Conto

Proserpina #01

CosmoNerd

11 maio, 2021

Conto: Eu preciso de você

Autora dessa edição: Irene Marques

Ilustradora: Catarine Cândido

Não podia precisar o dia exato em que perdeu a capacidade de ler e entender a expressão do rosto das pessoas com seus traços e detalhes. Sabia dizer que foi por volta dos anos 70, quando decidiu que podia parar de viajar. Achou uma casa que ninguém queria e pegou para si. Foi reformando aos poucos, toda noite consertando algum detalhe com o material que encontrava ou roubava. Para se alimentar, começou a frequentar o campus da universidade federal que havia lá perto. Caçava discretamente entre os alunos que ficavam até tarde nos prédios. Os anos 70 foram um período turbulento, mas viu bem pouco disso. Havia movimentação da polícia no campus com alguma frequência durante o dia. Porém, na calmaria da noite, ele chegava e ninguém o incomodava.

Vinha perto do pôr do sol e ia até a biblioteca do prédio de artes, porque era o menos movimentado e com a fauna mais exótica de alunos. Ali podia ler o jornal do dia. Anotava os eventos sem muito apreço por eles, só para ter certeza de que seu mundo medíocre e sereno não mudaria tão logo. Depois, continuava as leituras de livros que havia começado nas noites anteriores. Percebeu que podia deixar uma fita marcando as páginas quando as devolvia para a estante perto das 11h da noite, e raramente teria o problema de perdê-las.

Depois disso, ia para o estacionamento. Ficava perto dos cantos escuros. Havia uma hora boa entre a saída dos alunos dos prédios de exatas e geológicas, quando apenas algumas pessoas transitavam nas vias do campus. Mesmo com toda a atenção e paranoia por causa dos eventuais furtos, sempre havia alguém distraído que caía no chamado sutil da presença de caçador e se desviava para as sombras.

Quando terminava, ele acompanhava a presa à distância até o portão, por causa da leveza de corpo e mente que o ato da alimentação deixava; e às vezes o caçador seguia até ter a certeza de que a pessoa pegara o ônibus para ir embora, quando era alguém especialmente vulnerável. Aí tinha a madrugada pela frente para voltar ao seu refúgio e cuidar da manutenção.

Ele se passava igualmente como aluno e professor: tinha a aparência jovem, mas vestia-se de jeito antiquado com roupas de décadas passadas. Ninguém se importava de saber mais detalhes dele, e era perfeito. A faculdade era um local limiar, transitório. A cada cinco anos, a fauna de frequentadores mudava, e seu rosto se misturava com todos os outros entre aqueles das dezenas de pessoas que passavam no prédio todo dia. Ninguém se lembraria dele. Ninguém esperaria ser lembrado. Foi ficando confortável.

Sua não-vida eram linhas desapaixonadas de texto que ele lia sem gravar a fundo, caçadas ligeiras e discretas, momentos longos no silêncio. Por sessenta anos, como um autômato diligente, uma noite após a outra.

Foi nesse desapego com as pessoas ao redor e nessa rotina mansa que ele foi perdendo o pouco que ainda tinha de percepção. Primeiro, precisava olhar diretamente para o rosto e para as bocas para entender o que estava sendo dito, mas achou que fosse apenas uma desconexão com o dialeto da época. Depois foram as expressões, em especial os pequenos sinais, mas logo tinha dificuldade com a risada de alegria e de deboche, não conseguia perceber quando a bibliotecária do turno estava apenas séria ou realmente irritada. Desse ponto, sem perceber, facilmente caiu na dificuldade de reconhecer as pessoas pelo rosto. Algumas se misturavam na memória, não mais como indivíduos separados, mas como arquétipos. Facilmente passou semanas sem precisar conversar com alguém.

Não percebeu, também, quando os tempos mudaram, mas eles mudaram ainda assim. E, numa noite, alguém se sentou na sua mesa da biblioteca. Alguém que não se importava com a aura de frieza e distância, nem com seu visual datado, que agora estava na moda de novo.

 

Ele normalmente teria ignorado, teria continuado concentrado na leitura. Não soube dizer por que, naquele dia, deu atenção à presença. O olhar estava focado no dele. E era um olhar bonito, delineado de preto.

— Oi. Qual seu nome? — O sorriso aumentou. — Eu sou Tatiana.

— Júlio — ele respondeu de imediato. Seu nome verdadeiro, não uma das dezenas de descartáveis que apenas jogava às vezes.

— Ei, Júlio. Você estuda aqui?

Quando as pálpebras se apertaram, quando ela sorriu, ele entendeu o sentimento ali, e decidiu que não tinha falado da boca para fora.

Começaram uma conversa a respeito do curso de Artes Plásticas, da qual ela era caloura. Júlio mentiu que estava fazendo mestrado, algo que tirou um suspiro surpreso dela. Tatiana pediu desculpa por estar incomodando, algo que Júlio deveria ter concordado e encerrado a conversa, mas aquela fagulha de conexão havia lhe dado um choque de estímulos que não tinha há muito tempo. Não estava preparado para a surpresa e para como seu corpo, morto e silencioso, reagiu com certa fome e ansiedade.

