Charles Luis Castro

22 out, 2016

Séries

Nós sabemos que não existe uma completa segurança na internet. Especialistas falam isso direto na TV e escrevem longas matérias em sites especializados. Empresas famosas já foram atacadas e até o seu vizinho passou por problemas online. Ainda sim, de alguma forma inexplicável, baixamos a guarda e clicamos onde não devíamos. E as consequências nem sempre são brandas.

Sites maliciosos, downloads de softwares, filmes, músicas e etc. Ações diárias que carregam um grande perigo. Mas falar disso é chover no molhado, outros já tentaram e fracassaram. É nesse ponto que a excelência de Cala a Boca e Dança aflora. Black Mirror sempre soube como pegar algo óbvio e transformar em uma experiência desconfortante, aplicando uma lição indigesta. Esse episódio é um exemplo perfeito do poder da série.

Na trama, Kenny (Alex Lawther) tem seu computador atacado por um vírus. Agora, ele tem uma difícil escolha a fazer: executar as ordens que recebe por mensagem ou ter sua intimidade exposta? Formando uma aliança com Hector (Jerome Flynn, de Game of Thrones), ambos buscam uma forma de escapar desse pesadelo.

Na falsa sensação de proteção da rede, dizemos coisas e executamos ações que causariam reações das mais adversas no "mundo real". Vira e mexe celebridades sofrem com postagens antigas em mídias sociais, resgatadas em momentos oportunos e que causam um desgaste de suas imagens. Sem contar as fotos vazadas, expondo a intimidade de atores e atrizes. São lembretes de que sempre existe alguém de olho, esperando que um mínimo deslize seja cometido.

Cala a Boca e Dança transforma tudo isso em uma história extremamente angustiante, daquelas que fazem você se arrumar no sofá enquanto tenta absorver tudo que está acontecendo. Será que todo esse esforço será recompensado? O que é certo e errado? Como você se sairia se estivesse preso nessa situação?

blackmirrors033

Mas seria muito fácil focar apenas nesse ponto. Cala a Boca e Dança brinca durante seus 50 minutos com a percepção do espectador. No início, parece que as pessoas que estão no controle são as vilãs. É certo chantagear alguém, colocando sua reputação e vida em risco? Mas ao decorrer do episódio, o cenário vai mudando. De repente, você se questiona se tudo aquilo não foi merecido. É como uma nova roupagem de White Bear, icônico episódio da segunda temporada. Fazer justiça com as próprias mãos é válido?

A direção ficou por conta de James Watkins (Mulher de Preto, Sem Saída), que sabe como criar um ambiente de tensão. O roteiro escrito por William Bridges e Charlie Brooker complementa a qualidade do episódio. Claro que você já deve ter visto situações parecidas em filmes e séries, mas é impossível fugir da sensação de ter seu estômago revirado.

Cala a Boca e Dança pode parecer extremamente cruel para alguns e extremamente realista para outros. Mas todos são tocados de alguma forma e esse é o charme de Black Mirror.

Deixe um comentário