Conto

Proserpina #00

CosmoNerd

11 maio, 2021

Conto n°1

Mariposa em Chamas

Valdir Marte @valdirmarte

Ele puxou o freio de mão e desligou o carro, esperando um momento antes de descer. Do outro lado da rua vazia do Centro, estava um conjunto de prédios malcuidados, todos bem similares: quatro ou cinco andares, feitos de tijolos ocre que naquela noite pareciam quase reluzir em um tom obscuro de vermelho-sangue. Checou o celular mais uma vez, confirmando o endereço. Estava certo, tudo ia bem até então. Como um movimento compulsório verificou se o IP falso estava ativo, assim como o endereço de e-mail criptografado e os históricos apagados.

Wagner desceu do carro para a noite quieta, passando os olhos pelo exterior antipático de lojas fechadas e por um vira-latas caramelo que se afastava tranquilamente não muito longe, sem lhe dar muita atenção. Atravessou a pista e chegou na calçada desnivelada do outro lado, sempre atento a qualquer movimento. Seguiu para a esquerda, dando a volta no primeiro prédio, checando pelo canto dos olhos se alguém o observava de algumas das janelas escuras lá em cima.

Número quatrocentos e vinte e três, quarto andar.

Chegou ao prédio certo, logo divisando a pequena entrada para as escadarias que o levariam até seu destino, para algo que nem mesmo ele sabia se estava pronto. Subiu os degraus largos de cimento iluminado pela parca luz azul-elétrico das lâmpadas nas paredes. Guimbas de cigarro se acumulavam nos cantos. Os únicos sons que ouvia eram os ratos correndo para longe e o chiar irritante da eletricidade.

Quarto andar, continuou seguindo pelo longo corredor com vista para os telhados desordenados do Centro. A noite corria silenciosa pelos becos agourentos, o céu lá em cima parecia uma careta roxa e zangada, como se fosse ciente de que ele estava prestes a fazer algo muito errado. Conseguia ver a luz do poste lá fora piscando incessantemente, atraindo mariposas solitárias e confusas com o brilho inconstante. Wagner imaginou por um segundo o que devia estar se passando em suas pequenas cabeças felpudas, pensando que seus cérebros de inseto não aguentariam e desligariam de uma vez. Era isso ou ser queimada no calor da lâmpada. Da frigideira para o fogo.

Olhou para os lados, observando se estava realmente sozinho no corredor sujo daquele prédio velho e caindo aos pedaços.

Estava.

Pôs a mão na maçaneta fria da porta do apartamento quatrocentos e vinte e três, respirou profundamente, e empurrou. A porta estava destrancada como o combinado, e o ambiente lá dentro tinha um estranho odor, algo que pairava no ar. Não sabia dizer ao certo o cheiro, mas lembrou-se de nuvens pesadas, chuva e raios. Entrou finalmente, os olhos lutando para se acostumar com a pouca luminosidade. Fechou a porta atrás de si, sentindo-se esmagado pelo silêncio enervante.

Havia um pano vermelho cobrindo

um abajur aceso em cima de uma pequena mesa de madeira. Do outro lado, o sofá velho de dois lugares parecia encará-lo através de seus olhos de botão com uma expressão ranzinza. O cômodo se mostrava estranhamente vazio e solitário, com um ar melancólico e vermelho, talvez algo que refletisse

a personalidade de quem morava ali.

O homem enxugou o suor frio da testa com o antebraço, puxando o ar

com força pelo nariz levemente congestionado. Pensou no que estava para acontecer, as imagens estourando em sua mente como fogos de artifício em um céu escuro. Sentiu-se ficar duro devido à excitação. Ele engoliu em seco e sentou no sofá desconfortável e puído, os olhos fixos no corredor escuro

à frente e as mãos pousadas nos joelhos, apertando com força.

— Estou sentado. — falou, a voz hesitante parecendo um grito no silêncio do apartamento.

Teve certeza de que ouviu um suspiro vindo do final do corredor. Aos poucos, as manchinhas pulsantes em sua visão foram se ajustando em formas mais definidas agora que se acostumou com a semiescuridão aveludada de vermelho. Alguém vinha caminhando pelo corredor em sua direção, podia ouvir os passos, um leve farfalhar e sentir o cheiro mais forte entrando pelo nariz. Ozônio, pensou por um momento, ele cheira a ozônio, como o céu, ou relâmpagos. Chuva. Wagner prendeu o fôlego agora que não estava mais sozinho, observando o homem parado à sua frente. Ele usava um sobretudo de cor indefinida na escuridão. A peça era obviamente muito maior que sua figura esguia, e parecia se avolumar nas costas, como se o estranho tivesse uma corcunda descomunal.

