O que nos torna seres humanos? Quais são as características marcantes que nos diferenciam dos outros seres que habitam o planeta? São perguntas que você deve ter feito em algum momento e certamente tem as respostas na ponta da língua. Mas existem momentos em que as coisas não são tão claras assim, que a resposta nem sempre sai de modo automático. E sempre é interessante contemplar tais oportunidades.

San Junipero, quarto episódio da terceira temporada de Black Mirror, levanta essa questão. Claro que é apenas uma das várias abordagens mostradas, ainda assim o elemento humano está presente até o final. Não da forma trágica que estamos acostumados, mas com uma leveza nunca antes vista nas outras temporadas e até mesmo nessa. Existe a relação com a tecnologia, nociva até certo ponto. Mas longe de ser apocalíptica. É uma fábula da realidade que muitos gostariam de presenciar.

Em 1987, em uma cidade litorânea, uma jovem tímida (Mackenzie Davis) e uma garota extrovertida (Gugu Mbatha-Raw) formam uma conexão que parece transcender tempo e espaço. Tendo sempre em mente essa questão de sociedade x tecnologia, é complicado imaginar como um episódio situado nos anos 80 pode manter o padrão temático da série. Mas é essa quebra de expectativa que torna San Junipero uma história única dentro da temporada.

O desenrolar do episódio é lento, mas claramente proposital. No começo imaginamos em que momento a tecnologia vai entrar em ação, mas o foco é acompanhar o relacionamento das personagens principais. As pistas vão surgindo aos poucos e isso faz com que o espectador monte diversos cenários em sua mente. San Junipero é uma cidade turística, repleta de festas e pessoas animadas. O tipo de local que desperta a necessidade de aproveitar ao máximo os momentos vivenciados ali. Como se o tempo corresse mais rápido que o normal e logo a dura realidade surgisse para buscar cada cidadão.

Os encontros entre as personagens sempre ocorrem aos sábados, o que transforma os outros dias da semana em espaços vazios. Algumas poucas informações da vida delas fora da cidade são reveladas, apenas o básico para desenvolver a trama. Estão, na maior parte do tempo, na boate. Transmitindo mais uma vez a necessidade de diversão que todos buscam ali. Não por acaso que San Junipero é o primeiro episódio de todas as temporadas que tem um lugar como título, evidenciando sua importância na história.

Mas somente quando o primeiro desencontro acontece, é que o episódio coloca todas as cartas na mesa. É quando sua mente é recompensada por ter esperado pacientemente pela revelação. Algumas pistas e diálogos já adiantavam o que estava por vir, ainda assim não deixa de ser uma grata surpresa. Impactante como uma boa reviravolta deve ser, mas ao mesmo tempo incrivelmente sensível. Todas as escolhas feitas até o momento são justificadas.

Partindo desse ponto, as discussões atingem um novo patamar. Voltando para o primeiro parágrafo desse texto, a questão “o que nos torna seres humanos?” começa a ser explorada. Qual o preço a ser pago por uma vida livre de amarras? É egoísmo não abrir mão de nossas características, mesmo que o amor que esteja em jogo? Precisamos aceitar os desígnios da vida ou nos agarrar em qualquer oportunidade de recuperar o tempo que nos foi negado?

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O roteiro escrito por Charlie Brooker e dirigido por Owen Harris (Misfits) carrega toda a essência de Black Mirror, mesmo que isso não fique tão claro assim. Também mostra que a liberdade dada pela Netflix para Brooker explorar ao máximo sua criatividade caiu como uma luva para série. Mesmo que gere opiniões divergentes sobre a nova temporada.

San Junipero ainda aborda temas importantes e atuais em nossa sociedade, mas tudo de forma natural. O final parece feliz, mesmo que algumas discussões possam ser levantadas. De toda a forma, mostra que as coisas não estão tão ruins assim e que existe espaço para coisas boas no futuro. E acima de tudo, renova nossa fé na humanidade.

Obs: Palmas para o todo o trabalho de direção de arte do episódio. O visual retrô, atenção para os mínimos detalhes, figurinos e etc. Em termos de produção, a temporada não deixa a desejar.