a-todo-vapor-brasiliana-steampunk-capa-entrevista Pedro Passari e Cláudio Bruno
Séries

Ultrapassando Fronteiras e Quebrando Preconceitos: Entrevista com Pedro Passari e Claudio Bruno, de A Todo Vapor!

Em 1888, Raul Pompeia publicou uma das obras mais marcantes da nossa tradição, um romance igualmente poético e experimental. Nela, as descobertas e agruras da educação escolar são apresentadas com rara delicadeza e potente realismo. Entre essas descobertas está o amor de Sergio e Bento, uma dupla de “amigos” e “namorados” que começa ainda na primeira adolescência a perceber a violência do preconceito e os desafios do crescimento.

Enéias Tavares

24 nov, 2020

A Todo Vapor!, série de Brasiliana Steampunk disponível na Amazon Prime Vídeo,  mostra o que teria acontecido com essa dupla de personagem mais de vinte depois caso eles tivessem permanecido juntos e assumido seu amor e afeto num cenário de ficção científica e fantasia. Na série, os atores Pedro Passari e Claudio Bruno foram os responsáveis por dar vida a esses personagens. Nessa entrevista, o roteirista Enéias Tavares conversa com os dois sobre o clássico literário, sua carreira de atores e sua experiência ao viverem esse casal de aventureiros do oculto.

Enéias Tavares: Como um leitor de O Ateneu e roteirista de A Todo Vapor!, é um prazer imenso conversar com os atores que corporificaram dois dos heróis que mais aprecio: Sergio e Bento Alves, dois sobreviventes da escola criada por Raul Pompeia e dois guerreiros do universo de Brasiliana Steampunk. Em primeiro lugar, gostaria de parabenizar vocês pela série e de começar nossa conversa perguntando quando vocês compreenderam que trabalhariam como atores? Foi um sonho de infância ou a atuação foi vindo aos poucos, durante outras formações profissionais? 

Pedro Passari: A arte sempre esteve presente na minha vida. Eu cresci com minha mãe tocando piano em casa e sabendo que meu pai tocava acordeom quando jovem. Com sete anos eu pegava as caixas das compras do mercado da minha mãe, encapava e fazia apresentação de teatro de bonecos pra família. Por volta dos doze fui fazer meu primeiro curso de teatro. Lembro que eu fiz um sábio chinês na apresentação final e minha mãe me maquiou descendo no elevador do prédio. Durante os ensaios desse texto eu chorei no palco e lembro da plateia, de colegas de classe, indo ao delírio e me aplaudindo muito. Nunca mais esqueci aquela sensação. Aos quinze, estreei minha primeira peça profissional. Um amigo que cantava comigo na missa era o autor, diretor, figurinista, cenógrafo e grande estrela e me chamou pra fazer parte do espetáculo Nos Tempos da Jovem Guarda. Eu não fazia muita ideia do que era essa coisa de estar em cartaz, fazer uma peça profissional e tudo o mais, mas eu fui. Era uma comédia musical, dublada, fazia sucesso já há anos e foi uma linda temporada. Com o que recebi de dinheiro deu pra pagar o passe do metrô! Mas o carinho da família, a surpresa positiva dos amigos e do público e, principalmente, a sensação de estar em um palco e dividi-lo com colegas de cena ficaram marcados pra sempre em mim. Foi inclusive essa sensação, que nunca saiu de mim, que me fez, anos mais tarde, voltar a atuar. Eu até dei um tempo na arte, tentando fazer outras coisas, mas ela nunca deu um tempo dentro de mim!

Claudio Bruno: No meu caso, foi desde criança. Eu gostava muito de brincar como personagens, de inventar aventuras, de fazer apresentações para amigos e família. Mas foi com uns catorze anos que comecei a entender como era o ofício do ator. Trabalhei em alguns comerciais para TV na época. Mas foi só com vinte e sete anos que realmente comecei a fazer peças de teatro e me apaixonei pela “atuação” em si. Depois disso, nunca mais parei.

