para determinados personagens, apenas para justificar suas ações naquele contexto. A história também tenta soar mais inteligente do que realmente é, gerando um sentimento bastante morno durante a revelação de parte do grande mistério. Um gancho que tem como intuito manter a expectativa pela segunda temporada.

Nas atuações, o elenco é bastante funcional. Os atores conseguem transmitir bem a mistura de medo e confusão que permeia essa situação inusitada. Já nos quesitos técnicos, existem falhas que tiram o espectador da imersão em alguns momentos. A ideia de cenas de ação noturnas ajuda a mascarar o CGI falho, mas não funciona durante todo o tempo. Ainda assim, é preciso elogiar as cenas de violência, algo que produções asiáticas costuma fazer com esmero.

Em termos gerais, Alice in Borderland é uma ótima diversão escapista. Sabe entreter nos momentos certos, especialmente quando não se deixa levar pela empolgação de sua história absurda. Caso consiga consertar erros pontuais, a possível segunda temporada tem tudo para se destacar ainda mais no vasto catálogo da Netflix.

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