Tatiana ficou chocada ao saber que ele não tinha um número de celular. Júlio admitiu sua natureza antiquada. Ela perguntou se ele estaria ali ainda depois da sua aula. Júlio disse que sim.

Caçou cedo e ficou na cafeteria perto do horário combinado. Tatiana saiu da aula rodeada de outros calouros, todos com suas pastas largas para carregar trabalhos em grandes folhas de papel. Quando ela o viu, acenou, chegou perto. Perguntou se ele não queria ir para o bar.

Júlio se lembrava de como disfarçar a capacidade de conseguir beber algo, mas não de fingir prazer. Foi apreensivo, mas não precisou de grande dissimulação. Tatiana era dessas pessoas que guiava a conversa sozinha. Tudo que Júlio tinha de fazer era responder qualquer coisa e o resto ela fazia só. Tinha toda a capacidade de falar pelos dois e compensar a dificuldade de Júlio em inventar mais fato sobre si com dezenas de fatos sobre si mesma. Atribuía as palavras curtas e lentas à timidez. Pedia para ele falar dos livros que tinha lido, mas não ouvia as frases inteiras antes de fazer um comentário a respeito. Ignorava os amigos para dedicar toda aquela atenção só a ele.

Júlio não entendia o que estava acontecendo. Ficou em total incerteza até certo momento perto da uma hora da manhã, quando o bar estava mais cheio, a música estava alta e conversas desconexas zumbiam no ouvido, quando o cheiro de cigarro e cerveja atrapalhavam o olfato, e Tatiana sentou-se no seu colo sem pedir licença ou dar espaço para ele reclamar. A garota passou os braços pelo seu pescoço e deu-lhe um beijo apertado e quente.

A única palavra que veio à sua cabeça para descrever o ato foi voracidade. E, de novo, ela não esperava que ele correspondesse. Não precisava de reciprocidade, só não ser rejeitada. Júlio entendia o sentimento. Não se importava de interpretar aquele papel pela noite. Tinha lembranças do que fazer. Segurou seu rosto e deixou sua língua e a dela se tocarem com fome. A sensação de sangue fresco tão perto, mas proibido, o deixava ansioso de um jeito antigo e reprimido. Pagou o táxi para ela ir para casa, porém, antes que tivesse mais ideias.

Só que ideias era tudo o que Tatiana tinha.

Na noite seguinte, estava na biblioteca de novo. E na outra, e na outra, uma presença constante quebrando o marasmo. Júlio ajustou a sua rotina para estar livre quando a aula dela acabasse. Comprou um celular depois de muita insistência. Aprendeu a mexer no aparelho apesar dos seus dedos frios que não reagiam com a tela, apesar da luz que cegava seus olhos sensíveis. Aprendeu a checar as mensagens no meio do dia, quando o sono falhava, e responder. Ela gostava que ele visse sempre o celular. Ele não se importava de atender esse pequeno capricho.

Começaram a marcar compromissos além do bar sujinho perto do campus. Houve jantares, shows, cinemas, teatros, vernissages. Ela andava com com os dedos cruzados à mão dele, sem se importar com a temperatura fria. Cheia de abraços, cheia de jeitos, sempre feliz de estarem juntos. Júlio teve tempo de inventar todo um passado para si, com poucos fatos marcantes, para contar para ela, e daí ser uma companhia minimamente agradável para ouvir o resto do tempo tudo o que Tatiana tinha para lhe dizer.

E como ela precisava dessa atenção e dessa gentileza. Tatiana tinha uma relação difícil com os pais, viera fazer faculdade em outra cidade para ter desculpas para não conviver com eles. Morava numa república com uma velha cristã insuportável e outras quatro meninas que faziam um inferno na sua vida. Sonhava em conseguir logo um trabalho e não depender mais de ninguém, poder achar seu canto e fazer sua vida nos seus moldes.

Foi por volta de oito meses dessa agitada rotina que a primeira crise de ciúme aconteceu. Júlio não soube dizer, como não sabia explicar várias outras coisas, como chegou na altura da noite em que consolava uma Tatiana em prantos num banco de praça, dizendo que não, não estava olhando para outra moça. Que ela não tinha nada para se preocupar. Dando-lhe beijos e pedindo desculpas por algo que não tinha feito, sem entender de onde ela tinha tirado aquela ideia.

Só queria lhe dar segurança.

Tatiana disse que o amava. Ele não sabia responder.

— Eu gosto da sua companhia.

— Mas você me ama?

— Eu quero te ver bem.

— Como você pode ser tão frio e brincar comigo assim? Por tanto tempo!

— Não é tão simples...

Júlio pagou um hotel para poderem ficar sozinhos. Não podia contar a verdade, mas não queria deixá-la a esmo pensando horrores de si. No espaço mais discreto, ela se sentiu confortável para demonstrar aquele amor com gestos e toques. Júlio não podia corresponder em sentimento, pois seu coração morto não permitia, mas podia entrar naquela dança. Se mover como ela queria, tirar os sons e reações que ela queria lhe dar.

