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Warrior Nun – 1ª Temporada (Netflix) | Crítica sem spoilers

Nova série original da Netflix, Warrior Nun demora para engrenar – mas acaba sua primeira temporada como uma atração interessante

A Netflix recebeu recentemente em seu catálogo a série original Warrior Nun, que em sua primeira temporada apresenta as tais “Irmãs Guerreiras”, grupo de combate formado por freiras à serviço da igreja católica que tem a basicamente a missão de defender o mundo de potenciais forças demoníacas.

A trama acompanha Ava (Alba Baptista), uma garota tetraplégica que, após bater as botas (isso mesmo), acaba revivida através de um artefato divino conhecido como Halo (não confundir com a franquia do Xbox ou a música da Beyoncé). Ao tomar conhecimento sobre a seita secreta caçadora de demônios, Ava terá que lidar com o dilema de seguir uma vida normal, agora que possui habilidades especiais que a permitem voltar a andar e ter experiências inéditas como adolescente comum, ou ajudar a combater inimigos da humanidade que ela nem sabia da existência.

A série é uma criação de Simon Barry, que esteve envolvido na produção de outras como Van Helsing e Continuum. O enredo, no entanto, é uma adaptação da HQ quase homônima de Ben Dunn, publicada a partir de dezembro de 1994 pela Antarctic Press.

Porém, é prudente afirmar que não se trata de um quadrinho tão conhecido assim. Isso não muda o fato de que Warrior Nun possui uma proposta interessante, mesmo que ter freiras chutando bundas por aí numa trama que expõe contradições religiosas não agrade líderes da igreja.

Ava e seus amigos na balada. Divulgação: Netflix

Narrativa demora para envolver

O grande problema da série é sua narrativa, que demora para deixar as coisas devidamente interessantes. Através de Ava e outros núcleos vamos tomando conhecimento de como funciona a Ordem da Espada Cruzada, o tal braço armado feminino da igreja, além de outros detalhes que envolvem toda a mitologia em torno do artefato Halo e o divinium, metal raríssimo com infinitas possibilidades de estudo e aplicação.

Isso traz para trama uma vertente científica encabeçada por Jillian (Thekla Reuten), uma pesquisadora que busca descobrir o real potencial do divinium para fins que não posso revelar por motivos de spoiler. De todo modo, isso a coloca numa guerra declarada com a igreja católica que, através do ambicioso cardeal Duretti (Joaquim de Almeida), não medirá esforços para sabotar seus estudos.

São antagonismos interessantes, mas que não ficam tão bem trabalhados e esse problema dura até por volta do episódio cinco (de um total de dez, com cinquenta minutos cada aproximadamente). São diversas camadas de intrigas e disputas, inclusive dentro da própria igreja, que demandam habilidade de roteiro para que o espectador seja conquistado durante esse processo logo de cara. E isso não acontece.

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Beatrice pronta para ação na primeira temporada. Divulgação: Netflix

Dedo no gatilho e oração

As cenas de ação acompanham a mesma ascensão de qualidade, demorando para nos mostrar aquela cena super empolgante. Isso só acontece a partir do quarto episódio, quando a irmã Beatrice (Kristina Tonteri-Young) senta a chibata numa equipe de seguranças, com coreografias à la Assassin’s Creed. Claro que o orçamento de Warrior Nun não deve ser dos maiores disponibilizados pela Netflix, então precisamos nos contentar boa parte do tempo com cenas tímidas nesse quesito. Por falar na franquia de jogos da Ubisoft, há uma dinâmica de linhas do tempo e religiosidade que chegam a remeter a esses jogos de uma maneira positiva.

Mas voltando aos problemas, vale ressaltar também que não há absolutamente nenhum nome no elenco que você diga “uau”. O mais conhecido que temos é o cardial vivido por Joaquim de Almeida mesmo (o ator já participou de filmes como A Balada do Pistoleiro e Velozes & Furiosos 5). Isso dificulta um pouco na hora de conquistar quem assiste através do carisma.

Não que o elenco seja ruim, muito pelo contrário. Alba Baptista está muito bem como Ava, nossa protagonista, dosando beleza e humor adolescente, enquanto se vê num mundo totalmente novo. Apesar de maçante, seus momentos de descoberta com JC (Emilio Sakraya) conseguem dosar um pouco de leveza, conferindo equilíbrio emocional para a série.

Também vale destacar positivamente Lilith, vivida por Lorena Andrea, que traz consigo toda a complexidade que uma personagem com esse nome pode carregar. Antes de Ava, é ela quem deveria ser a portadora do Halo, algo pelo qual ela se preparou a vida toda. Levando em conta que algumas interpretações do livro Gênesis sugerem a existência de Lilith como antecedente a Eva (Ava é uma variante inglesa desse nome), isso implica muitas emoções. Acho que a personagem pode ser melhor trabalhada, no entanto (caso a série seja renovada).

A verdade é que Warrior Nun demora até perder a cara de uma Malhação da igreja até virar algo mais palatável. Isso podemos atribuir muito aos diálogos fracos e soluções preguiçosas, como dar uma carga dramática ao personagem colocando ele pra falar sobre o seu passado. É um recurso que, se usado muitas vezes, acaba enchendo o saco (perdoe o linguajar). Isso só pra ficar num exemplo.

Quer outro exemplo? A narração em off da protagonista, executada de forma burra, verbalizando o que já está escancarado em cena. Como quando Ava está sorrindo aliviada em frente ao espelho, aí ouvimos “finalmente estou livre”.

Quando consegue romper esse círculo vicioso, a série se mostra completamente diferente. As piadas funcionam melhor, a interação entre as irmãs se alinha (mesmo quando estão brigando entre si) e as viradas no roteiro tornam as coisas ainda mais empolgantes, servindo também para dar algum sentido a personagens aparentemente inúteis.

Warrior Nun consegue encerrar sua temporada de estreia na Netflix com certa dignidade, se mostrando uma adaptação interessante e com algo a acrescentar dentro da temática que habita. Logicamente, não faria mal um investimento maior no orçamento, para que não torçamos o nariz com efeitos especiais de baixa qualidade.