Uma Família Feliz, adaptação da obra de Raphael Montes dirigida por José Eduardo Belmonte, chega aos cinemas com a promessa de entregar um suspense ancorado em paranoia doméstica, crítica social e investigações familiares. O filme reúne elementos fortes: roteiro e argumento de um dos autores brasileiros mais populares do gênero, direção de um cineasta experiente e um elenco liderado por Grazi Massafera e Reynaldo Gianecchini. A combinação cria expectativas altas — e parte delas se cumpre, especialmente na construção da tensão. Confira a crítica:
A trama acompanha Eva (Massafera), que vive com o marido Vicente (Gianecchini) e as enteadas gêmeas em um condomínio luxuoso do Rio de Janeiro. A rotina muda após o nascimento de Lucas, bebê difícil, choroso e que desencadeia uma sobrecarga emocional crescente na protagonista. Entre demandas domésticas, pressão social e a sensação de isolamento, Eva perde espaço e voz em um ambiente que aparenta perfeição, mas esconde conflitos silenciosos.
Quando as coisas começam a dar errado
O ponto de virada surge quando Lucas e as gêmeas aparecem machucados. Sem explicações imediatas, a narrativa conduz o público à dúvida: Eva estaria à beira de um colapso capaz de justificar agressões? Ou algo mais complexo estaria acontecendo no Blue Paradise? Belmonte investe em ângulos fechados e enquadramentos que reforçam a instabilidade da personagem e ampliam a sensação de julgamento constante, tanto por parte dos vizinhos quanto do marido.
O filme também explora o impacto das redes sociais e da vigilância digital. Quando a suspeita de agressão circula em grupos de WhatsApp, Eva passa a enfrentar hostilidade pública, enquanto Vicente adota uma postura de distanciamento que alimenta a desconfiança. O uso das câmeras de segurança, por sua vez, é um recurso narrativo que amplia a escala da paranoia e coloca em dúvida a integridade de todos os envolvidos.
Até esse ponto, Uma Família Feliz sustenta bem a ambiguidade dos personagens. Massafera conduz a fragilidade de Eva com força, alternando momentos de lucidez e desorientação. Gianecchini, por sua vez, interpreta um homem que oscila entre o apoio superficial e uma opacidade que nunca se resolve completamente. A tensão cresce em ritmo eficiente e prepara terreno para um clímax robusto.

É no terceiro ato que o filme se desestabiliza. As revelações finais, que deveriam amarrar a crítica social proposta no início, se apoiam em soluções menos coerentes e aproximam a história de um arquétipo de “vilão psicopata”. A lógica interna construída até então se afrouxa, alguns acontecimentos tornam-se difíceis de sustentar e a condução emocional dos personagens perde consistência. Lacunas narrativas — especialmente relacionadas ao passado de Vicente e à dinâmica das crianças — deixam a experiência menos sólida.
Crítica: vale à pena assistir Uma Família Feliz?
Mesmo com as fragilidades do final, Uma Família Feliz apresenta momentos expressivos e levanta discussões relevantes sobre violência doméstica, vigilância comunitária e a pressão por uma imagem de perfeição familiar. A direção de Belmonte e a entrega de Grazi Massafera garantem peso dramático à obra, ainda que o desfecho não acompanhe a potência do caminho proposto.