Black Mirror – S05E01: Striking Vipers | Final explicado e discussão

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Black Mirror está de volta para sua quinta temporada. Dessa vez, a série volta a suas origens, trazendo somente 3 episódios por temporada. No primeiro, intitulado Striking Vipers, temos uma discussão sobre realidade virtual e comportamento dignos dos melhores episódios da série.

Striking Vipers conta a história de Danny e Theo, um casal que já está em um relacionamento estagnado. Danny então passa a ter relações sexuais dentro de um jogo de realidade virtual com Karl, um antigo amigo. Após isso, começa então a questionar sua fidelidade, sexualidade e confundir o real com virtual.

Como todo bom episódio de Black Mirror, este nos deixa pensando um bom tempo depois de assistir. Existem alguns temas interessantes que podemos trazer para a nossa realidade através desse episódio.

Uma traição online é traição?

Um dos principais questionamentos é a pergunta “Uma traição online é uma traição?”. O episódio traz uma extrapolação disso com uma tecnologia onde as pessoas entram dentro do jogo para experienciar aquilo como se estivesse acontecendo com elas. Mas isso não é muito diferente do que já acontece em muitos relacionamentos onde um dos integrantes assiste pornografia ou flerta com pessoas online. Eu tinha um professor que dizia que não existe essa diferença entre “mundo real” e “mundo virtual”. O mundo virtual é real, a diferença é que ele acontece dentro de uma interface onde as sensações e interações são diferentes.

Talvez a gente fique se perguntando se as relações online são válidas por causa da falta de imersão que ainda temos quando acessamentos um site ou jogamos algo. Mas, dentro da tecnologia do episódio, o sentimento da interação online é quase o mesmo sentimento do real. Então é por isso que atribuímos um fator mais real a ele? Jesse Schell fala em seu livro A Arte do Game Design que se existisse uma forma de enfiar experiências dentro da cabeça das pessoas, o jogo seria inútil. Pois jogos são experiências, mas dentro de um sistema controlado.

Fetiche

Outro questionamento do episódio são os fetiches e liberdades que as pessoas tem dentro de jogos ou sites. Essa discussão sempre volta à tona, mas se você tivesse consequências reais para o que faz em GTA, você o faria? Dentro do GTA posso matar, atropelar, roubar e cometer outras atrocidades sem uma punição na vida real. Mas porque diabos eu me divirto cometendo esses atos odiosos dentro do jogo? Em paralelo a isso, quando você trai alguém, você está se eximindo da culpa e consequências daquele ato. Em situações normais, uma traição é uma mentira. É algo que você faz sem esperando uma punição pois a pessoa responsável por isso não sabe o que está acontecendo.

Além disso, quando essa situação é virtual, as consequências e perigos são ainda menores. Existem diversas pessoas que tem diversos fetiches sexuais que só são consumadas online. Caras tem fantasias com a própria mãe, garotas querem ser estupradas, pegar a própria irmã e outros tabus da sociedade. A maioria dessas pessoas nunca faria isso na vida real, mas em um chat online ou roleplay elas não tem o menor pudor. Pois ali é um local fechado, sem consequências e sem punição.

Diálogo

No final, vemos que o resultado para a crise no casal era o diálogo. Existem coisas que temos medo ou receio para falar para nossos parceiros. Todos queremos viver uma vida de casal como em um conto de fadas, onde ambos vivem felizes para sempre. Mas a realidade é que problemas aparecem, situações precisam ser resolvidas e não podem ser varridas para debaixo do tapete. Danny e Theo queriam ficar juntos, mas ao mesmo tempo queriam ter suas aventuras sexuais, cada um do seu jeito. Existem diversos casais que fazem isso e está ficando cada vez mais comum. Poderíamos até falar aqui da necessidade de uma instituição como o casamento, suas vantagens e desvantagens.

Como falado no começo desse texto, Striking Vipers é um episódio que traz o melhor de Black Mirror. Horas e horas de discussão sobre as questões apresentadas e milhares de paralelos podem ser feitos com a nossa realidade. É disso que é feita uma boa ficção científica.