— Eu… — Wagner pensou que não conseguiria falar, agora se sentindo ligeiramente orgulhoso de si mesmo. — Eu fiz tudo como o combinado. Certo?

O estranho parecia fitá-lo, embora não houvesse como ter certeza. Seus traços eram uma confusão de sombras escarlates, só seus cabelos compridos e claros pareciam irradiar certa luminosidade fosforescente.

— Trouxe o dinheiro — Wagner meteu a mão no bolso de trás da calça e tirou um envelope amarelo com um volume quase tão grande quanto o que crescia no meio de suas pernas. — Vou dar para você quando souber que isso tudo é real. Que não é nenhum truque, entende?

O estranho soltou outro suspiro, caminhando até o abajur sem dizer nada. Wagner observou tirar um pouquinho do tecido vermelho, permitindo um pouco mais de luz. Ergueu-se, observando os contornos do outro ganhando forma. Mal podia acreditar. Ele parecia um rapaz jovem, de traços andróginos e esbelto, mais bonito que na foto que mandou alguns dias antes. Fora o sobretudo, estava completamente nu.

Wagner sentiu os olhos se enchendo de lágrimas.

— Tome — jogou o envelope cheio de dinheiro aos pés do rapaz, perguntando-se, de repente, se teria coragem de tocá-lo. — Eu quero ver… Quero ver você inteiro.

Os olhos muito escuros do rapaz pareciam reluzir de curiosidade. Wagner o observou  se inclinar e juntar o envelope, guardando-o no bolso do sobretudo - agora visivelmente cor de gris.

— Você não deve levantar — o rapaz falou com uma voz profunda e agradável, deixando-o com nenhuma outra alternativa além de obedecer.

O estranho sorria de leve, movimentando-se para tirar o sobretudo, que escorreu pelo seu corpo de forma macia. Wagner tremia, mas mesmo assim levou os dedos desajeitados até a calça, desabotoando-a e puxando o zíper para baixo. Observou atento enquanto o rapaz movia os ombros, quase como o movimento gracioso de um gato se espreguiçando.

— Abra, mostre elas abertas pra mim — quase soluçou enquanto se tocava levemente.

Wagner falava das grandes asas cinzentas do rapaz.

Aquela era a primeira vez que via um anjo tão de perto, pensando em como aquilo tudo parecia incrível e assustador ao mesmo tempo. O anjo obedeceu, estendendo aos poucos as asas musculosas que cresciam e cresciam, quase tocando as duas paredes opostas do apartamento.

Era uma incrível visão, e Wagner mal podia pensar em tudo que queria fazer.

— Meu Deus… — sussurrou, só agora percebendo o poder ritualístico que aquelas palavras continham. — Me toque com elas… Com suas asas, me toque com elas…

O anjo se aproximou, inclinando um pouco a cabeça enquanto se ajoelhava de frente para ele, seus olhos eram escuros e fundos como poços infinitos. Wagner desviou um pouco, atento ao movimento preciso das asas cinzentas que se dobravam para tocá-lo. As penas tinham certa eletricidade ao toque, eram frias como o céu deve ser. Sentiu-as primeiro no rosto, depois no peito, o que lhe arrancou súbitos gemidos.

Algo estava tomando conta de seu corpo, uma sensação incrível que parecia vir de dentro dos seus ossos, vibrando e reverberando para fora, até que estivesse totalmente preenchido. Wagner se sentiu feliz, verdadeiramente feliz. Seus problemas não existiam mais, nem suas falhas ou pensamentos ruins. Naquele momento, era como se passado, presente e futuro tivessem aglutinado e se tornado um anel luminoso girando e girando ao seu redor.

Era infinito, finalmente realizado. Estava chorando, sentia as lágrimas quentes escorrendo pelo rosto. Percebeu isso logo antes de explodir, gozando como nunca tinha gozado antes.

De repente, estava exausto, coberto de suor. Abriu os olhos por um momento, percebendo que o anjo já recolhia o sobretudo novamente e escondia as grandes asas naquilo que ele tomou por uma corcunda desajeitada.

