Charles Luis Castro

6 ago, 2022

Séries

Excesso de elementos narrativos atrapalha a trama, mas elenco de peso ainda se destaca

A realidade é tão cruel que muitas obras de ficção precisam lutar bastante para simular algo próximo do que acompanhamos diariamente na TV e na internet. Era comum lermos algo absurdo e exclamar: isso parece coisa de filme! No entanto, as paredes que separam fantasia e cotidiano parecem cada vez menores. Em sua primeira temporada, Bom Dia, Verônica brilhou por entregar um retrato cru e impactante de uma prática que permeia milhares de lares brasileiros. Porém, ao ampliar o escopo de suas crítica sociais, o segundo ano da produção original da Netflix perde foco e coesão narrativa.

Após ser declarada morta ao final do primeiro ano, Verônica Torres (Tainá Müller) continua sua batalha particular para desmascarar a máfia que destruiu sua vida. Seu principal alvo agora é o líder religioso Matias Carneiro (Reynaldo Gianecchini), que controla uma rede complexa de corrupção e tráfico de humanos. É comum que séries ampliem certos elementos na medida em que as temporadas avançam, justamente para prender o público que conhece o material e atrair novos olhares. Raphael Montes e Ilana Casoy, autores do livro que originou a série, compreendem essa necessidade de entregar um produto ainda mais empolgante e impactante. Mas o texto falha ao se distanciar do que melhor funcionou na temporada de estreia.

Bom dia, Verônica opta por apontar seu holofote para diversas camadas sujas da sociedade. O vilão, interpretado por Gianecchini, é uma clara representação do criminoso e ex-líder religioso João de Deus. Dessa forma, o roteiro entrega ao espectador uma importante discussão sobre abuso sexual, o quão difícil é para as vítimas serem ouvidas pelas autoridades e o peso disso em suas vidas. Se essa fosse a principal linha narrativa da temporada, resultaria num material muito melhor. Mas o tema divide espaço com outras urgências, como tráfico de humanos, corrupção policial e ainda os dramas particulares da protagonista. Dessa forma, nem todas as resoluções transmitem o impacto desejado.

Felizmente, a redução da quantidade de episódios evita que a temporada ande em círculos e mantém o espectador preso ao suspense e às situações perigosas vividas por Verônica. A suspensão de descrença se faz necessária para relevar diversas situações apresentadas em tela, mas isso também ocorreu na primeira temporada. O texto abre mão de uma complexidade narrativa para entregar ação e drama. Algo que certamente pode dividir a opinião do público.

Mas é nas atuações que a temporada encontra sua principal qualidade. Reynaldo Gianecchini constrói seu personagem com uma fala mansa e movimentos calculados. Sua principal fonte de ameaça não é o aspecto físico, mas a maneira como consegue desestabilizar e dobrar os demais personagens em cena. A simpatia diante dos fiéis dá lugar ao tom ameaçador quando está com a família. Chega a ser enervante imaginar o que ele pode fazer em momentos cruciais. No papel de Ângela, filha de Matias, Klara Castanho é a única que consegue acompanhar o ator veterano em tela. Os abusos sexuais e psicológicos que sua personagem sofre e presencia tornam tudo ainda pior. Após ter sua vida privada revelada de maneira hedionda, é impossível não pensar na força que a atriz precisou reunir para esse papel.

Em linhas gerais, a segunda temporada de Bom Dia, Verônica possui mais erros do que acertos. Mas ainda funciona muito bem como um meio de abordar discussões necessárias no âmbito social. Resta a esperança de que a terceira temporada, provavelmente a última, consiga equilibrar a qualidade audiovisual com a missão de dar voz aos que raramente são ouvidos.

E se você ou alguém que você conheça está sofrendo algum tipo de abuso e violência, acesse: https://www.wannatalkaboutit.com/br/ e saiba como buscar ajuda.

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