Somos Todos Iguais (Same Kind of Different as Me, 2017), disponível atualmente na Netflix, passa necessariamente pelo contraste entre a força da história real que inspira o filme e as limitações narrativas da adaptação cinematográfica dirigida por Michael Carney. Trata-se de uma produção que aposta na emoção e na mensagem de empatia, mas que encontra dificuldades em transformar esses elementos em cinema consistente.
Baseado no livro autobiográfico de Ron Hall, o filme acompanha a trajetória de Ron e Deborah Hall, um casal branco e rico do Texas que vê sua rotina transformada ao se envolver com um abrigo para pessoas em situação de rua. É nesse contexto que surge Denver Moore, conhecido como “Suicide”, um homem marcado pela violência, pelo racismo e por uma vida inteira à margem da sociedade. O encontro entre esses três personagens estrutura a narrativa e estabelece o principal eixo temático do longa: o reconhecimento da humanidade no outro.
Ron é interpretado por Greg Kinnear como um negociante de arte bem-sucedido, emocionalmente distante e envolvido em uma traição conjugal. Deborah, vivida por Renée Zellweger, assume o papel de catalisadora moral da história, conduzindo o marido a um processo de mudança que passa pelo trabalho voluntário e pelo contato direto com realidades que ele sempre ignorou. Já Denver ganha vida por meio da atuação de Djimon Hounsou, responsável pelos momentos mais densos e memoráveis do filme.
É justamente Hounsou quem sustenta o impacto dramático da produção. Seus longos monólogos sobre o passado de Denver — marcado por trabalho forçado, agressões racistas e encarceramento — revelam uma história dura, que o filme tenta enquadrar dentro de uma estrutura acessível ao grande público. O problema é que essa abordagem frequentemente simplifica conflitos complexos, transformando experiências traumáticas em instrumentos para a jornada de redenção dos protagonistas brancos.
Narrativamente, Somos Todos Iguais opta por um ponto de vista centrado em Ron, o que reduz o peso da perspectiva de Denver, apesar de sua importância para a história. A escolha reforça uma sensação de desequilíbrio: o filme parece mais interessado em confirmar a transformação moral do casal do que em aprofundar as contradições sociais e econômicas que cercam a vida do ex-morador de rua. Ainda que haja momentos visualmente bem construídos — como cenas silenciosas que permitem aos atores expressar emoções sem diálogo —, a direção recorre com frequência a soluções previsíveis e a uma trilha sonora insistente.
Crítica do filme: vale à pena assistir Somos Todos Iguais na Netflix?
O roteiro também sofre com excessos explicativos, como o uso recorrente de narração em off e de flashforwards que enquadram a história como um relato já resolvido. Essas escolhas diminuem o impacto dramático e reforçam a impressão de que o filme confia pouco na força das imagens e das interpretações.
No fim, Somos Todos Iguais apresenta uma mensagem clara sobre empatia, escuta e reconhecimento do outro. A história que inspira o filme é relevante e carregada de significado, mas a adaptação cinematográfica não consegue explorar todo o seu potencial. O resultado é um drama bem-intencionado, sustentado principalmente pela atuação de Djimon Hounsou, que emociona em momentos pontuais, mas deixa a sensação de que poderia ter ido além.