Estreia da Netflix em 2026, Uma Carta à Minha Juventude (Surat Untuk Masa Mudaku), dirigido por Sim F., é um drama indonésio que aborda a passagem para a vida adulta a partir de marcas emocionais deixadas pela infância. Com uma narrativa contida e foco nas relações humanas, o filme constrói sua força ao observar como pequenas demonstrações de cuidado podem atravessar gerações e influenciar trajetórias inteiras. Leia a crítica do filme.
A trama acompanha Simon Ferdinan (Agus Wibowo), um homem emocionalmente esgotado que aceita trabalhar em um orfanato mais por necessidade do que por vocação. Carregando o peso do luto e do isolamento, Simon encontra naquele espaço um reflexo de suas próprias feridas. Entre as crianças sob sua responsabilidade está Kefas, vivido por Millo Taslim na infância e por Fendy Chow na fase adulta, um garoto marcado pela raiva, pelo sentimento de abandono e pela dificuldade de lidar com perdas precoces.
O roteiro constrói a relação entre Simon e Kefas de forma gradual, sem recorrer a grandes viradas dramáticas. O vínculo nasce do convívio, da escuta e da presença constante, elementos que o filme trata como fundamentais para qualquer processo de cura emocional. Em vez de discursos explicativos, Uma Carta à Minha Juventude aposta em gestos simples e no silêncio como ferramentas narrativas, reforçando a ideia de que nem toda dor pode ser verbalizada.
Sim F. conduz o drama com uma abordagem cuidadosa, evitando romantizar o sofrimento. O filme reconhece que traumas de infância não desaparecem com o tempo ou com a chegada da vida adulta, e que amadurecer não significa superar completamente o passado. Essa escolha confere autenticidade à narrativa, que permite que sentimentos como tristeza, frustração e solidão coexistam sem julgamento ou soluções fáceis.
As atuações são um dos principais sustentáculos do longa. Agus Wibowo constrói um Simon introspectivo, marcado pelo cansaço emocional, utilizando expressões mínimas e uma postura contida para comunicar o estado interno do personagem. Millo Taslim entrega um Kefas instável e difícil, mas compreensível, refletindo a complexidade de uma criança que reage à dor sem saber como processá-la. Já Fendy Chow, mesmo com menos tempo em cena, ajuda a dimensionar o impacto duradouro da relação entre os dois personagens ao longo dos anos.
Do ponto de vista narrativo, Uma Carta à Minha Juventude opta por caminhos conhecidos dentro do gênero de dramas de amadurecimento. Alguns conflitos e resoluções seguem estruturas previsíveis, o que pode reduzir o impacto para espectadores familiarizados com histórias semelhantes. O filme também se permite explicar certos pontos de maneira mais direta do que o necessário, diminuindo o espaço para interpretações mais abertas.

Ainda assim, o longa encontra valor na forma honesta com que trata seus temas centrais. Ao não buscar grandes surpresas ou reviravoltas, a produção se concentra em retratar pessoas comuns lidando com consequências reais de experiências passadas. Essa escolha torna os personagens reconhecíveis e aproxima o espectador de suas jornadas.
Crítica: vale à pena assistir Uma Carta à Minha Juventude na Netflix?
Uma Carta à Minha Juventude é um drama sensível que aposta na empatia e na observação cuidadosa das relações humanas. Mesmo sem reinventar o gênero, o filme se destaca pela sinceridade com que aborda memória, perda e a importância de conexões afetivas. Para quem busca uma produção introspectiva, interessada mais em emoções persistentes do que em soluções fáceis, o longa indonésio da Netflix oferece uma experiência discreta, porém significativa.