Em 2014, o programa de rádio americano This American Life lançou o podcast Serial, um divisor de águas na história dos podcasts narrativos. A primeira temporada contava um caso de assassinato que aconteceu anos atrás onde um jovem acabou sendo acusado e preso, o programa vai investigando os fatos meio nebulosos sobre o crime e a prisão do sujeito. Usando técnicas de documentário como entrevistas, uso de gravações reais e narrativas em primeira pessoa, o podcast ficou muito famoso e acabou ganhando uma segunda temporada. Em 2017, This American Life e Serial lançam um novo podcast narrativo documental chamado S-Town, como forma de spin off. Nesse texto, tentarei analisar a história e como ela foi contada, tentando evitar ao máximo os spoilers.

A História

Brian Reed no meio de uma mata

O enredo de S-Town começa quando Brian Reed, um dos produtores de This American Life, recebe um email com o assunto “John B. McLemore lives in Shit Town, Alabama”. No e-mail, o tal John fala da sua cidade, como a corrupção policial é nociva e outros casos absurdos como ela ser uma das cidades com mais abuso de crianças do estado. Mas o principal assunto é o fato que um jovem filho de um grande empresário anda por aí se gabando de ter matado uma pessoa e ninguém faz nada a respeito. Brian começa a trocar e-mails e ligações com o sujeito por meses até decidir visitar a cidade para investigar. Depois que sua investigação começa, a história acaba tomando rumos totalmente inesperados envolvendo a morte de alguém e uma suposta caça ao tesouro.

O grande astro da história é, sem dúvida, John B. McLemore. Com poucos minutos de gravação que ouvimos do telefone, percebemos que ele é uma pessoa ímpar, dessas que a gente só vê em filmes. O homem de meia idade trabalha e passa seu tempo consertando relógios com centenas de anos e organizando o enorme labirinto de rosas que possui em sua propriedade. Os principais assuntos que ele gosta de comentar são o aquecimento global, como as corporações estão destruindo o mundo e o quanto ele odeia a cidade onde vive, apesar de possuir todas as ferramentas para se mudar e não o fazer. Um tipo de ser humano complexo e de personalidade forte, de difícil compreensão.

Outro fato importante da história é que Brian, um clássico nova iorquino, acaba adentrando essa cultura do sul dos Estados Unidos abordando temas como racismo, homofobia e os costumes daquele povo. Os amigos de John são um bando de caipiras clássicos do Texas que se juntam para beber e se tatuar. Em um certo ponto da história, o enredo se aprofunda nas relações entre essas pessoas para entender melhor a psicologia de John e o porquê de ele ser uma pessoa tão brilhante e negativa ao mesmo tempo.

A Narrativa

Brian Reed numa loja de relógios com um senhor

S-Town funciona como um documentário em forma de podcast. As conversas são gravadas ao vivo ou pelo telefone e os produtores sabem muito bem como usar essa linguagem para contar a história da melhor forma possível. Alguns fatos são escondidos do ouvinte para que a história vá se desdobrando aos poucos. Eu consigo imaginar eles montando todas as peças desse quebra-cabeça e decidindo em qual episódio elas vão ser lançadas, para que não estrague a história e ao mesmo tempo a torne mais interessante e cinematográfica. Uma ótima escolha de trilha sonora original ou não ajuda bastante na contagem dessa história, existem momentos que eu conseguia imaginar visualmente uma cena específica em um filme hollywoodiano.

Como nem tudo são flores, a história em certos momentos avança em caminhos que não tem um fim. Nos empolgamos com aquele rumo mas ele é esquecido rapidamente e quase não é mais mencionado depois. O modo como a história foi contada é corajosa de certa forma, pois ela nos engana de início e muda completamente algumas vezes durante os 7 episódios da série mas, de certa forma, os temas abordados tem uma ligação. Em um certo momento no final eu fiquei meio desconfortável com algumas suposições sobre a personalidade de um certo personagem baseada em sua orientação sexual e até em efeitos químicos, também acho que o jornalista foi invasivo em certos momentos, mas isso é o que jornalistas fazem.

O Veredicto

A entrada do labirinto de John com muros de pedra, pequenas roseiras e uma porta de madeira

S-Town é uma obra-prima de produção de áudio. A qualidade técnica é impecável e a narrativa é bastante competente em contar essa história complexa e cheia de ramificações. Um ponto fraco, pelo menos para nós, é que a série é totalmente em inglês e somente em áudio, o que torna o entendimento bastante difícil, principalmente quando se trata de pessoas falando ao telefone e com o sotaque do sul dos EUA.

A série foi lançada estilo Netflix, com todos os episódios ao mesmo tempo que podem ser ouvidos no seu lindo site ou em agregadores de podcast. Caso você esteja com vontade de ouvir algum podcast no estilo mas não entende inglês, recomendo fortemente o Projeto Humanos, criado por Ivan Mizankuk do Anticast. O seu podcast de storytelling já tem diversos episódios e com temas bem interessantes.