Charles Luis Castro

28 nov, 2016

Séries

"Você é o criador do seu próprio mérito"

Quando a Netflix anunciou que 3% seria sua primeira produção voltada para o público brasileiro, foi difícil conter o ufanismo. Afinal, somos desamparados de séries que alcancem o mundo, especialmente nessa pegada "sci-fi". Mas ao final da primeira temporada, um misto de sentimentos toma conta do espectador. Apesar de todo o esforço, 3% esbarra em diverso obstáculos e acaba tornando-se uma vítima de seu próprio tema.

Distopias sociais já não são uma novidade na cultura pop, muito por causa da onda de adaptações que invadiram as telas dos cinemas. Jogos Vorazes, Divergente, Maze Runner e etc. Todos trazendo algum novo ponto para a discussão, mesmo que não inovando em quesitos narrativos. Antes de ganhar vida na Netflix, 3% surgiu como um projeto no Youtube em meados de 2011. Se tivesse sido lançada naquela época, a série teria todo um campo aberto para se desenvolver. Mas a dificuldade em encontrar investidores acabou enterrando a ideia.

Agora, ela disputa espaço com filmes e séries que possuem a mesma abordagem, e o pior, não consegue trazer um fôlego novo para o tema. O que fica claro ao longo dos 8 episódios é que toda a equipe de produção fez o dever de casa. Estudaram, assistiram e adaptaram. Claro, aproveitando o pano de fundo do projeto original. Mas ainda assim foram incapazes de salvar 3% dos clichês narrativos, já que comparações são inevitáveis.

O roteiro falha em momentos cruciais, deixando transparecer um certo medo de cutucar a ferida com suas críticas. Ao invés disso, prefere apenas arranhar a superfície de todo o seu potencial, privando a história de momentos realmente memoráveis. Um pouco mais de criatividade teria resolvido esse problema.

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Michele (Bianca Comparato), uma das protagonistas de 3%

No quesito narrativo, a série vai destrinchando seus protagonistas ao longo dos episódios, misturando flashbacks com situações atuais. Mas apesar de render alguns ótimos momentos, também não é uma estratégia bem executada. Ainda por culpa do roteiro, que não consegue criar situações envolventes, e pela péssima atuação de alguns envolvidos. Problema pelo qual a recente Supermax também passou.

Mel Fronckowiak (apesar de uma curta participação), Vaneza Oliveira, Michel Gomes (que viu seu personagem ser diminuído na reta final) e Rodolfo Valente ainda conseguem se destacar do bonde, mesmo que alternem entre momentos bons e péssimos. As personalidades não são das mais profundas, assim como as motivações. Ao longo dos episódios, parece que o roteiro esquece o principal objetivo e joga seus protagonistas em um turbilhão de mudanças repentinas, sem nenhum sentido plausível. A grande decepção fica com João Miguel, que não convence nos momentos de maldade e nem de compaixão. Um talento completamente desperdiçado.

O subtexto ainda toca em temas importantes, como meritocracia, alienação das massas, política, preconceito, divisão de bens e tudo que o tema permite. Mas falta em 3% uma melhor construção de mundo. Não é difícil analisar o cenário completo, mas esse choque de realidades poderia gerar momentos melhores.

Mas os quesitos técnicos conseguem se destacar em 3%, especialmente a fotografia e no jogo de câmeras. Méritos para o experiente César Charlone, aclamado por seus trabalhos em Cidade de Deus e Ensaio Sobre a Cegueira, que assumiu o papel de showrunner aqui. Apesar de falhar no desenvolvimento da trama, ele consegue mesclar bem sua experiência como fotógrafo e cineasta em alguns momentos.

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Ezequiel (João Miguel) liderando o Processo em 3%

Ainda com todos esse problemas, com um pouco de esforço, fica fácil acompanhar a reta final da temporada, especialmente depois do quinto episódio. E mesmo sem saber se isso é bom ou ruim, existe um gancho interessante para a segunda temporada. Algo que poderia ter sido melhor desenvolvido nesse primeiro ano, mas que por enquanto não passa de uma promessa.

Apontar e criticar os erros de 3% não é algo feito por puro prazer, afinal somos conhecidos por não valorizar nossos produtos, especialmente os televisivos e cinematográficos. Mas uma necessidade, tendo em vista que essas aventuras em temas pouco explorados são essenciais para desenvolver um mercado forte por aqui. Ainda assim, existe um gritante diferença entre ter uma ideia e executá-la.

Nesse quesito, 3% decepciona. Mas fica a esperança que essas falhas sirvam de lição para projetos futuros. Afinal de contas, caso a Netflix continue interessada nesse investimento, boa parte do mundo estará de olho em nós.

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