Em Vida Privada (A Private Life, no original Vie privée), Rebecca Zlotowski parte de uma premissa que parece apontar para um suspense policial, mas logo revela intenções diferentes. O filme (disponível na HBO Max) acompanha Lilian, psiquiatra interpretada por Jodie Foster, que entra em crise depois da morte de uma paciente, Paula (Virginie Efira). Convencida de que a mulher não cometeu suicídio, ela passa a investigar as circunstâncias da morte por conta própria.
O problema é que Lilian não está exatamente em condições de conduzir uma investigação. Ao mesmo tempo em que questiona se ignorou sinais importantes durante o tratamento de Paula, a psiquiatra enfrenta dificuldades na relação com o filho, Julien (Vincent Lacoste), e começa a apresentar um comportamento emocional que foge completamente de seu habitual controle. A investigação, então, funciona como uma extensão de sua própria crise.
É justamente nessa contradição que Vida Privada encontra seu principal interesse. Lilian acredita estar utilizando sua experiência profissional para chegar à verdade, mas suas decisões são cada vez mais influenciadas por culpa, insegurança e necessidade de encontrar uma explicação. A personagem se torna uma espécie de narradora não confiável de sua própria história, enquanto o público precisa decidir até que ponto suas teorias fazem sentido.
O roteiro também não se limita ao mistério. A produção mistura drama familiar, humor negro, romance e elementos ligados à hipnose, criando uma narrativa deliberadamente difícil de encaixar em um único gênero. Algumas dessas mudanças de tom funcionam melhor do que outras, mas ajudam a afastar o filme da estrutura tradicional de um thriller.

Jodie Foster é o principal ponto de equilíbrio da produção. Atuando majoritariamente em francês, a atriz constrói uma Lilian contida, rígida e pouco disposta a demonstrar vulnerabilidade. Aos poucos, porém, essa postura começa a ruir. A interpretação permite perceber que a investigação sobre Paula é também uma tentativa de Lilian recuperar algum controle sobre a própria vida.
Como mistério, Vida Privada pode decepcionar quem espera uma grande revelação ou uma resolução especialmente impactante. A descoberta do que aconteceu com Paula não é o verdadeiro objetivo da narrativa. O caso serve principalmente para colocar a protagonista diante de suas próprias contradições.

Crítica do filme: vale a pena assistir Vida Privada (A Private Life, 2025) na HBO Max?
Rebecca Zlotowski aposta mais na atmosfera e na interioridade da personagem do que no suspense convencional. Referências à espiritualidade, ao judaísmo e à própria prática psiquiátrica ampliam o universo do filme, embora alguns desses elementos pareçam pouco desenvolvidos.
No fim, Vida Privada funciona melhor como um estudo de personagem do que como um thriller. A trama utiliza o mistério para discutir culpa, confiança, relações familiares e a dificuldade de uma profissional acostumada a analisar os outros lidar com aquilo que não consegue compreender em si mesma. O resultado é irregular, mas a atuação de Jodie Foster e a abordagem pouco convencional de Zlotowski fazem do filme uma experiência interessante.