O thriller de espionagem segue como um dos gêneros mais explorados da ficção contemporânea, especialmente no streaming. Conflitos políticos, dilemas morais e vidas duplas continuam sendo matéria-prima recorrente, e a Alemanha tem se mostrado um polo constante desse tipo de narrativa. Unfamiliar, nova série alemã da Netflix criada por Paul Coates, se insere nesse cenário ao acompanhar as consequências de uma operação mal-sucedida que volta a assombrar seus protagonistas após mais de uma década. Leia a nossa crítica.
A trama gira em torno de Simon e Meret, dois ex-agentes que, após uma missão fracassada na Bielorrússia, adotaram novas identidades e tentaram construir uma vida comum em Berlim. O passado, no entanto, nunca ficou completamente enterrado. Dezesseis anos depois, uma mudança no cenário político faz com que antigos segredos voltem à superfície, colocando o casal novamente no radar de forças internacionais interessadas em silenciar testemunhas.
A narrativa se constrói a partir de uma alternância constante entre passado e presente. Aos poucos, o espectador é levado a montar o quebra-cabeça da operação na Bielorrússia, tratada como o núcleo emocional e político da história. Do outro lado do conflito está Josef Koleev, um agente ligado à inteligência russa, que teme que os eventos daquela noite comprometam a carreira diplomática de sua esposa em Berlim. A decisão de eliminar todos os envolvidos funciona como o motor da série e desencadeia a escalada de tensão.
Um dos elementos mais interessantes de Unfamiliar está na tentativa de humanizar seus protagonistas. Simon e Meret não são apresentados como heróis tradicionais, mas como personagens que cometeram erros graves e precisam lidar com as consequências. A série evita justificativas fáceis e assume a ambiguidade moral como parte central da narrativa, algo que contribui para dar densidade emocional à história.
Esse equilíbrio entre o pessoal e o político se reflete também na relação com Nina, filha do casal, completamente alheia ao passado dos pais. A presença da jovem adiciona uma camada dramática relevante, já que a ameaça externa passa a colidir diretamente com a tentativa de preservar uma aparência de normalidade familiar. Quando Nina começa a perceber que há algo errado, a série encontra alguns de seus momentos mais tensos.
Apesar da proposta sólida, Unfamiliar enfrenta problemas de ritmo. A fragmentação excessiva da narrativa faz com que certos episódios avancem pouco, enquanto informações importantes são deliberadamente adiadas. A série ganha força quando as peças do passado começam a se encaixar, mas até lá o andamento pode parecer irregular. A escolha por deixar várias questões em aberto indica claramente a intenção de uma segunda temporada, o que enfraquece o impacto do desfecho.

Algumas revelações, como a identidade do informante dentro do BND, carecem de surpresa. As pistas são distribuídas de forma pouco sutil, tornando o mistério previsível. Além disso, personagens secundários como Julika acabam subdesenvolvidos, funcionando mais como peças funcionais do que como figuras plenamente exploradas.
Crítica: vale à pena maratonar Unfamiliar na Netflix?
Visualmente, Unfamiliar adota uma estética fria e sombria, comum ao gênero. Embora coerente com o clima da história, o uso constante dessa paleta acaba se tornando repetitivo ao longo dos episódios. Ainda assim, as cenas de ação e perseguição ajudam a sustentar o interesse, especialmente por conta da duração enxuta dos capítulos.
Unfamiliar entrega um thriller de espionagem competente, mas pouco ousado. A série cumpre sua proposta, diverte dentro dos limites do gênero, mas dificilmente se destaca entre tantas produções semelhantes disponíveis no catálogo da Netflix. Para fãs de histórias de espionagem, pode valer a maratona — mesmo que apenas uma vez.