Edipo Pereira

21 jul, 2020

Séries

A mais nova série brasileira original da Netflix, Boca a Boca (criada por Esmir Filho), chegou ao serviço com alguns pontos interessantes e que talvez a faça virar um produto cult daqui algum tempo. Isso porque ela possui uma estrutura muito parecida com sua prima estadunidense Stranger Things em alguns aspectos, ao mesmo tempo que traz elementos pouco habituais em produções daqui.

Na trama, a comunidade de Progresso, pequena cidade do sul do país, passa a ficar apavorada quando uma desconhecida infecção causada pelo beijo se alastra entre a população jovem após uma rave. Aos poucos, esse pavor vai pautando o comportamento de todos que vivem por lá, expondo o que há de mais cruel nas pessoas.

Logo de cara, o que mais chama atenção é a direção de arte que dá uma roupagem retrô ao ambiente, não se resumindo apenas às raves que os jovens participam para se pegarem. A própria infecção possui detalhes que conversam com isso, deixando os jovens com cicatrizes em neon e olhos esbranquiçados. Esse visual contrasta muito bem com a cidade pequena e seu clima rural, servindo também como uma espécie de válvula de escape ao que remete como uma poluição estética vinda das capitais.

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População de Progresso na série. Divulgação: Netflix

Boca a Boca é uma série (quase) real

Pesa a favor de Boca a Boca o fato dela ter diversos elementos da nossa nova realidade pandêmica. Enquanto o mundo real tenta lidar com um novo vírus que ceifa centenas de milhares de vidas, a Netflix estava preparando uma atração que, mesmo em escala menor, trata desse tema. Claro que há diferenças, mas é irônico ver coisas como personagens alertando para o risco de contaminação, médicos incapazes de salvar vidas, uso de máscara, álcool gel etc.

Outro fator de acordo com nosso contexto é o econômico. O pai de um dos protagonistas, vivido por Bruno Garcia, é um poderoso pecuarista que usa de toda sua influência para impor sua vontade ao expandir os negócios da família, ao passo que se mostra uma pessoa inescrupulosa - e um péssimo pai. Nesse sentido, a série consegue trazer um pouco de conflito de classes, mostrando as camadas sociais presentes na sociedade tanto na ficção quanto na realidade.

No entanto, isso que poderia aproximar o programa de alguns clássicos nacionais como Bacurau, fica apenas como pano de fundo para uma trama que tende a soar mais como um misto de Malhação com Stranger Things. Isso se dá através do visual (que já falamos), da trilha sonora (muitas músicas tocadas remetem à abertura de Stranger Things), da amizade entre o jovem elenco e o clima de mistério, terror e suspense (com direito a criatura "sobrenatural").

Não que seja algo ruim. Abordar as relações interpessoais e esse período de final da adolescência (com o desejo sexual recém aflorado) é a proposta de Boca a Boca, então é muito bem pensado o modo como os protagonistas estão encaixados na trama. O que não ajuda muito são os diálogos escritos para esses jovens e suas consequentes atuações. Quase tudo que sai da boca deles soa como genérico, ensaiado (no mal sentido) e/ou forçado. Não sei de quem é a culpa, mas ficou ruim.

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O trio protagonista de Boca a Boca. Divulgação: Netflix

Mas essa série da Netflix tem figuras interessantes e que merecem elogios. Denise Fraga, mesmo tendo pouco destaque, é um rosto simpático na produção assim como Thomas Aquino (Bacurau), que dá vida ao peão Maurílio, que aparece com competência em suas cenas. O supracitado Bruno Garcia é outro consegue nos passar a raiva necessária para odiá-lo, capacidade obrigatória para um vilão.

Foge do habitual a narrativa da série, que no começo usa uma estrutura não linear para apresentar sua trama e personagens. Méritos para os criadores que também fizeram bom uso do aparato tecnológico atual, coisa que muitas produções não trabalham bem. O uso de dispositivos como smartphone é algo inerente ao mundo atual e isso é ainda mais forte com os jovens, on-line o tempo todo, abusando das redes sociais. Essa dinâmica é importada adequadamente para a história.

A Netflix acertou?

Boca a Boca merece sua atenção. São seis episódios que passam rapidinho, o suficiente para você não lamentar ter perdido caso goste da experiência, ao mesmo tempo que, se curtir, vai desejar um desenrolar mais concreto da trama, que deixa algumas lacunas intencionais nesta primeira temporada.

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