A 3ª e última temporada de The Comeback chega à HBO Max com a missão de reafirmar a relevância de uma produção que, ao longo dos anos, construiu um status cult ao satirizar a indústria do entretenimento. No episódio de estreia, intitulado “Valerie Ganha um Novo Capítulo”, a série retoma a trajetória de Valerie Cherish, vivida por Lisa Kudrow, e atualiza sua abordagem para um cenário dominado por transformações tecnológicas, incluindo o impacto crescente da inteligência artificial no meio artístico. Confira a crítica e resumo do episódio 1.
Recapitulação do episódio 1 (estreia) da 3ª temporada de The Comeback
Um retorno marcado por mudanças no cenário e na carreira
Mais de uma década após os eventos da segunda temporada, a narrativa deixa claro que o tempo não parou para Valerie. Aos 60 anos, a atriz não está fora do jogo, mas também não ocupa mais o mesmo espaço de destaque. Apesar de ter conquistado reconhecimento com um Emmy por seu trabalho anterior, sua carreira recente revela instabilidade. Projetos como uma participação em uma série de mistério não tiveram o alcance esperado, enquanto iniciativas pessoais, como seu podcast, carecem de relevância e engajamento.
O episódio trabalha essa nova fase como um retrato de deslocamento. Valerie ainda busca protagonismo, mas se depara com uma indústria que evoluiu sem ela. A sensação de inadequação não está ligada à falta de recursos — ela vive em um apartamento luxuoso e mantém certo prestígio —, mas sim à dificuldade de se adaptar a novas dinâmicas de produção e consumo de conteúdo.
Greve, teatro e a busca por visibilidade
A estreia insere Valerie em um contexto atual ao abordar uma greve de roteiristas, que levanta discussões sobre direitos autorais e o uso de inteligência artificial na criação de roteiros. Nesse cenário, a personagem se envolve em uma montagem teatral na Broadway, mas rapidamente percebe suas limitações fora da televisão.
A experiência no palco evidencia fragilidades: Valerie não domina canto ou dança e demonstra dificuldade em lidar com o ambiente teatral. Sua saída do projeto é justificada como um gesto de solidariedade aos roteiristas em greve, mas a série sugere que a decisão também serve como estratégia para manter sua imagem pública ativa. A presença constante nas manifestações, acompanhada por registros para redes sociais, reforça o aspecto performático de sua personalidade.

Relações pessoais e o “novo capítulo”
O episódio também atualiza a dinâmica entre Valerie e seu marido, Mark. Ele enfrenta seus próprios desafios profissionais após perder o emprego no setor financeiro e passa a considerar alternativas pouco convencionais, como a participação em um reality show. A possibilidade de inserção nesse formato evidencia como até personagens fora do meio artístico são afetados pela lógica de exposição midiática.
Apesar das dificuldades, o casal inicia o que chamam de “novo capítulo” em suas vidas. A estabilidade financeira contrasta com a insegurança profissional, criando um conflito central: Valerie não precisa trabalhar para sobreviver, mas precisa trabalhar para se sentir relevante.
The Comeback e a inteligência artificial como novo campo de atuação
O principal ponto de virada do episódio surge com a introdução de um projeto televisivo inovador — ou inquietante. O agente de Valerie apresenta a proposta de uma sitcom multicâmera que será desenvolvida por inteligência artificial. Mais do que um roteiro pronto, trata-se de um sistema capaz de criar a narrativa em tempo real, moldando a história em torno da protagonista.
Inicialmente, a ideia é recebida com resistência. A série sugere uma crítica direta ao uso de tecnologia para substituir o trabalho criativo humano, alinhando-se ao debate contemporâneo sobre automação na indústria cultural. No entanto, após uma experiência frustrante em um set independente, Valerie passa a enxergar a proposta como uma oportunidade de retorno aos holofotes.
Ao final do episódio, ela aceita o projeto, abrindo caminho para que a temporada explore as consequências dessa escolha. A decisão funciona tanto como avanço narrativo quanto como comentário sobre os limites entre inovação e precarização do trabalho artístico.

Mudanças na linguagem visual
Além das transformações temáticas, a estreia da temporada também apresenta ajustes na linguagem visual da série. O formato de falso documentário, que marcou as temporadas anteriores, continua presente, mas de maneira menos dominante.
Agora, a narrativa alterna entre momentos que mantêm a estética de registro direto — incluindo interações com câmeras de celular — e sequências filmadas de forma mais tradicional. Essa mudança reflete a evolução dos formatos audiovisuais ao longo dos anos, especialmente com a popularização das redes sociais e de novos estilos de produção.
Embora essa alternância possa causar certa estranheza, ela também amplia as possibilidades narrativas, permitindo que a série explore diferentes pontos de vista e níveis de intimidade com os personagens.
Crítica do episódio 1 da 3ª temporada da série The Comeback
Uma despedida que aponta para o futuro
O episódio de estreia da temporada final de The Comeback cumpre a função de reintroduzir seus personagens e estabelecer os conflitos que devem conduzir os capítulos seguintes. Ao mesmo tempo, reafirma a capacidade da série de dialogar com transformações reais da indústria do entretenimento.
A incorporação da inteligência artificial como elemento central indica que a temporada pretende discutir não apenas o futuro da televisão, mas também o papel do artista em um cenário cada vez mais automatizado. Valerie Cherish, com suas contradições e necessidade constante de validação, surge como a figura ideal para atravessar esse debate.
Ao final, a impressão deixada pela estreia é de que a série mantém sua identidade, mesmo ao atualizar sua abordagem. A combinação entre sátira e comentário social segue presente, agora direcionada a um novo conjunto de questões. Com isso, a última temporada se posiciona não apenas como um encerramento, mas como uma reflexão sobre o presente e o futuro do entretenimento.