Animação transforma o stop motion mexicano em um espetáculo de fantasia e terror
A animação em stop motion vive um momento raro dentro da indústria audiovisual. Em meio ao domínio das produções digitais, Sou a Frankelda chega à Netflix para lembrar que ainda existe espaço para obras construídas quadro a quadro, com identidade visual própria e uma proposta artística que desafia padrões estabelecidos pelo mercado.
Dirigido e roteirizado pelos irmãos Arturo Ambriz e Roy Ambriz, o longa funciona como uma história de origem da personagem Frankelda, conhecida anteriormente pela minissérie Os Sustos de Frankelda. No entanto, a produção foi concebida de forma acessível também para quem nunca teve contato com esse universo, transformando-se em uma porta de entrada para a mitologia criada pelo estúdio Cinema Fantasma.
A trama acompanha Francisca Imelda, uma jovem escritora do México do século XIX que sonha em publicar histórias de terror em uma época na qual mulheres dificilmente encontravam espaço no mercado editorial. Rejeitada pela sociedade e pela própria família, ela encontra uma oportunidade inesperada quando é levada para Topus Terrentus, um reino habitado por criaturas fantásticas e espíritos que dependem dos pesadelos humanos para continuar existindo.
É nesse universo que o filme encontra sua principal força. A construção de mundo realizada pelos irmãos Ambriz impressiona pela riqueza de detalhes, apresentando uma galeria extensa de monstros, fantasmas e figuras sobrenaturais. A influência de artistas como Remedios Varo e Leonora Carrington aparece na composição visual dos cenários e personagens, criando imagens que transitam entre o fantástico, o surreal e o macabro.

O trabalho artesanal também merece destaque. Cada boneco, textura e cenário evidencia o cuidado da equipe de animação. O resultado transmite uma sensação tátil rara nas produções contemporâneas, valorizando materiais, imperfeições e movimentos característicos do stop motion. Em muitos momentos, o espectador tem a impressão de estar observando uma obra feita à mão ganhar vida diante da tela.
Outro acerto está na ambição narrativa. Diferentemente de muitas animações familiares recentes, Sou a Frankelda aposta em uma fantasia de grande escala, combinando aventura, terror gótico e números musicais. Algumas sequências exploram mudanças de estilo visual e transformações constantes da animação, revelando um desejo permanente de experimentação.

Crítica do filme: vale à pena assistir Sou a Frankelda na Netflix?
Nem tudo funciona com a mesma eficiência. Com quase duas horas de duração, o filme sofre ocasionalmente com problemas de ritmo. Determinados trechos dedicam tempo excessivo à exposição do universo e à explicação de suas regras, o que pode comprometer a fluidez da narrativa. Além disso, alguns personagens recebem desenvolvimento limitado quando comparados ao vilão Procustes, que acaba se tornando uma das figuras mais interessantes da história.
Ainda assim, Sou a Frankelda representa um marco para a animação latino-americana. Ao unir fantasia, horror e uma identidade cultural própria, o filme demonstra que produções independentes podem competir em criatividade com projetos muito mais caros. É uma obra que celebra o potencial do stop motion e consolida Frankelda como uma das personagens mais promissoras da animação mexicana contemporânea.