— Agradeço por ter vindo — a voz macia soou. — Por favor, feche a porta quando sair.

Wagner subiu as calças e saiu trôpego do apartamento, agora cheio de medo. Parou por um momento no corredor, observando o mundo lá fora como um universo alienígena. Deus, o que tinha acabado de fazer? Não era mais o mesmo. Disso tinha certeza!

Mas o que faria dali para frente? Refletiu enquanto descia rapidamente as escadas, o peito em um sobe e desce selvagem, sentindo as lembranças empalidecendo em sua mente como um sonho. Voltou para o carro e largou-se no banco do motorista, pensando seriamente se aquilo o condenaria imediatamente ao Inferno.

O derrotado

Cecília Reis @ceciliareism

Enquanto tirava os sapatos de salto opressores e largava sua pesada bolsa no otomano que tinha sido promovido a porta treco, Luiza ainda refletia sobre listas de compras do supermercado, a papelada a ser lida na sua mesa de trabalho e a reunião de apresentação para dali dois dias. Quase tropeçou no gato ao acender a luz do corredor, foi colocar água para ferver, lavou o rosto na pia da cozinha mesmo e arrastou o pote de ração de baixo do tanque para encher o pote de comida. Apoiou o peso nos cotovelos e não quis se mexer mais. Estava tão, tão cansada.

Por isso tudo, demorou a perceber que havia mais alguém em casa com ela.

Só quando saiu para a sala, caneca de chá na mão e o mascote pendurado no outro braço, que percebeu as penas escuras e a sanguinolência espalhada pelo chão como se um gavião tivesse entrado na sala, se engalfinhado com o felino e perdido a batalha.

O sangue, porém, não era vermelho. Como uma graxa fina e oleosa, o prateado grudou no pé de Luiza, deixando desenhado suas pegadas pelo piso frio. Ela sabia que era sangue apesar da aparência surreal porque ela mesma já fizera uma ferida em alguém e vira aquele sangue verter direto da fonte. Por isso, quando viu e reconheceu esse mesmo alguém, Lorde Derlain Tir Mornal, caído no seu sofá, enrolado no seu manto de plumas escuras, Luiza não se assustou.

Embora psicólogos, pedagogos, seus pais e todos os seus amigos do Tumblr tenham lhe convencido de que ele era uma bela história da sua imaginação, Luiza tinha plena fé em si mesma, e ela sabia que ele era bastante real. Aquela fé ela tinha aprendido enfrentando e derrotando Derlain numa justa disputa quando tinha apenas 18 anos.

Ver o nobre feérico não lhe causava medo. O que lhe deu um receio, porém, foi a visão da haste de madeira da flecha, e as gotas prateadas que ainda pingavam dela para o chão. Lá das profundezas da sua memória de fanfics veio a lembrança de como remover uma flecha sem piorar a ferida, e logo estava ela debruçada sobre Derlain, uma tesoura cortando a capa, depois o alicate de pequenos reparos quebrando a flecha, e antisséptico sendo derramado na ferida que ela era obrigada a cavucar com as pinças para puxar os fragmentos da ponta. Derlain, desacordado, só respirava pesado, e prateado jorrava de dentro dele, grudando nos dedos de Luiza.

Se ela tivesse suco de romãs mágicos, poderia fechar aquele buraco de flecha com apenas uma gota. Derlain tinha um pomar deles, mas aquilo tudo aquilo tinha ficado no castelo mágico, todos aqueles anos atrás. Luiza dependia da gaze e do algodão que enrolou e colocou na ferida bem apertado para estancar o sangramento, e depois fechou com esparadrapos.

Luiza sentou no sofá ao lado dele e ficou olhando, contrastando memória e realidade. Embora a história deles dois fosse longa o suficiente para encher um livro, era apenas a segunda vez que ficavam tão próximos. Luiza nunca o vira assim, nem mesmo no momento da derrota em que ele sucumbira de volta nas sombras. Não estava mais de armadura brilhante, nem havia sinal de sua montaria, um unicórnio. Era estranho vê-lo com o rosto sereno ao invés do sorriso de deboche, ou do grito de fúria. Derlain tinha cílios brancos e sardas prateadas. A pele dele era de um cinza escuro e azulado, e as escarificações de seu clã feérico desenhavam fendas na sua bochecha e seu pescoço. Luiza tinha cortado e aberto a camisa branca e o colete para revelar o ombro. A lenda dizia que os unseelie marcavam a pele para aprender magia. Mas Derlain teve seus poderes trancados quando ele trapaceou a Lua. Era a primeira vez que ela via quão longe aquelas escarificações iam.