Estavam oficialmente namorando naquela mesma madrugada. Na faculdade, Tatiana o apresentava assim. Os toques e beijos ficavam mais ousados, mais públicos, mais carentes. Ela não queria voltar para casa quando o horário do último ônibus vinha. O hotel para onde iam era o lugar seguro dos dois. Mas trazia o problema do amanhecer. Júlio tinha de ir embora às cinco, no mais tardar. Tatiana ficava dormindo e depois debulhava longas mensagens de texto lamentando acordar sozinha e todo o segredo de por que ele não podia ficar. Fazia acusações das quais ele não podia se defender, só pedir paciência.

No mês seguinte, uma menina ameaçou Tatiana na sua república. Ela não se sentia mais segura lá. Júlio ofereceu pagar um hotel para ela até achar outro lugar para ficar. Tatiana pediu para passar uns dias na sua casa até as coisas melhorarem. Para quem nunca pretendeu chegar naquele ponto, Júlio se viu inventando mil mentiras sobre sua vida e sua rotina para acomodá-la ao redor do mistério do que ele realmente era, sem dar o que ela pedia. Tatiana o chamava de covarde, em prantos, e quando ele ameaçava ir embora, reconhecendo que não fazia bem para ela, que aquilo não tinha como funcionar, ela perdia a bravata e chorava ainda mais, pedindo desculpas.

A cada discussão daquelas, eles se beijavam e faziam sexo como desculpas. Ela dormia encaixada nele, quieta e doce como um anjo. A fome de Júlio totalmente acobertada pela sua vergonha de estar fazendo tão mal para uma criatura tão inocente.

Depois de algumas semanas disso, alugou um apartamento para ela, facilmente arranjado com um pouco de hipnose e dinheiro. Júlio tinha o capital acumulado de um imortal e nenhum uso para todo o patrimônio. Não se importava de ajudá-la naquela fase difícil em troca da companhia. Tatiana foi com ele a um shopping para comprarem móveis. Passaram a primeira noite de conchinha no colchão ainda sem cama, abraçados, assistindo a filmes no celular.

Quando deu a hora de ir embora, ela o agarrou apertado, pediu em prantos para que ele não fosse.

Júlio não aguentou e contou uma longa história de terror sobre a era da busca de ouro, sobre monstros escondidos nas minas que saíam delas à noite para beber o sangue dos tolos sedentos por riquezas. E contou o que acontecia com os que eram mordidos.

Tatiana tocou seus dentes afiados e abraçou seu corpo frio, protegeu-o durante o dia enquanto ele era tomado pelo torpor do sono que fazia sua carcaça ficar imóvel e catatônica.

À noite, ela disse que tinha cancelado os pedidos dos móveis e que iria entregar o apartamento. Que não se importava com mais nada e só queria estar perto dele. Apesar de saber que não deveria aceitar, Júlio não conseguia se imaginar dizendo não e fazendo-a chorar de novo.

Ela iria crescer uma hora e perceber que não era feliz com ele. Não tinha problema aquiescer até lá.

Tatiana se mudou para seu antigo refúgio. Abriu espaço no armário para as suas coisas. Trocou a velha caixa por uma cama confortável. Ocupou cada quarto da velha casa com a sua personalidade. Ia na faculdade às vezes depois disso. Dizia que iria transferir para o diurno quando o semestre mudasse e passar as noites com ele. Mandava mensagens sem parar sempre que ele estava fora, caçando, e perguntava que horas voltaria. Jamais falava do que fazia ao longo do dia. Mas estava feliz, confortável e apaixonada.

Foi por aí que começou a querer mudá-lo. Comprava roupas novas para ir em eventos e comprava roupas para ele, sapatos, joias. Vestia os dois e batia fotos para colocar nas redes, depois saíam para algum lugar caro. Ele, que nunca se imaginou entrando em um clube barulhento, começou a caçar entre os frequentadore com a ajuda de Tatiana. Ela seduzia moças e rapazes para o colo do seu caçador, admirando a vida deles sendo sugada.

Júlio, sempre tão discreto e paranoico, agora caçava para se exibir para ela.

Um dia, o caçador acordou e Tatiana estava com alguém em casa. Podia ouvir a conversa. O impulso de medo veio. Ela não deveria trazer ninguém para lá. Não deveria criar aquele risco enquanto ele dormia.

Tatiana sorriu para ele quando saiu do quarto. Esse sorriso ele entendia. Ela estava feliz e isso fazia tudo ficar calmo. A garota que estava com ela não era reconhecível e era difícil de interpretar o que ela pensava. Não parecia calma, nem feliz. O corpo dela estava sem forças, caído no sofá, como as pessoas bêbadas do clube.

Tatiana o abraçou.

— Amor, eu preciso que você faça algo para mim. Se você me ama de verdade mesmo.

Júlio não achava uma boa ideia. Era um risco desnecessário. Mas era só olhar para o sorriso da namorada para repensar seu raciocínio. Não tinha tantos problemas. Poderia esconder o corpo no quintal.

E havia muito tempo que não satisfazia sua sede plenamente.

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