Enéias Tavares: Vocês já tinham lido O Ateneu? Confesso que eu tenho uma relação de fascínio e também de resistência com essa obra. Sem dúvida, é uma dos romance mais poéticos e herméticos da nossa tradição. Por outro lado, é uma obra sobre violência, opressão, descobertas e libertação, sobretudo nos campos do desejo e do “amor que não ousava dizer seu nome”. Para um romance publicado há 130 anos, como vocês veem a homoafetividade presente na obra? Até que ponto vocês levaram a prosa poética de Raul Pompeia para os seus papeis respectivos?

Claudio Bruno: Na minha época de colégio eu tinha lido apenas resenhas do Ateneu para o vestibular. O livro eu li assim que fui chamado para o teste para a série. Acho que o livro deixa clara a relação dos dois e fica a critério do leitor o quão física ela poderia ser. Sobre Bento Alves, achei intrigante o fato de ele ser apresentado como um personagem mais “físico e durão”, mas também ser o presidente do grêmio de literatura do Ateneu. Esse contraste entre o físico e o intelectual normalmente não se encontra em um só personagem. Isso foi o que eu mais gostei. Eu acho que essa ambiguidade fica clara também na série, quando ele oscila entre a pancadaria e o lado mais doce e poético com o Sérgio, além da cena linda na qual ele conhece ninguém menos que Cecília Meireles!

Pedro Passari: Eu fui ler O Ateneu especialmente para o papel de A Todo Vapor! Assim como a grande maioria de todos os relacionamentos, a amizade é um fator inicial e determinante para que algo mais aconteça. Na obra, vemos uma amizade fortíssima, um cuidado de um pelo outro que é puro amor, que transcende qualquer rótulo que possa existir nas culturas atuais. Acredito que o que mais levamos para a série foi exatamente essa parceria, essa amizade, essa cumplicidade. Vemos Sergio e Bento como dois grandes parceiros de aventuras na vida, inclusive na vida amorosa. O relacionamento amoroso é um plus no relacionamento deles, mas não se sobressai de outros aspectos, o que eu acho bem positivo e importante. É amor como qualquer outro amor, nem mais nem menos. Acho que esse é o ganho desse tema na série.

atores de a todo vapor!

Enéias Tavares: Como muitos espectadores, e também como um artista sempre interessado na alquimia dos processos criativos, adoro histórias de bastidores. Vocês dois têm uma história bem interessante de preparação para os papeis de Sergio e Bento em A Todo Vapor! Podem nos contar um pouco como foi esse processo de imersão nos personagens e na relação que os dois tem?

Claudio Bruno: Na primeira reunião com os atores conheci o Pedro Passari. De cara, tivemos uma conexão por termos vários amigos em comum do meio do teatro musical aqui em São Paulo. Foi quando eu tive a ideia de marcar “um laboratório” com ele em minha casa. Como o Sergio Pompeu e o Bento Alves haviam se conhecido no colégio, pedi para o Passari trazer fotos de álbuns de infância e adolescência dele para trocarmos nossas experiências pessoais. Isso foi muito importante para ficarmos à vontade em cena e para criarmos esse vínculo de dois parceiros que se conhecem há muito tempo. Quando fomos pra cena, essa relação já tinha sido criada.

Pedro Passari: Exatamente. O Cláudio, destemido como o Bento, assim que teve o primeiro contato comigo já quis aprofundar a relação em prol do papel. Ele um dia me ligou e disse: “separa algumas fotos de infância e passa aqui em casa pra gente construir esse antes dos dois”. Claro que falou de um jeito educado e simpático! Registramos esse encontro numa sessão de fotos, que foi deliciosa e serviu para nos conhecermos muito mais. Eu jamais saberia que o Cláudio havia feito diversos musicais nos Estados Unidos, por exemplo. Tocamos também em pontos importantes sobre a família e isso nos deixou ainda mais próximos. A empatia faz maravilhas!

Enéias Tavares: A Todo Vapor! tem um casal gay que aponta para diversas possibilidades de representatividade no audiovisual, indo tanto para uma relação baseada em respeito e delicadeza até paixão e intensidade. Como esses elementos foram trabalhados por vocês? O que vocês destacariam da relação desses dois heróis e da forma como vocês os interpretaram numa série voltada para jovens e jovens adultos?