Foi tentar lavar a mão, mas o sangue ficou grudado nela como tinta. Igual ao que aconteceu no passado. Quando Luiza tinha 18 anos e era arrogante e louca na euforia de ser uma adolescente, ela se meteu numa discussão idiota de fórum sobre lendas. E ela nem se lembrava mais de como tinha entrado no argumento, nem como acabara digitando a crítica pesada contra Derlain. Como dissera que ele nem era tão esperto assim. O que Luiza não imaginava é que fadas existiam e que elas viriam tirar satisfação.

O terror que ela sentiu quando o chão abriu debaixo dos seus pés! Quão assustador Derlain era quando se conheceram. Tão alto, com sua armadura escura, os olhos brilhando com o fogo de magia, e sua risada que fazia as árvores balançarem.

Luiza se sentou no sofá e fechou os olhos só um momento, para descansar, lembrando-se da sua aventura.  O farfalhar das penas a fez se assustar antes que caísse no sono.

Os olhos cintilantes a encaravam. Luiza se levantou de supetão.

— Eu te ato pela lei da hospitalidade, Lorde Mornal. Me responda, você vem como amigo ou inimigo?

Ele deixou um grunhido escapar enquanto a magia fazia seu efeito. Ele também ficou de pé, altivo e etéreo apesar das roupas sujas e do sangue. Embora Luiza tivesse crescido dois centímetro depois de vê-lo, Derlain ainda era bem mais alto.

A voz dele era clara, funda e áspera, rouca pelo fato de ter acabado de acordar:

— Eu não venho como ameaça alguma para a sua casa, Luiza.

— Eu não considero você um amigo, Lorde Mornal. Mas sou justa e boa e não vou jogar um moribundo na rua, ainda mais quando seus crimes já foram vingados.

Se olhares tivessem capacidade de cortar...

— Ah, sim, sua justiça ainda está bem presente na minha memória… — Ele murmurou, ranzinza. — Eu aceito seu atamento de hospitalidade. Por favor, calorosa anfitriã, traga pão e vinho, vamos concluir esse acordo.

— Serve leite e biscoitos?

— … Eu aceito o que você puder dispor.

Luiza ajeitou uma bandeja na cozinha com uma caneca cheia de leite com chocolate em pó, os biscoitos de arroz que ela tinha na despensa, manteiga, geléia, presunto e queijo. Fez o dobro porque também estava com fome, mas foi comendo a sua parte ali mesmo na cozinha enquanto ia de um lado ao outro.

Derlain havia se sentado, e inspecionava um dos curativos adesivos no seu peito. Enquanto Luiza chegava perto, ele ergueu os olhos para ela. Houve aquele um segundo de desconforto. Depois disso, Luiza só estendeu para ele o lado da bandeja em que estava a caneca. Derlain a pegou com calma, sem fazer um barulho. Colocou as mãos ao redor da xícara que Luiza havia considerado muito quente para ser tocada.

E enquanto ela deixava a bandeja na mesa improvisada de café que era feita de caixas de feira, o Lorde bebeu todo o líquido fumegante em dois goles.

Havia uma lenda sobre um banquete em que Derlain e seu amigo Iulius haviam entrado disfarçados para recuperar um anel roubado pelo rei dos Fomorianos. Embora os dois tivessem ido disfarçados como damas muito bonitas, Derlain e Iulius haviam comido dois touros inteiros cada um, precisando da ajuda do mentiroso Mordred para escaparem. Foi quando Mordred trocou de lados na guerra.

— Há quantos anos desse mundo nós nos encontramos da última vez? — ele perguntou ainda olhando o fundo da caneca.

— Dez anos.

— Sua casa mudou.

— Eu mudei de cidade.

— E não está casada.

— Casar está fora de moda. Estou trabalhando e estudando.

— Estudando o que?

— Leis. Eu sou uma advogada.

Ele pareceu surpreso.

— Quanto tempo passou para você, Lorde?

— Mais do que para você. Mas não tanto tempo para fazer com que meus inimigos esquecessem do meu momento de vergonha. Eles me acharam fraco para manter meu trono…

“Eles não estavam errados, pelo jeito”, Luiza pensou.

