Chegando aos cinemas brasileiros, “Song Sung Blue: Um Sonho a Dois” é um daqueles filmes que provam que a realidade, por vezes, supera a ficção mais ousada. Baseado no documentário homônimo de 2008, o longa dirigido por Craig Brewer conta a história real de Mike e Claire Sardina, um casal de Milwaukee que, nos anos 90, conquistou notoriedade como Lightning & Thunder, a dupla de tributo a Neil Diamond. Com Hugh Jackman e Kate Hudson nos papéis principais, o filme é uma montanha-russa emocional que mistura glória, tragédia e a resiliência do espírito humano, tudo embalado pelos hits do “Solitary Man”.
A trama acompanha Mike (Hugh Jackman), um veterano do Vietnã e alcoólatra em recuperação que sobrevive no circuito de bandas cover. Seu caminho cruza com o de Claire (Kate Hudson), uma talentosa imitadora de Patsy Cline e mãe solo. A química entre os dois é imediata e, com a insistência de Claire para que sejam “intérpretes, não imitadores”, nasce o ato Lightning & Thunder. A ascensão é retratada em ritmo de “Nasce uma Estrela”, passando de shows desastrados até o ápice de abrirem o show do Pearl Jam, contando com uma cena real que envolve Eddie Vedder.
“Song Sung Blue”: brilhando nos momentos musicais e no carisma do elenco
O grande trunfo do filme está, sem sombra de dúvidas, nas atuações de Hugh Jackman e Kate Hudson. Jackman, que já provou seu talento como showman em “O Rei do Show”, está em casa aqui. Ele está confortável e muito bem no papel de Mike, capturando a voz e a presença de Neil Diamond, mostrando um homem com talento genuíno, mas confinado aos circuitos de tributo. Hudson, por sua vez, também rouba a cena. Com uma atuação honesta e subestimada, ela entrega não só um sotaque de Milwaukee, mas uma performance vocal convincente. Inclusive, ela está indicada ao Oscar deste ano.
A química entre os dois pode não ser a parte mais eletrizante, mas a dinâmica profissional e a cumplicidade no palco são muito boas, para não dizer cativante. O filme tem aquela lógica manjada da narrativa de “nunca desista” com todo aquele otimismo já visto em qualquer filme do rótulo “em busca de um sonho”, mas também mostra a vulnerabilidade de quem tenta sobreviver às margens da indústria musical estadunidense.
Contudo, “Song Sung Blue” não é apenas uma jornada de sucesso. Aproximando-se do melodrama de uma novela, a trama dá uma guinada brutal em seu segundo ato, quando um acidente trágico atinge a família. É aqui que o filme testa seus limites, arriscando-se a se tornar exagerado em sua tentativa de equilibrar o tom “feel-good” com reviravoltas cruéis da vida real. Craig Brewer, que já lidou com histórias inusitadas em “Meu Nome é Dolemite” (disponível na Netflix), consegue, por um triz, segurar as pontas do tom, mantendo o foco na humanidade do casal.
A escolha narrativa é clara: ao contrário do documentário original, que explorava os aspectos mais absurdos e delirantes da história, o longa remove a ironia e a sátira. Fica nítido a escolha de mostrar empatia e respeito pelos sonhos e pela dor de Mike e Claire. É uma escolha por rir com eles, e não deles.

Vale a pena?
“Song Sung Blue” é um filme estranho, mas cativante. Funciona como uma celebração da resiliência e do poder da música. Embora a estrutura de cinebiografia musical seja familiar e o segundo ato possa parecer excessivo, a força da história real e as performances do elenco principal carregam a narrativa.
No fim, é um testemunho de que os maiores dramas, e as maiores histórias de amor e superação, muitas vezes não vêm dos holofotes de Hollywood, mas dos palcos iluminados por lantejoulas de um circuito local. “Song Sung Blue: Um Sonho a Dois” está em exibição nos cinemas.