Pedro Passari: Pra mim a palavra de ordem é “parceria”. É como eu vejo os dois e como nós estivemos em todos os momentos durante as filmagens. São dois seres humanos. Ponto! Se são dois homens que estão juntos, isso ficou bem pra trás, sem ter qualquer tipo de destaque. Na série mesmo os dois se revelam amantes explicitamente no decorrer da trama. Tratar com naturalidade o que é natural é...natural! E não cair em estereótipos traz um alívio muito grande pra toda a comunidade LGBT.

Claudio Bruno: Eu acho que o mais importante foi como ficou o resultado final. Os dois heróis estão completamente espontâneos e naturais. Mais ainda é a relação deles com os outros personagens, que os respeitam e os tratam com muito carinho e admiração. É um grupo inteiro de amigos, não apenas os dois, mas de uma amizade que conecta Bento e Capitu, por exemplo, e Sergio, Vitória e Benignus. Você termina de ver a série e sabe que aqueles personagens já viveram e viverão outras aventuras em outros lugares. Acho que essa é uma das qualidades do universo de Brasiliana, ele não começa nem termina na série. A série é uma história, entre várias outras, que incluem os web quadrinhos e romances como Parthenon Místico. Curioso para ver a origem de Bento, Sergio e Vitória nesse livro, viu? 

pôster da série e a todo vapor, da HQ e do livro Parthenon Místico

Enéias Tavares: Grandes emoções contidas nesse livro, Claudio. Sob um certo aspecto, Parthenon Místico é um romance de Sergio e Bento, é a oportunidade dos dois de revisarem sua história no Ateneu, enfrentar seus fantasmas e reencontrar um ao outro para recomeçarem. Espero que vocês gostem. Falando agora sobre o Sergio de A Todo Vapor!, Pedro, o seu personagem é um dândi, um homem elegante, sensível e absolutamente contumaz no seu modo de agir, falar e gesticular. De onde você buscou inspiração para interpretar esse personagem com esses traços? Há algo que você aprendeu com o personagem e levou para a sua vida?

Pedro Passari: Na construção da personagem para a série tive longas conversas com você e com o Felipe Reis para entender o que queriam para a personagem. Minha maior inspiração de Dândi, o playboy dos anos 20, foi o Dorian, inspirado em Dorian Gray, da série Penny Dreadful. Peguei esse lado pomposo dele e traduzi em um super-herói aventureiro e ao mesmo tempo sensível ao ponto de tocar nos objetos e rastrear todo o passado deles, tudo que aconteceu com aqueles objetos até o momento. Interpretar uma personagem que tem superpoderes nos coloca em outro lugar de atuação; temos que retomar aquela sensação de quando éramos crianças e realmente vivíamos os nossos heróis. Talvez eu tenha trazido essa sensação à tona novamente; adoro pensar que posso ajudar alguém com meus “poderes”!

Enéias Tavares: Claudio, você levou ao seu Bento Alves um caráter mais forte, pujante e viril, trazendo ao personagem todo um histórico de sofrimentos e desafios anteriores. Como você vê esse personagem e como ele o marcou? O que ficou de Bento Alves em Claudio Bruno?

Claudio Bruno: Para responder a essa pergunta, tenho que contar um acontecimento da minha vida pessoal. No meio das gravações, eu sofri um acidente e fraturei o fêmur. Foi uma cirurgia grande, com muitas semanas de recuperação seguidas de fisioterapia depois. Durante esse período, foi Bento Alves que me mostrou que era hora da força, da fé e da coragem aparecerem. Acho que minha maior ansiedade era ficar apto de novo pra colocar todo aquele figurino pesado e voltar para o set de filmagens, com todos os riscos, pois várias cenas eram bem físicas e intensas.

Enéias Tavares: Quais foram os desafios de se trabalhar em A Todo Vapor! e o que vocês esperam de Sergio e Bento em próximas temporadas? Alguma aventura particular que adorariam ver representadas nas telas da série ou então nas páginas de Brasiliana Steampunk?   

