Black Mirror s03e01 – Perdedor | REVIEW

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Hoje você acordou feliz, colocou sua melhor roupa, tirou uma foto e publicou no Instagram. Talvez tenha ido em um restaurante bacana, pediu um prato caro e bonito. Manteve a tradição e publicou outra foto. Para encerrar o dia, foi para uma festa badalada e fez check-in na boate. Ou então voltou para casa e decidiu assistir algo na Netflix antes de dormir. Claro, publicou em seu Facebook para todo mundo ver. Atividades distintas, mas que possuem um denominador comum: a busca por likes (e agora as reações, cortesias do tio Mark). Podemos negar para nós mesmos e para os outros, mas no fundo possuímos a necessidade da aprovação.

Corações, curtidas, comentários e tudo que possa indicar que os outros gostaram do que fizemos são sempre bem-vindos. Se a publicação não atinge a meta imaginada, consideramos um fracasso. Mais sorte na próxima ou um filtro melhor. Nunca estamos satisfeitos com nossos pensamentos, sempre buscamos a opinião de alguém. Em um resumo bem vazio, essa é uma das abordagens do primeiro episódio da terceira temporada de Black Mirror. Que chega mostrando que a parceria entre Netflix e Charlie Brooker pode render ótimos frutos.

Na trama, Bryce Dallas Howard vive em um mundo em que cada interação social é obsessivamente rankeada e quem “ganha mais pontos” acaba ascendendo socialmente. Na busca por crescer ainda mais nesse jogo, ela acaba enfrentando situações desconfortáveis. Logo de cara é prazeroso perceber que a raiz de Black Mirror está intacta: a maneira, nem sempre sútil, de criticar a forma como a sociedade interage com a tecnologia.

Apresentando um futuro nunca datado, o que desperta o medo de estar mais próximo do que imaginamos, a série fisga aspectos inerentes ao público para mostrar que as coisas estão seguindo por um caminho bastante torto. Na sociedade retratada, todas as pessoas são excessivamente caricatas, beirando o ápice da falsidade. Aqueles que não estão interessados em todo esse lance de influência, acabam renegados a funções e posições sociais, digamos, pouco atrativas.

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Tudo gira em torno da aprovação. As pessoas trocam estrelas apenas por um bom dia, que claramente foi dado visando o prêmio final. E quando você começa a cair no rank, sua vida entra em uma espiral de tragédias. O personagem que termina o namoro e é excluído pelos colegas de trabalho acaba impedido de entrar no prédio da empresa. Tudo porque ficou abaixo do índice ideal para trabalhar ali. Quer morar em uma casa melhor? Suba no rank social e ganhe um super desconto. Precisa alugar um carro? Digamos que ter duas estrelas não garante o melhor modelo.

E como conseguir tal ascensão? Basta puxar o saco das pessoas populares. Se elas te notarem, tudo vai melhorar na sua vida. Não importa o quão repulsivas elas sejam, fique perto tempo suficiente para alcançar seu objetivo. Assustadoramente atual. Talvez você já tenha feito isso ou conhece alguém que fez.

Não existe espaço para o naturalismo, tudo é coberto por um manto empoeirado de perfeição. E quem quebra esse ciclo vicioso acaba pagando o preço. As pessoas não estão preparadas para presenciar alguém fora do “comportamento normal”. Exaltar-se por perder o avião é praticamente um crime. Você é avaliado pelo que posta em seu perfil e não por sua personalidade. Curiosamente, somente quando conhece o fundo do poço é que a personagem principal consegue viver uma experiência real.

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A direção de arte também possui um papel importante. Criando um cenário colorido e amigável, que casa bem com a premissa abordada no episódio. A sociedade perfeita precisa viver no ambiente perfeito e funcional. É possível enxergar várias influências de outras produções que também seguem por esse caminho. Até mesmo as atuações encaixam nesse padrão, com todo o destaque para Bryce Dallas Howard.

Com nomes de peso na produção, como o diretor Joe Wright (O Solista, Desejo e Reparação, Orgulho e Preconceito) e roteiro de Rashida Jones (Celeste e Jesse para Sempre, Toy Story 4) e Michael Schur (Parks and Recreation, The Office, Saturday Night Live), Perdedor é um ótimo episódio para inaugurar a nova temporada de Black Mirror. Uma sátira inteligente, que vai arrancar um sorriso incômodo do espectador.

E aí, quantas aprovações você já ganhou hoje?

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