Viver (Living, 2022) - Crítica, Fatos e Curiosidades do Filme de Oliver Hermanus Viver (Living, 2022) - Crítica, Fatos e Curiosidades do Filme de Oliver Hermanus

Viver (2022) | Crítica do Filme | Netflix

Recém-adicionado ao catálogo da Netflix, Viver (Living, 2022), dirigido por Oliver Hermanus, apresenta Bill Nighy no centro de uma narrativa que revisita temas de finitude, rotina e transformação pessoal. O filme adapta Ikiru, clássico de Akira Kurosawa, para o contexto londrino do pós-Segunda Guerra Mundial, mantendo o eixo emocional da obra original e oferecendo uma leitura contemporânea sobre legado e propósito. Leia a crítica do filme:

O ponto de partida de Viver

A história acompanha Williams, chefe de um departamento público que passa décadas repetindo os mesmos gestos. O personagem leva uma vida marcada por hábitos rígidos: pega o trem, trabalha, volta para casa e recomeça no dia seguinte. Tudo muda quando recebe um diagnóstico terminal. A partir desse choque, inicia um processo de revisão da própria trajetória e tenta, pela primeira vez, interferir de forma ativa no mundo ao seu redor.

O roteiro de Kazuo Ishiguro preserva a essência minimalista de Kurosawa, reforçando a análise sobre repressão emocional e a dificuldade de romper padrões enraizados. A adaptação britânica dialoga com décadas de produções que exploram códigos sociais ingleses, criando uma ponte entre culturas que tratam a contenção de forma particular.

A força da interpretação de Bill Nighy

Nighy entrega uma performance calibrada, centrada na escuta e na economia de gestos. Ao interpretar Williams, ele cria uma figura que parece ter atravessado diferentes eras, carregando marcas de transformações tecnológicas e sociais do século XX. Sua postura revela a rigidez de alguém que encontrou segurança na repetição, mesmo que essa segurança significasse estagnação.

A atuação se torna o eixo emocional do filme. Em cenas-chave — seja ao encarar a notícia do médico com um lacônico “com certeza” ou ao observar a ineficiência do departamento que lidera —, Nighy compõe um personagem que internaliza tudo o que sente. À medida que decide agir, seja vivendo pequenas aventuras ou tentando destravar processos burocráticos, suas escolhas mantêm certa imprevisibilidade, mesmo quando parecem inevitáveis.

A ambientação e a herança de Kurosawa

Oliver Hermanus cria uma Londres que reforça o peso da rotina e a pressão institucional em uma sociedade que tenta se reerguer após a guerra. Nesse cenário, Williams surge como símbolo de um sistema que se perpetua, ainda que não responda às necessidades das pessoas — como o grupo de funcionárias que tenta, sem sucesso, construir um parquinho infantil.

Viver (Living, 2022) - Crítica, Fatos e Curiosidades do Filme de Oliver Hermanus

A adaptação respeita o espírito do filme original, mas imprime à narrativa uma textura que remete a produções britânicas sobre contenção emocional, como Vestígios do Dia ou Um Quarto com Vista. Essa interseção fica ainda mais evidente pela presença de Ishiguro no roteiro, reforçando conexões entre tradições literárias e cinematográficas distintas.

Crítica: vale à pena assistir Viver na Netflix?

Um filme sobre propósito e ação

Viver se apoia na jornada íntima de seu protagonista para refletir sobre a urgência de romper com a apatia. Mesmo quando o filme adota um ritmo contido e privilegia a melancolia, sua força está no gesto simples de abandonar a passividade. No centro disso, Bill Nighy constrói uma das interpretações mais significativas de sua carreira, conduzindo o espectador por um percurso que fala tanto de despedidas quanto de redescobertas. Assista na Netflix.