Pedro Passari: Como foi uma série independente, tivemos um tempo mais distendido de gravação. Começamos no meio de 2017 e terminamos só em 2018. Além disso, por se tratar de um universo fantástico, tivemos que gravar em muitas locações para ambientar todo o roteiro e isso demandou mais tempo de buscas e parcerias. Quanto eu comecei a gravar, o pessoal já estava bem dentro do processo e se conheciam bem. Entrei quase que de gaiato, mas fui super bem recebido e trago grandes amizades vindas desses processos de gravação. O dia mais esperado da série foi a gravação da cena de balão. Iríamos andar de balão, gravar lá em cima; ficamos todos alvoroçados. Chegou no momento da gravação e ficamos sabendo que o balão não iria voar por aí. Estávamos presos por cordas, com técnicos do balão escondidos entre nossas pernas e com um vento horroroso. Foi um desastre como experiência de voo mas só as risadas que demos valeram o perrengue! Sergio e Bento formam um casal carismático, modéstia à parte. Eu amaria vê-los desvendando um crime envolvendo algum tipo de preconceito (o que, infelizmente, não falta, mesmo hoje em dia) e consultando todos os outros heróis para ajudá-los a desvendarem esse crime. 

Claudio Bruno: Eu não consigo imaginar exatamente como seria a próxima temporada.  Mas eu tenho muitos “flashes” que me vêm à cabeça sobre algumas cenas em particular. Vejo muita ação, muita pancadaria e vejo também muitas cenas de intimidade entre os dois. Tenho coletado algumas referências de imagens que, quem sabe, depois sugira para o Enéias Tavares e o Felipe Reis para serem incorporadas num próximo projeto. Quanto às HQs, estou adorando, especialmente a arte fabulosa do Fred Rubim, que adora desenhar o Bento, pelo que soube! No que eu puder, irei ajudar esses e outros projetos de A Todo Vapor! 

Esse conteúdo faz parte da Semana Especial A Todo Vapor!, promovida por Brasiliana Steampunk para comemorar seus seis anos de existência. Em parceria com a Editora Jambô e o CosmoNerd, preparamos uma série de ações exclusivas para essa semana, que envolvem Entrevistas, Lives e Lançamentos. Para garantir conteúdos exclusivos e conferir a Programação Completa, acesse https://bit.ly/ATVSpecialWeek2020! Se ainda não conhece A Todo Vapor!, aproveite para ver a série na Amazon Prime Video ou então para adquirir o Combo Especial preparado pela Editora Jambô com Livro, Quadrinhos, Pôster e EcoBag Exclusiva! 

Pedro Passari tem 35 anos, é ator, cantor e locutor. Formado em Comunicação Social pela USP e em Teatro pela Escola Incenna, atuou em sua formatura como Geni em “Ópera do Malandro”. Está elenco das séries “A Todo Vapor”, já disponível no Prime Video, e “Home Office”, confirmada para também entrar no catálogo do canal de streaming da Amazon.. Recentemente fez parte do elenco do musical Silvio Santos Vem Aí, com direção de Marília Toledo e Fernanda Chamma. Já teve como mestres do canto Ronnie Kneblewski e Leandro Lacava; na dança já estudou com Kátia Barros, Alexa Gomes e Raça Centro de Artes. Atualmente segue o método de interpretação de Lee Strasberg/Actors Studio estudado com Estrela Strauss.

Claudio Bruno teve sua formação em teatro na Flórida, Estados Unidos. Atuou em nove peças de teatro, entre elas em clássicos modernos como As Bruxas de Salém, Grease e A Pequena Loja de Horrores. Já participou de diversos curtas-metragens e gravou comerciais de TV. Sua paixão e inspiração são o cinema italiano e os clássicos de Hollywood. @claudiobrunoator . 

Enéias Tavares é professor de literatura na UFSM e escritor, tendo assinado os romances A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison (Leya, 2014) e Juca Pirama Marcado para Morrer (Jambô, 2019). Em 2020, a série live action roteirizada por ele, A Todo Vapor!,  estreou na Amazon Prime Video e sua graphic novel em parceria com Fred Rubim, O Matrimônio do Céu & Inferno (AVEC, 2019), foi lançada nos EUA pela Behemoth Comics. Seu último livro, o romance transmídia Parthenon Místico (DarkSide, 2020), integra o universo expandido de Brasiliana Steampunk. Mais de sua produção em www.eneiastavares.com.br.

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