— E te puseram pra correr, — ela disse, sacana, e conseguiu fazê-lo ficar mais tenso, fechando o rosto.

— Eu não vim para cá para ser insultado.

— Não, realmente. Por que você veio é a minha real dúvida. De todos os lugares em todos os mundos, você escolheu o meu sofá para cair quase morto. Eu não sou médica, você poderia ter sangrado até morrer aí.

— Leva mais do que algumas flechas para me colocar diante da morte.

— Ainda assim, a flecha era certeira. Você estava vulnerável. A minha casa não tem amizade com a casa Mornal. Por que veio procurar refúgio aqui?

Derlain ficou silencioso, olhando ao redor dela, mas jamais para ela. A boca torcida, o olhar apertado. Ele se levantou e andou até ela, mas Luiza ergueu o rosto, impondo-se contra qualquer intimidação. Derlain não fez nada agressivo, apenas abaixou a caneca para a bandeja, e depois ficou ali, agachado, diante dela, demorando a organizar as palavras.

— Luiza… Você é a única criatura que me conhece e teve meu sangue em suas mãos, mas não se aproveitou disso. Agora, por duas vezes.

Ele se aproximou mais, ajoelhado, e segurou as mãos dela, mostrando o sangue seco e manchado.

— Eu… — O lorde das fadas murmurou. — Não tinha planos para ver você nunca mais, mas com essa reviravolta, não havia outro lugar nesse universo onde eu encontraria asilo. Nenhuma fada teria a sua responsabilidade, Dama. De nenhuma eu esperaria a justiça que encontrei em você.

Luiza percebeu que seu rosto estava ardendo. Derlain mantinha sua mão entre as dele, e seu toque era quente. Havia muito que ela queria gritar para ele, e debochar e tripudiar, mas a vida e suas aventuras a tinham ensinado a ser prudente e a advocacia a tinha ensinado a calcular cada palavra e cada argumento. Agora que seu sangue esfriava e a urgência médica não era mais uma questão, ela podia refletir e temer. Sozinha, em casa, com essa fada, ela precisava mais do que um feitiço simples de hospitalidade para garantir que estava segura.

— Justiça? Não… Justiça seria eu ter terminado de empurrar a flecha para o seu coração, assim me protegeria da sua natureza perversa. Você veio quando eu era uma criança tonta e me aterrorizou só para sua diversão, teria feito coisas horríveis comigo se eu não tivesse vencido seu jogo.  — Ela disse, a voz seca, o olhar frio, a postura endurecida, erguendo uma muralha entre eles com essas palavras. —  O que eu te mostrei foi clemência, lorde Mornal… Algo que você não merece.

Ele, que se considerava tão persuasivo e galante, ficou lívido, o rosto tenso enquanto refletia o que ouviu. Mas eventualmente Derlain conseguiu se mexer, e abraçou as pernas de Luiza,  escondendo seu rosto no colo dela, como uma criança que chorasse.

— Deixe eu me explicar. Não foi sadismo que me fez fazer tudo que fiz… O que você julga cruel, era apenas um jogo… Um jogo no qual eu medi mal as consequências, e agora percebo a extensão real dessa arrogância. Houvesse sabido o que aprendi nos últimos minutos, teria feito tudo bem diferente. Ah, Luiza, eu fiquei em reverência com a sua inteligência e sua coragem, derrotar você em desafio teria sido a maneira perfeita de arrebatar o seu coração. Você acha que eu teria te machucado caso eu não tivesse sido derrotado? Eu teria te roubado para mim, esconderia você do mundo como um tesouro no meu castelo, te faria esquecer dessa terra e do mundo dos mortais, para te reverenciar todos os dias como você merece. Percebe, Luiza, que tudo que fiz foi para ser exatamente o que você esperava de mim… Para depois ser aquilo que você jamais esperou que eu fosse.

O lorde ergueu o rosto, cansado, tão bonito e tão triste.

— Perdoe esse sidhe tão ignorante, dama Luiza.

O coração dela batia forte e seu corpo todo tremia de nervosismo. Conseguiu falar:

— Essas palavras… Não mudam o quão duramente eu te julgo, lorde Mornal.

— Eu sei que não. Mas me dê uma chance de ser melhor do que já fui. Por favor.

O momento de silêncio foi imenso e doloroso, antes de Luiza conseguir responder.

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Ilustradora desta edição:

Cecília Reis

 

 

 

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